A value is required.
Ao sair à procura da felicidade, corre-se o risco de não encontrado por ela...
Odsson Ferreira
Cosmogonia Antropogenese Apocalipse Mitos e Lendas Deuses Herois Divindades Filmes Épicos
Outros títulos
Ragnarok
Ragnarok - O crepúsculo dos deuses | 2011 |
Mirella Faur
As melhores histórias da Mitologia Japonesa
As melhores histórias da Mitologia Japonesa -  | 2011 |
Carmen Seganfredo
As melhores histórias da Mitologia Africana
As melhores histórias da Mitologia Africana -  | 2011 |
Carmen Seganfredo
Gilgamesh, o primeiro herói
Gilgamesh, o primeiro herói  -  | 2009 |
Carmen Seganfredo
Textos
Civilização Maia
Os últimos maias

A civilização maia clássica começou a decair no início do século IX d.e.c., durante o período chamado pelos arqueólogos de Clássico Terminal. Um ultimo desenvolvimento se deu em Seibal em aproximadamente 830 d.e.c., mas, dez anos mais tarde, um governante conhecido como Aj B'olon Haabtal ergueu cinco Estelas nas quais ele e retratado em estilo típico maia clássico - também há outros com características do México Central. O fim do Período Clássico Maia foi complexo e confuso, talvez uma combinação de superpopulação, desnutrição, seca, doenças e interferências estrangeiras. Qualquer que tenha sido a causa exata, a ultima Estela maia datada foi exatamente erguida em 15 de janeiro de 909 d.e.c., na cidade de Toning; após isso nunca mais se ouviu falar dos reis maias clássicos.

O que se seguiu foi uma era durante a qual as grandes cidades eram abandonadas ou tinham mais que uma pequena população abrigada nelas. Houve um colapso populacional na região de Peten, pois os milhões que moravam lá um século antes haviam abandonado suas casas. Alguns se mudaram para as terras altas da Guatemala, enquanto outros, que se identificam hoje como maias putun (e que se chamavam de Itza), mudaram-se do norte para a região da costa de Campeche e Tabasco, para formar grupos políticos independentes e se estabelecer ao redor de lagos no coração de Peten, mais provavelmente na ilha de Tayasal. Uma consequência das mudanças para as terras altas da Guatemala foi que a civilização maia de Quiche se tornou um grupo preeminente, dominando seus contemporâneos de Tzutujil, Kekchi e Cakchiquel de sua capital em Gumarcaaj (geralmente conhecida pelo seu nome asteca, Utatlan).

No norte de Yucatan, o mais famoso e misterioso evento do final do período clássico terminal e do começo dos períodos pós-clássicos foi a aparente revitalização e novo-desenvolvimento da cidade de Chichen Itza, cujo nome significa "Na boca do poço de Itza". O próprio sítio é um enigma pois algumas partes parecem pertencer a cultura tolteca pós-classica do México Central. As esculturas Chac Mool, a presença de um tzompantli, imagens de serpentes emplumadas e a grande pirâmide de quatro lados conhecida como El Castillo são menos maias do que do Mexico Central, e ainda assim sua grande habilidade visual e a dos artesãos maias trabalhando para estrangeiros.

No entanto, também há evidencias em algumas partes da cidade do estilo arquitetônico do período terminal clássico conhecido como Puuc. Os arqueólogos discordam ao interpretar esse sítio híbrido. Tradicionalmente, pensava-se que havia acontecido uma invasão tolteca de Yucatan que trouxe com ela o culto de sacrifício de coração e as imagens de Quetzalcoatl - a Serpente Emplumada - chamada pelos maias locais de Kukulkan. Discos de ouro, recuperados do grande poço natural conhecido como "Cenote de Sacrifício", retratam guerreiros tipicamente toltecas cortando o coração de uma vitima. Pensamentos recentes, contudo, sugeriram que os maias de Putun, talvez com os mexicanos centrais e possivelmente grupos toltecas, construíram Chichen Itzá como uma cidade deliberadamente híbrida.

 

Qualquer que seja a natureza verdadeira de Chichen Itza ela entrou em colapso por volta de 1221 d.e.c., depois de vários anos dominando a parte norte de Yucatan. Em seu início, a cidade fortificada de Mayapan tornou-se a força dominante sob a linhagem Kokoom, de cujos níveis o governante era escolhido. Contudo, muito da arquitetura da cidade parece apenas uma imitação do seu predecessor mais sofisticado. Os Kokoom mantiveram controle ate aproximadamente 1441 d.e.c. quando foram massacrados pela linhagem rival conhecida como Xiu. Mayapan entrou em colapso assim como sua rede de cidades baseada em tributos, e logo depois toda a região ficou estagnada com uma serie infinita de cidades e vilarejos buscando poder e influencia - um processo que ainda acontecia quando chegaram os europeus.

Durante o período Pós-clássico Posterior, houve uma nova mudança em direção ao comercio marinho da ordem de Putun. Grandes redes de comercio foram interligadas pela costa de Yucatan de norte ao leste do México, e do sul e de Honduras em diante. O maior povoado naquela época era Tulum na costa leste de Yucatan que se desenvolveu como porto comercial e centro de culto entre 1220 e 1519 d.e.c. Embora uma sombra das grandes cidades maias clássicas, ambos os templos e a cidade estavam estrategicamente localizados para o comercio marítimo e a peregrinação para o culto da deusa Lua Maia Ix Chel.

Havia outro porto comercial próximo, chamado Tancah, famoso hoje por seus murais pre-colombianos que representavam milícias marítimas. É possível que toda a costa leste de Yucatan tenha ficado sob o controle do comercio marítimo de Putún. Tancah e Tulum parecem ter estado no coração desse fenômeno, talvez associadas às crenças religiosas e astronômicas relacionadas ao planeta Vênus cujo hieróglifo foi encontrado entalhado em uma parede em Tancah.

A ilha de Cozumel e localizada a 16 quilômetros da costa nordeste de Yucatán, também parece ter sido um centro importante de rituais e comercio, provavelmente parte da rede comercial que abrangia Tulum, Tancah e a Isla de Mujeres. Foi em Cozumel que os maias Putun combinavam assuntos espirituais, comerciais e defensivos no pequeno santuário da costa que também deve ter servido como torres sentinelas. O padre espanhol Diego de Landa comentou depois que os maias consideravam Cozumel um centro de peregrinação como Jerusalém era para o Cristianismo. O comercio maia do Período Pós-clássico entrou para a história europeia durante a quarta viagem de Cristóvão Colombo entre 1502 e 1504 d.e.c. Ao largo de Honduras, próximo a Bay Islands, a expedição de Colombo encontrou grandes canoas de comercio maia. Pelo seu tamanho, seus 30 passageiros e sua carga de cacau, sinos de cobre, machados e equipamentos de metal, era óbvio para os espanhóis que este era de longe o povo mais sofisticado que eles haviam encontrado nas Américas.

Conquista espanhola

Em 1511 d.e.c., uma tripulação de europeus naufragados foi jogada nas praias no leste de Yucatan. Apenas dois sobreviveram a captura dos senhores maias - Gerenimo de Aguilar acabou servindo a um governante maia local e Gonzalo de Guerrero casou-se com a filha de um governante local. Em 1517, outra expedição que levou Francisco Hernandez de Córdoba aportou em Isla de Mujeres e mais tarde em Champoton, onde morreu por causa de ferimentos ao lutar com os maias locais. No ano seguinte, Juan de Grijalva e sua expedição aportaram na ilha de Cozumel, de onde ele viajou para o sul e viu em primeira mão o centro comercial de Tulum.

Grijalva retraçou sua rota e velejou pela península de Yucatan até a costa leste do México, onde ele foi o primeiro europeu a ouvir falar da civilização asteca. Influenciado pelas histórias de Grijalva quando retomou a Cuba, Hernan Cortes foi posto no comando de uma expedição no começo de 1519. O primeiro porto de Cortes foi Cozumel onde ficou vários dias destruindo os "ídolos pagãos" de Ix Chel e os substituindo por cruzes cristãs. Cortes então avançou na história com sua conquista ao império asteca, deixando para trás Yucatan e a cultura maia mais pobre. Nos anos que se seguiram a conquista espanhola do México Central, os maias de Yucatán foram subjugados por Francisco de Montejo, um membro das expedições de Grijalva e Cortes. Em 1526, foi dada a Montejo permissão real para conquistar e colonizar Yucatán, um processo que só foi terminado em 1546. A invasão inicial teve um bom progresso, encontrando pouca resistência ate 1528 em Chauaca, onde os espanhóis mataram mais de mil guerreiros maias; o efeito psicológico foi tão traumático que toda a resistência maia da Área desmoronou.

A segunda fase da conquista durou de 1531 ate 1535, tempo em que Montejo tinha suas bases em Champoton. Em 1531, o governante maia Ah Canul rendeu-se e Montejo mandou seu filho (Montejo, o Jovem) para o antigo centro maia de Chichen Itzá onde estabeleceu uma cidade real, mas foi forçado a abandoná-la quando os maias locais se voltaram contra ele. Pai e filho reuniram-se em Dzibikal mas logo depois chegaram notícias da vinda de Francisco Pizarro e de sua fabulosa conquista do império inca no Peru. Em sete anos de luta, Yucatan trouxe pouco ouro, e muitos soldados partiram agora para a América do Sul. Com o exercito desfalcado, a conquista foi cancelada.

Em 1541, Montejo entregou formalmente o legado da conquista para seu filho que prontamente estabeleceu suas bases de operações em Campeche. O poderoso maia Xiu rendeu-se, porém aqueles de Ah Canul recusaram-se. Em uma campanha contra eles, o primo de Montejo estabeleceu a cidade de Mérida no centro norte de Yucatan onde recebeu a submissão de Tutul Xiu, governante de Mani, o reino independente maia mais poderoso. A conversão de Tutul Xiu ao Cristianismo levou a mais submissões no oeste de Yucatan. Mas no leste as cidades maias ou aguentaram, ou submeteram-se e depois se rebelaram. A maior dessas rebeliões se deu em 1546 e envolveu uma aliança de grupos maias diferentes, e só foi reprimida por uma expedição liderada pelo próprio Montejo.

Após vinte anos, os espanhóis finalmente acabaram com dois milênios de civilização maia em Yucatan. Mais ao sul, contudo, os eventos tiveram um rumo diferente. Em 1524/5 o próprio Hernán Cortes liderou uma expedição às terras baixas centrais maias onde encontrou o governante Itza Canek e foi convidado a visitar a capital Teyasal. Canek anunciou que se tornaria cristão e que foram seus guias que permitiram que a expedição espanhola continuasse sem nenhum desastre na floresta. Enquanto isso mais ao sul, nas terras altas, os maias quiche e cakchiquel atacavam as cidades que se declararam aliadas dos espanhóis apesar de terem enviado uma nota oficial de que eles também se submeteriam aos espanhóis. Cortes respondeu enviando seu tenente Pedro de Alvarado para conquistar os maias do sul, cujo território é a atual Guatemala.

A campanha de Alvarado embrenhou-se em domínio maia derrotando a força quiche em batalha e depois aterrorizando a área. O valor de sua cavalaria foi bem utilizado em outro ataque contra os quiches depois do qual os espanhóis e seus aliados do México Central entraram na cidade abandonada de Xelahu (hoje chamada de Quetzaltenango). Após uma terceira derrota alguns dias depois (durante os quais muitos quiches foram mortos), os maias suplicaram por paz e convidaram os espanhóis para sua capital Utatlán. Alvarado capturou e matou muitos líderes quiches e queimou a cidade, e então virou sua atenção para os maias cakchiquel em sua capital Iximche.

Inicialmente, os cakchiquel tornaram-se aliados dos espanhóis, mandando 4 mil guerreiros para ajudar Alvarado a acabar com a resistência dos quiche. Eles também persuadiram os espanhóis a ajudá-los a derrotar seus outros inimigos tradicionais, os tzutujil. A aliança funcionou bem e logo os tzutujil ofereceram fidelidade a Coroa espanhola. No entanto, a demanda por ouro de Alvarado logo enlouqueceu os cakchiquel e eles se rebelaram. Uma guerra amarga e cruel seguiu-se ate que finalmente os cakchiquel admitiram a derrota.

O final de qualquer nação maia verdadeiramente independente veio com a derrota de Itzá, cuja base estava em sua ilha, capital de Tayasal no lago Peten Itzá. Em 1618, os missionários espanhóis passaram algum tempo em Tayasal durante o qual eles destruíram um ídolo chamado Tzimin Chac - uma escultura em pedra de um cavalo deixado Iá por Cortes quase um século atrás. Subsequentemente, uma força espanhola enviada contra Itzá foi pega de surpresa e massacrada, e por quase um século os Itzá foram deixados ao leu, com os vilarejos maias próximos renunciando a sua conversão e dirigindo-se aos deuses antigos. Em 1696, um pequeno grupo de missionários franciscanos chegou em Tayasal para converter os Itzá, mas eles disseram que, de acordo com seus livros sagrados, aquela não era a época certa, entretanto se voltassem vários meses depois, os maias realmente se converteriam.

Quando finalmente uma força espanhola foi enviada para tomar Itza, ela foi atacada e derrotada mais uma vez e se tornou aparente que apenas uma derrota esmagadora subjugaria o ultimo reino maia. Por volta de 1697, um exercito espanhol que estava na praia do lago Peter Itza, e tendo construído uma galera para navegar no lago, atacou Tayasal na manha de 13 de março. Os espanhóis dispararam tiros de canhão e, em consequência disso, o pânico se espalhou pelos defensores que se atiraram no lago para fugir. A cidade virou uma bagunça e logo a bandeira espanhola estava no templo mais alto de Tayasal. Foi nesse momento que mais de 2 mil anos de civilização maia pré-colombiana independente chegaram ao fim.

Legado

Apesar do fim de sua soberania política, os povos maias não desapareceram da história e sua diversidade étnica e linguística sobrevive ate hoje. Em Yucatan, durante os anos e séculos seguidos de sua pacificação, os escravos maias escaparam de seus mestres e se abrigaram no interior. Insurreições foram inspiradas por sacerdotes xamas que afirmavam ter recebido revelações divinas dos deuses, algumas delas inscritas em documentos híbridos maia-espanhóis conhecidos como Os livros de Chilam Balá. No decorrer do período colonial, os maias de Yucatan resistiram aos seus mestres, fazendo ídolos de seus deuses e distribuindo-os pela região, criando movimentos religiosos escondidos, falando de profecias sobre o final do domínio espanhol e, as vezes, matando espanhóis e seus defensores.

Por volta de 1848, a chamada Guerra Maia Casta viu milhares de maias e brancos perecerem em uma luta provocada pela reforma agraria. Ainda assim, havia também grandes dimensões religiosas nesse conflito que não terminou ate 1901. Em 1850, o culto maia da cruz falante emergiu entre os povos maias que foram persuadidos a liberar suas terras dos espanhóis. Talvez usando ventríloquos nativos, aqueles maias que patrocinavam a cruz falante faziam com que ela aparecesse para definir estratégias militares bem como temas religiosos. A cruz falante deu voz as emoções e desejos de seus seguidores maias falando e escrevendo cartas através de um individuo conhecido como escriba ou Secretário da Cruz. O cargo de escriba parece ter continuado ate pelo menos 1957.

Atualmente, em varias partes do pais, festivais maias nativos são voltados para o Cristianismo, mas a filosofia pré-colombiana antiga em sua essência continua a ser celebrada. Um destes eventos é um carnaval nas terras altas maias de Chamula, onde a celebração e chamada de "Paixão" e a personificação maia de Cristo por meio de quem Deus volta a Terra durante a Pascoa. Nesse local e em outros, a paixão de Cristo foi indianizada, tornou-se relevante aos povos e dessa forma-se tornou parte de sua própria história.

Civilização Maia
Civilização maia clássica

A data de início geralmente aceita para o Período Clássico e de 250 d.e.c., e é nessa época que a civilização maia acelera cada vez mais rápido, desenvolvendo-se em suas bases pré-clássicas. Há agora uma explosão de estelas datadas especialmente na área ao redor da cidade da Tikal na região central das terras baixas de Peten. Diversas estelas inscritas aparecem nessa época, a maioria traz as datas no chamado Sistema de Series Inicial o qual corresponde ao período entre 238 e 593 d.e.c. Os chamado Emblemas Hieroglíficos também são evidentes; acredita-se que eles identifiquem o numero crescente de cidades-estado autônomas, o tamanho médio das quais, de acordo com alguns cálculos, deveria ser de 2.000 quilômetros quadrados.

Os arqueólogos sempre enfrentam problemas sérios ao tentar identificar e investigar as construções do início do Período Maia Clássico, pois muitos foram subsequentemente demolidos ou reconstruídos em épocas posteriores na medida em que as cidades se tornavam maiores e os templos-piramidais maiores em design e em tamanho. Ilustrando esse processo está o grupo de construções de Tikal chamado de Mundo Perdido, onde pirâmides pré-clássicas designadas 5C-54 eram constantemente ampliadas e a área inteira finalmente remodelada em aproximadamente 250 d.e.c. Sepulturas reais eram então inseridas nessas estruturas e, na opinião de peritos, podem pertencer a dinastia chamada de "Patas de Jaguar". Logo depois, em 378-9 d.e.c., uma nova força cultural pode ser identificada em Tikal, trazendo com ela as formas arquitetônicas do México Central. Essa incursão política e supostamente militar parece ter vindo da grande metrópole de Teotihuacan.

A influencia da nova forma de governo de Tikal com bases na de Teotihuacan também se manifesta em outras partes da região maia central com novos governantes chegando ao poder, provavelmente em aliança com a dinastia Tikal liderada pelo rei tradicionalmente chamado de "Nariz Adunco", mas de nome Yax Nunn Ayiin. Existem imagens desse governante usando emblemas de Teotihuacan e em seu tumulo há cerâmica adornada de iconografia híbrida maia-teotihuacana que acompanhava o governante falecido ao além-mundo. A apenas 60 quilómetros de Tikal, a cidade maia de Rio Azul tornou-se uma força dominante entre 400 e 550 d.e.c.; evidencias apontam que seus governantes eram indicados ou impostos por Teotihuacan ou sua cidade satélite de Tikal. No início desse período um grande número de sepulturas pintadas foi construído, uma delas era a Sepultura 19, que trouxe grandes pistas sobre as sepulturas maias de alta estirpe por não ter sido ainda espoliada quando os arqueólogos a descobriram. Esta sepultura e outras próximas trazem indícios da influencia de Teotihuacan na iconografia e na cerâmica, ainda que estas sejam acompanhadas por inscrições hieroglíficas maias mostrando a identidade do falecido. Embora algumas cerâmicas possuíssem o estilo de Teotihuacan, eram feitas com materiais locais, uma prática também encontrada em outros sítios como Nohmul.

Houve uma evidente quebra cultural nessa área central da civilização maia clássica entre 534 e 593 d.e.c. Chamada pelos arqueólogos de Hiatus, foi claramente uma fase de intrigas políticas e artimanhas, mas provavelmente dominada pelas tentativas da cidade de Calakmul em estabelecer uma serie de alianças e assim cercar e subjugar Tikal. Nos próximos duzentos anos, de 600 a 800 d.e.c., um ressurgimento da cultura maia se dá levando a maioria dos peritos a concordar que este chamado Período Clássico Posterior representou o apogeu da civilização maia. Foi durante esses anos que muito da grande arquitetura foi erguida e a densidade da população alcançou e provavelmente excedeu a capacidade da terra de suportá-la. Nessa época, as grandes cidades maias tomaram sua forma final - centros cerimoniais vastos e imponentes cercados de densos subúrbios de artesãos e fazendeiros.

Estradas cerimoniais, chamadas saché (plural, sacheob), ligavam as diferentes vizinhanças templo-piramidais das cidades e também se estendiam aos subúrbios para se ligar com outras cidades. Povoados maias menores estavam espalhados pela região como versões miniaturas das grandes cidades, com talvez um pátio central simples ou, em alguns casos, pequenas pirâmides. Alimentar essa população que germinava era provavelmente possível por meio de varias medidas de agricultura, que incluíam drenagem de áreas pantanosas, construção de reservatórios e sistemas de canais e comercio de grandes quantidades de gêneros alimentícios - tudo complementado pela pesca e carga, particularmente a do cervo.

Guerra, sangue, politica e sacrifícios

Todas as civilizações mesoamericanas travavam guerras e celebravam a vitória com cerimonias públicas incorporando rituais de sacrifício humano. Os mais clássicos não eram diferentes nesse aspecto. Sem dúvida, eles empreendiam campanhas militares contra as cidades vizinhas para expandir seu território, impor controle politico (e possivelmente arrecadar tributos) e ganhar prestígio para suas dinastias reais. Um dos conquistadores maias de maior sucesso foi o rei conhecido como Governante 3 da cidade maia de Dos Pilas, que expandiu seu controle sobre muitas cidades menores e criou um superestado de curta duração até que ele foi capturado por cidades rebeladas.

No entanto, durante o Período Clássico, pelo menos indícios artísticos e hieroglíficos sugerem que investidas e milícias foram empreendidas para capturar guerreiros de alta estirpe, de preferencia de linhagem real, teoricamente, o próprio governante inimigo. Esses indivíduos então seriam sacrificados e seu sangue oferecido aos deuses em atos de culto, tornando isso possível pela valorosa competência estratégica aos vitoriosos. Por essa razão, as milícias maias, diferentes de sua parceira do Mundo Antigo, não eram empreendidas para matar homens no campo de batalha, mas para derrota-los em combates braçais e captura-los vivos - uma tarefa muito mais difícil de se empreender.

Uma interpretação desse tipo de milícia é que, para os maias, o sangue era a liga que unia o Universo, evitando que suas inúmeras partes caíssem em um caos cósmico político e social. Os deuses desejavam sangue e era dever das dinastias maias fornece-lo em um grande numero de rituais. Mais do que tudo, talvez o poder simbólico do sangue santificasse e legitimasse as complexidades do poder político da civilização maia clássica. Como um líquido sagrado, o sangue de indivíduos de alta classe era derramado em ocasiões especiais - para dedicar um novo templo piramidal, para designar um novo herdeiro e para coroar um novo rei. A imaginação aos maias não conhecia limites quando se tratava de inventar maneiras de humilhar, torturar e finalmente sacrificar as suas vítimas. Um destino especial aguardaria um governante caso ele fosse capturado. Em 738 d.e.c., tal evento ocorreu quando K'ak Tiliw (também conhecido como "Ceu Cauac"), o governante do pequeno centro de Quirigua, emboscou o poderoso Waxaklajun Ub'ah K'awil (também conhecido como "Coelho 18") de Copan. Cercado do que podem ter sido cenas de transe, o infeliz cativo foi decapitado no final de um jogo de bola que celebrava a vitória militar e estabelecia o evento inteiro em uma estrutura política e cosmológica encenando novamente o jogo de bola dos Gêmeos Heróis. Como esse evento aconteceu, nunca saberemos, embora pareça que, apesar de pequeno, Quirigua tinha o sombrio apoio da grande e poderosa cidade de Calakmul, o que seguiu esta vitória era típico da política e milícia maia. Para celebrar seu sacrifício de Waxaklajun Ub'ah K'awil uma grande variedade de monumentos de propaganda em Quirigua foi autorizada. Esculturas extraordinárias eram entalhadas com grande habilidade e cobertas com eloquentes textos hieroglíficos exaltando as virtudes cósmicas do rei de Quirigua. Depois da execução e ao decorrer de sua vida, K'ak Tiliw ergueu grandes estelas de pedra e enormes penedos entalhados com estranhos seres zoomórficos, tais como o monumento conhecido como Zoomorfico B, dedicado em 2 de dezembro de 780 d.e.c., aproximadamente quarenta e dois anos apos o evento. Ele representa K'ak Tiliw emergindo da boca de um grande crocodilo que carrega o Sol e flutua no além-mundo. A cena completa foi interpretada como uma representação da porta que liga o mundo dos vivos com o reino espiritual, assim associando o governante com ideias de transformação, morte e renascimento. Para os maias, tais monumentos eram imagens acessadas por meio de artes e rituais.

Tais monumentos comemorativos, em Quirigua e em outros lugares, dão-nos uma visão do mundo bizarro da política maia onde milícias, sacrifício, sangue, renovação urbana e elaboradas formas de arte estavam entrelaçadas com mitologia e religião. Mito e historia eram vistos de uma única forma, bem diferente do que ocorre hoje.

Uma visão diferente e ate agora íntima e detalhada das causas, curso e resultado das milícias maias clássicas foi preservada em um conjunto de murais coloridos na cidade de Bonampak. Em um terraço na acrópole central do sítio, há uma construção de três aposentos em cujas paredes esta uma sequencia de rituais celebrando a coroação de um novo herdeiro ao trono da cidade que ocorreu entre 790 e 792 d.e.c. e parece ter sido associada a Vênus como o símbolo maia sagrado da guerra.

A sequencia de eventos começa na Câmara 1 em 790 d.e.c. Esta primeira cena acontece em um palácio não identificado, com os pais do herdeiro, o rei Chaan Muan e sua esposa, assistindo aos eventos a partir de um grande trono. A cena então se passa para o ano seguinte mostrando Chaan Muan e dois companheiros preparando-se para a cerimonia, e a imagem final mostra uma procissão de senhores ricamente trajados, as três figuras anteriores agora dançando e todos acompanhados de músicos tocando instrumentos de percussão.

Na Câmara 2, uma dramática cena de batalha esta pintada com maestria dando uma ideia da fúria e da selvageria das milícias maias. Guerreiros engalfinhando-se, lanças sendo atiradas e prisioneiros puxados pelos cabelos. No centro desses eventos sangrentos, estão duas figuras vestidas com pele de jaguar usadas pela realeza, que identificam Chaan Muan e, provavelmente, seu aliado o rei Escudo Jaguar II da cidade de Yaxchilan.

A segunda cena dessa câmara mostra a apresentação de cativos de guerra. Chaan Muan é, mais uma vez, a figura central, vestindo um cocar emplumado e carregando sua lança revestida de pele de jaguar. Atrás dele estão aliados também vestidos com pele de jaguar, e, espalhados aos seus pés, estão os prisioneiros, nus, sangrando pelas pontas dos pés com um deles já decepado. Esses são supostamente prisioneiros reais cuja morte ritual purificara o nome do filho de Chaan Muan como seu herdeiro.

Embora bem danificada, a Câmara 3 parece mostrar o auge dos eventos com membros ricamente vestidos da família real acompanhados por músicos e dançarinos, e o que parece ser uma visão de Chaan Muan e seus seguidores acima de sua família sentada, membros que estão praticando ritos de sangramento e auto-sacrifício. Dos indícios dos hieroglíficos associados parece que a batalha e seu resultado sangrento eram necessários para legitimar eventos sangrentos com influencias celestiais e sobrenaturais. A batalha se deu em 2 de agosto de 792 d.e.c. quando Vênus, o planeta da guerra e da destruição, passou em frente ao sol e desapareceu do céu; a cena demonstra a humilhação dos prisioneiros e seu sacrifício iminente que se deu vários dias depois, no momento em que Vênus apareceu pela primeira vez antes do Sol no amanhecer.

Essa associação de Vênus com as milícias que aparece disseminada e indicada pelo que os eruditos da cultura maia chamaram de hieróglifo da estrela ou milícia de Vênus, que foi a batalha de dois dias entre as cidades de Seibal e Dos Pilas em dezembro de 735 d.e.c. Na Estela 16 comemorativa em Dos Pilas, o Governante 3, o vitorioso, registrou como ele levou o Patas de Jaguar, o recapturado de Seibal de volta a sua cidade onde foi despido de seus ornamentos, torturado e amarrado. A Estela apresenta o Governante 3 de perfil no intuito de mostrar todo detalhe simbólico de seus ornamentos com suas botas com garras de jaguar; ele fica sobre a imagem esmagada das Patas de Jaguar.

A natureza sagrada do sacrifício de sangue e a guerra eram temas constantes em todos os templos de arte maia, embora esculturas monumentais originalmente pintadas com maestria tivessem sua precedência. Exemplos desse tipo elaborados de conflito são inúmeros, embora a cidade de Yaxchilan tivesse produzido a arte informativa mais rica do Período Clássico para comemorar tais eventos. Dois dos governantes da cidade, "Escudo Jaguar" e seu filho "Pássaro Jaguar", construíram templos que tinham inscrições hieroglíficas que, entalhadas em linteis, retratavam os vários estágios das milícias maias, incluindo o derramamento de sangue, a busca e a captura dos prisioneiros. Uma das imagens maias mais famosas esta entalhada no Lintel 26 de Yaxchilan datado de 12 de fevereiro de 724 d.e.c.; ele mostra Escudo Jaguar recebendo o capacete de ninfeias de jaguar de sua esposa, ao redor de sua boca estão traços de sangue que indicam que ela havia feito o ritual de auto-sacrifício de derramamento de sangue que é mostrado em outra obra-prima mais conhecida como Lintel 24.

O que fica evidente é que nos períodos maias Pré-clássico, Clássico e Pós-classico, os rituais de derramamento de sangue estavam ligados a rituais de passagem e também a humilhação de prisioneiros de guerra de alta estirpe. Para os maias, o sangue era a identidade e a legitimidade, associadas a fertilidade, como mostra as figuras de homens de alta estirpe colocando piercings nos seus pênis. O sangue humano era um líquido precioso que ligava o Universo com os reis vivos e com o cosmo.

A value is required.A value is required.

Listar todos
Civilização Maia
Os maias, a religião e sua visão de mundo

A mitologia foi trazida para o cotidiano maia como parte da visão de mundo e da religião. Talvez mais do que em qualquer outra civilização mesoamericana, o grande numero é a sofisticação de construções, templos piramidais, a arte e as inscrições hieroglíficas que os decoravam eram religiosos por natureza. A região maia não era imperialista como era, em parte, a dos astecas e a dos Incas da América do Sul. Pelo contrario, ela servia as dinastias reais que controlavam as inúmeras cidades-estado maias que floresceram durante o Período Clássico.

O sistema mesoamericano de calendário duplo desenvolvido pelos maias em sua forma mais sofisticada e muitos deuses que se acreditava controlar o tempo e o Universo ficam no coração da religião maia. Os maias adquiriram o calendário duplo dos zapotecas entre os quais ele apareceu pela primeira vez. (Ele era composto de dois calendários separados, porem interligados que expressavam uma visão extremamente cíclica do tempo, integrando as esferas paralelas da vida cotidiana e da vida sagrada.)

O calendário solar era o Haab, que tinha 18 meses de 20 dias cada, totalizando 3ó0 dias, conhecido como tun. A este eram adicionados 5 dias agourentos, o uayeb, para dar um total de 3ó5 dias. Em paralelo, e intercalado com o ano solar, estava o calendário sagrado, ou Tzolkin, constituído de 2ó0 dias divididos em 20 semanas de 13 dias cada. Cada uma dessas semanas era presidida por uma divindade ou divindades, e cada dia também possua seu deus ou deusa. Para os maias, a ligação dos dois calendários produzia uma "Volta no Calendário" de 52 anos. Dessa forma, o tempo e o destino dos indivíduos e da sociedade eram concebidos como cíclicos - uma serie de eventos míticos e reais fundidos.

Associado aos calendários estava o sistema matemático que os fazia funcionar. Este era conhecido como notação barra-e-ponto, e provavelmente surgiu pela primeira vez entre os zapotecas do Oaxaca. Diferente do sistema decimal atual, os maias usavam um sistema vigesinzal, no qual havia um ponto = 1, uma barra = 5, e uma concha estilizada = 0. A genialidade estava em fazer o valor do numero depender de sua posição, não como alhures, tendo que inventar números cada vez mais compridos, como 100, 1.000, 1.000.000. No sistema maia de notação por posição, um numero infinito de valores poderia ser expresso meramente combinando pontos, barras e conchas em diferentes posições.

Ao passo que o sistema matemático ocidental cresce em valores da esquerda para a direita por um fator de 10, no sistema maia, os valores crescem de baixo para cima por um fator de 20, começando com o nível mais baixo de valor 1, o próximo nível de valor 20, depois 400, 8.000 e assim por diante. Desse modo, um único ponto colocado em cada um dos três níveis significaria 421, e uma única barra colocada em cada um dos três níveis significaria 2.105.

Apesar dessa sofisticação, os maias compartilhavam com outros povos mesoamericanos uma visão de mundo que via a força espiritual e o poder dos ancestrais em cada item do mundo natural, desde as arvores ate a agua, de nuvens a cavernas, do deslizar da serpente ao corpo malhado do jaguar movendo-se furtivamente pela floresta. Essa visão de mundo não era nada mais do que uma variação (embora efetivamente maia) das filosofias ameríndias de vida, da morte e do mundo natural.

Para os maias, como para todos os povos mesoamericanos, as paisagens geográficas eram lugares sagrados, com características naturais interpretadas como locais culturalmente significativos. Como em Teotihuacan, as cavernas eram sagradas, consideradas entradas para o além-mundo, acessos perigosos entre o mundo físico e o espiritual e, dessa forma, lugares para rituais ligados a morte, vida no além e fertilidade. Essas ideias persistem ate hoje no mundo das comunidades modernas maias, embora sem o esplendor barroco do Período Clássico. A mais famosa caverna maia do mundo antigo e Naj Tunich na região de Peten na Guatemala; possui cerâmicas e sepulturas do período pré-clássico até o final do período clássico. Ela também preservou inscrições hieroglíficas do século VIII d.e.c. que incluíam representações do jogo de bola, de deuses maias e dos populares Gêmeos Heróis Hunahpu e Xbalanque.

Igualmente eloquente quanto as concepções de mundo maia é a sua visão espiritual da agua e seus reflexos, talvez o local abaixo de sua superfície reluzente sendo uma entrada simbólica para o mundo espiritual. Pode ser que a pratica comum de construir grandes reservatórios no centro de cidades maias estivesse associada com tais crenças.

Os governantes maias teriam enfatizado seu controle sobre a agua para fins práticos do dia-a-dia como bebida e irrigação; parece que eles também estavam preocupados com o controle de suas dimensões metafísicas. As qualidades magicas da agua eram obtidas por rituais de banho e pela localização de reservatórios próximos aos templos-piramidais a fim de que se refletissem essas grandes construções e as sepulturas que nelas existiam.

O acesso ao mundo sobrenatural era restrito a elite, em rituais que estimulavam as experiências multissensuais do mundo. Fumar cigarros feitos do narcótico tabaco selvagem era uma maneira de acessar o além-mundo, e isso é mostrado na arte maia clássica. Havia também o ritual de ingestão de plantas alucinógenas e bebidas tóxicas. Essas incluíam o balche, uma bebida alcoólica feita de mel, cascas de arvore e vários tipos de cogumelos alucinógenos como o xibalbaj okox ou "cogumelo do além-mundo", e talvez secreções do sapo venenoso Bufo marinus. O uso de enemas para inserir substancias narcóticas ao corpo e com isso induzir o transe era uma pratica comum na Mesoamerica e na América do Sul. Os maias clássicos parecem ter compartilhado dessa prática, e tubos de ossos foram interpretados como sendo restos de seringas encontrados em sepulturas reais.

O aspecto visionário da religião maia foi incorporado aos períodos maias posteriores na figura do sacerdote xama chamado de Chilam, que interpretava os mundos aos espíritos e depois fazia profecias aos seus colegas e governantes. Exemplos posteriores dessas previsões do período maia pós-clássico foram traduzidos para o espanhol, e então para o inglês, como O Livro de Chilam Balam de Chrurnayel, e O Livro de Chilam Balam de Maní, no qual Chilam Balam significa "Sacerdote Jaguar". Para os maias clássicos, contudo, nada era tão poderoso como o sangue humano para unir os humanos ao reino sobrenatural.

Usando passagens do Popol Vuh, outro códice fragmentado maia, estudos recentes de iconografia e a vantagem de decifrar hieróglifos, o nosso entendimento do mundo maia e de sua religião foi modificado durante os últimos vinte anos. Os maias evidentemente consideravam a terra plana, com quatro direções sagradas, cada uma associada a uma cor: branco para o norte, amarelo para o sul, vermelho para o leste, e preto para o oeste. De modo mesoamericano, o centro também era uma direção sagrada e sua cor era o verde. Em uma tradição antiga, o céu era sustentado por quatro seres sobrenaturais conhecidos como Bacab; em outra, diferentes tipos de arvore sustentavam os cantos cósmicos da terra como a grande arvore sumauma (ceiba) sustentando o centro. Havia 13 níveis para o céu, cada um com sua própria divindade e direção ascendente. Em direção descendente, o além-mundo possuía nove níveis controlados por nove deuses da escuridão. Acreditava-se que as arvores em geral e a sumauma em particular penetravam os três níveis cósmicos - com raízes no além-mundo, o tronco no mundo terreno e a copa arranhando o céu.

Na arte maia, partes do mundo e diversas ideias filosóficas sobre elas eram frequentemente representadas como animais, o céu aparecendo como uma serpente de cabeça decorada com temas que representavam os corpos celestiais, e a terra representada por um grande crocodilo flutuando na agua, rodeado de ninfeias. No pensamento maia clássico, ideias complexas de genealogia, astronomia, regulamentos do mundo natural eram combinadas para produzir criaturas sobrenaturais poderosas, símbolos que falavam da elite dominante, de sua linhagem real e de seus poderes sobrenaturais.

O Monstro Celestial era um ser complexo, com duas cabeças e corpo de crocodilo. A cabeça tinha um nariz longo, garras proeminentes e uma barba; ele carregava um hieróglifo do planeta Vênus. A cabeça traseira tinha olhos carnudos e uma mandíbula inferior em forma de esqueleto, e estava decorada com um hieróglifo que representava o Sol. Este ser fantástico foi interpretado como a representação zoomórfica de Vênus e do Sol, com planetas anunciando o nascer do Sol pela manhã e anunciando seu poente no horizonte ao anoitecer.

Igualmente grotesco na sua aparência é o chamado Monstro Cauac, visto pelas especialistas em cultura maia Linda Schele e Mary Ellen Miller como a representação da essência da pedra, associada às estruturas construídas em pedra, penedos e fissuras naturais das pedras. O monstro também é zoomórfico, com olhos parcialmente fechados e a testa partida, por onde, as vezes, o milho emerge. Parece estar ligado aos relâmpagos; suas associações infernais são reforçadas pela crença maia de que a pedra-de-fogo e a obsidiana são criadas quando um raio atinge a terra. Também tipicamente maia eram o "Monstro Ninfeia", símbolo de lugares úmidos como lagos e pântanos, e a "Serpente da Visão", uma personificação em forma de serpente de visões alucinógenas, associada ao sangue.

Os deuses

Nesse grande esquema cósmico, os maias tinham aparentemente um grande numero de deuses, embora, como os astecas, é provável que poucas divindades principais tivessem um número infinito de formas e manifestações. Como o erudito em cultura maia menciona, algumas divindades possuíam quatro versões, de acordo com a cor; em outra, apareciam jovens ou velhas; algumas tinham uma essência feminina e masculina; e muitas incorporavam aspectos diferentes da aparência animal em um caleidoscópio de imagens fantásticas e monstruosas. Ideias ocidentais de deuses honestos, cada um com um conjunto de responsabilidades e de qualidades, não se encaixam no padrão maia.

Além da cerâmica pintada e das esculturas entalhadas em pedra, as imagens mais importantes das divindades maias vem do período pós-clássico; no entanto, ainda há códices anteriores à conquista que sobreviveram como: o Codex Dresden, o Codex Paris e o Codex Madri. Todos pintados em papel de cascas de árvores, o Codex Dresde trazendo informações precisas sobre nomes de divindades e seus atributos, o Paris associado com a cidade maia de Mayapán, e o Madri sendo o ultimo sobrevivente, com a extensão de 56 folhas, e relacionado com a região norte de Yucatán. Tais são as complexidades ao identificar deuses e seus atributos e diferentes variáveis entre diferentes especialistas em maias bem como as sutilezas de interpretação que certamente existem. No entanto, uma apreciação geral do panteão maia segue abaixo.

Os dois deuses maias principais eram um par cósmico, do qual todas as outras divindades descenderam. O mais importante deus masculino era Itzamná (Casa do Lagarto), representado na arte como um homem velho e descrito como a divindade da escrita e do aprendizado. Durante o período clássico, ele é mostrado em cerâmicas pintadas como um escriba e com o título hieroglífico ah dzib (Aquele que Escreve). Ele geralmente usa um disco enfeitado de contas em sua testa, o qual denota a escuridão e pode representar um espelho de obsidiana, um dispositivo mágico de adivinhação da Mesoamerica.

Em seu papel de criador do mundo, Itzamná era chamado de Hunab Ku, mas este é um aspecto muito vago e remoto de seu ser e nenhuma imagem dele nessa forma é conhecida. No entanto, esse papel de criador junto a natureza réptil do céu e da terra na cosmologia maia combinou para associar a Via Láctea que era entendida e representada artisticamente como uma serpente de duas cabeças. Itzamná parece ter sido o deus da realeza maia, especialmente em outra de suas formas, o Kinich Ahau, ou Deus Sol.

Em algumas interpretações, o consorte de Itzamná era Ix Chel ("Snhorae do Arco-Iris"). Durante o período maia clássico, ela estava associada com a Lua e, às vezes, com a destruição por meio de suas ligações com o Deus L, a divindade da Guerra. Nessa época, ela era representada como uma mulher velha tendo cobras no lugar de cabelos e adepta da feitiçaria. Contudo, no final da epoca pós-classica ela era associada a medicina e era responsável pela gravidez e pelos partos. Nessa forma mais benevolente, ela se tornou alvo de peregrinação e de culto em seus santuários nas ilhas Cozumel e Isla Mujeres na costa leste de Yucatan.

Kinich Ahau, o deus Sol, era ou uma divindade própria ou uma das formas de Itzamna. Ele é frequentemente identificado por carregar o hieróglifo do Sol em seu corpo e parece ter uma relação forte com os governantes maias que se identificavam com ele. A paixão maia (e ameríndia) pela transformação é revelada pela mudança de forma de Kinich Ahau em Deus Jaguar do além-mundo quando ele desapareceu do ocidente e viajou pelas regiões inferiores para surgir novamente no oriente ao amanhecer.

O importante deus da chuva era conhecido como Chac, e também deve ter sido uma divindade singular ou talvez uma manifestação de Itzamna, cuja natureza réptil e sua aparência identificavam-se com a agua. Conhecido como Chac durante os períodos clássico e pós-clássico, possuía quatro formas de transformação, cada uma delas associada com uma cor diferente, e aparecia para os humanos como trovão e relâmpago. Durante o período clássico, Chac é mostrado pescando e usa barbatanas de bagre e escamas como identificadores de sua natureza aquática. Ele também pode carregar um machado ou um raio como suas armas sobrenaturais.

Outra divindade importante e Bolon Tza'cab, também conhecido como Deus K. Ele compartilha com Itzamná o aspecto réptil e possui um machado ou cigarro aceso junto a sua testa. Aparece primeiramente relacionado a um cetro (instrumento associado a coroação de um novo governante) em Tikal nos primórdios da influencia de Teotihuacan no local. Pode ser que o próprio cetro tenha evoluído da arma do México Central chamada atl-atl (atiradora de lanças).

Há uma grande quantidade de deuses menores proeminentes na cultura religiosa maia e manifestavam varias qualidades que eram caracteristicamente maias e, no entanto, também tipicamente mesoamericanas. Ek Chuah, cujo nome significa "Escorpião Negro", era o deus negro dos negociantes de cacau; Ah Chicum Ek ou "Estrela Guia" possui um hieróglifo que denota "Norte" e "consequentemente" foi identificado com a Estrela Polar. Yum Kaax é o deus do milho e é mostrado como um jovem viril associado com a fertilidade da agricultura.

No além-mundo, aparecem três divindades principais: o "Deus L" que e representado fumando um grande cigarro e vestindo um cocar de coruja, e está associado com a guerra e a morte; o "Deus N" que está associado ao final do ano e aos quatro seres sobrenaturais que sustentam o mundo; e o "Deus D" que e identificado com Itzamná em uma de suas formas, neste momento associado a terra. O deus Jaguar do além-mundo também está presente, e sua divindade nomeada como "G1" é identificada como "Deus da Chuva" e nas regiões inferiores é identificada com a decapitação.

Civilização Maia
A chegada dos espanhóis e os últimos maias

Quando os espanhóis chegaram à península de Yucatán, em 1523, O império maia era apenas uma sombra do que fora outrora. Não foi páreo para a gana conquistadora dos soldados liderados por Pedro Alvarado, enviado do navegador Hemán Cortés, que já dominara os astecas. A falta do conhecimento sobre o ferro e a pólvora - leia-se arcabuzes, mosquetões e pistolas - ajuda a explicar porque os povos pré-colombianos sucumbiram com relativa facilidade aos europeus. Mas não justifica tudo. Os maias já se encontravam em decadência na época do embate.

Ainda assim, os europeus traziam outro trunfo nas caravelas: cavalos. Chamados de grandes veados pelos indígenas, haviam sido introduzidos na Europa pelos árabes e tinham fabulosa utilidade militar. Os cavalos eram poucos, mas cobertos de arreios de guerra, semeavam o terror entre o povo.

Os maias de Yucatán resistiram até 1546. A partir daí, foram submetidos ao trabalho forçado, perderam gradativamente sua identidade cultural e a população primitiva foi praticamente destruída.

ALIADOS INVISÍVEIS

Além do poderio bélico, os conquistadores contaram com aliados inesperados: os vírus e as bactérias. Os europeus traziam consigo várias cepas de doenças, como varíola, tétano, enfermidades pulmonares, intestinais e venéreas, além do tifo, da lepra, da febre amarela e das cáries, que faziam os dentes apodrecer em suas bocas.

O sistema imunológico dos nativos que sobreviveram às balas não resistiu à varíola, a primeira epidemia a aparecer. Segundo o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, mais da metade da população aborígine da América morreu ao primeiro contato com os homens brancos, vencida pelos microorganismos.

 

Herança que surpreende até hoje

Os estudos sobre a civilização maia remontam à primeira metade do século XIX, quando o americano John Stephens e o desenhista inglês Frederik Catherwood descobriram várias cidades, como Chichen Itzá.

A partir daí, o assombro dos ocidentais com o magnífico calendário, conhecimentos matemáticos e astronômicos avançados não parou. Como avanço das pesquisas, os estudiosos têm esperanças de resgatar muitas surpresas das florestas tropicais. Sobretudo maiores evidências para estabelecer de fato o que levou um império tão poderoso a entrar em declínio.

 

Restos da história

Como parte de sua estratégia de conquista, os espanhóis acabaram com todo o registro sobre a história maia que puderam ter acesso. E ainda perseguiram os nativos habilitados a ler e escrever a língua. Ainda assim, inscrições gravadas nas ruínas permitem saber um pouco de história deste povo e de seus governantes de destaque, como a vida de Pacal Votan, Palenque, e de Yax Kin, em Tikal.

Os maias eram divididos em quase 30 etnias, que compartilhavam muitas características.

A principal foi o idioma, que pertencia a um grupo linguístico comum. Ainda hoje variações, como o maia yucateca (na península de Yucatán) e o quiche (na Guatemala), são faladas por 6 milhões de pessoas.

Civilização Maia
O colapso do mundo maia

Por volta do ano 600 da era cristã, a civilização maia vivia seu apogeu, com intenso desenvolvimento cultural, científico e artístico. A opulência expressava-se nos majestosos centros cerimoniais e administrativos, nos palácios e casas populares, nos mercados e praças públicas, em uma efervescente vida que pulsava nas cidades-estado que formavam o império. Tikal era o centro mais importante da Meso-América. Reinava ao lado de Palenque, que conheceu o auge durante o governo do rei Pacal. A população crescia e as cidades se expandiam - Yaxchilán, Bonampak e Copán conheceram o esplendor.

No entanto, o gigantesco império que abarcava o sudeste mexicano, Guatemala e El Salvador, até Honduras, estava destinado a esfacelar-se. Menos de três séculos depois, os maias haviam abandonado suas cidades, templos, monumentos e tesouros sagrados, permitindo que a floresta aos poucos tomasse conta das construções e estradas.

SÓ HIPÓTESES

Não se sabe as verdadeiras razões que originaram o abandono das cidades maias. Ao que parece, os problemas começaram por volta do ano 750, depois da morte de Pacal de Palenque, quando as antigas alianças entre as cidades e grupos populacionais começaram a ruir. O comércio decresceu e aumentou a animosidade entre os diversos povos. Em 869, Tikal enfrenta uma séria crise econômica e 30 anos depois seria abandonada juntamente com as demais cidades do altiplano central maia.

Há estudiosos que associam o abandono dos centros maias à guerra entre as cidades-estado. Contudo, as hipóteses mais prováveis estão relacionadas à exploração intensiva do solo, que provocou sua exaustão. Às crises agrícolas, seguiram-se a carência de alimentos e a consequente desestabilização social, agravando conflitos políticos latentes.

O que os especialistas parecem concordar é que, mais do que um colapso, deve-se falar em uma reorganização e regionalização da sociedade maia. Quando as cidades principais foram abandonadas, teve início um intenso movimento migratório até as terras altas de Yucatán, Campeche e Quintana Roo. Assim, pode-se dizer que o colapso foi proporcionado não apenas por causas naturais, mas pelos próprios maias durante esse processo de reorganização social.

A prova é que a cultura maia continuou florescendo ao norte da península de Yucatán, dando início ao chamado período pós-clássico, que abarca de 900 a 1523, com a chegada dos bandidos espanhóis.

Esse período marcou o florescimento de cidades como Uxmal, Chichén Itzá e Mayapán. Os avanços em astronomia e matemática diminuíram, mas surgiram novos estilos artísticos, além de novos cultos e divindades. Tikal e Palenque, emblemas do período maia clássico, viraram centros de peregrinação antes de caírem no total esquecimento.

A CIÊNCIA INVESTIGA NOVAS TEORIAS

Novas pesquisas ajudam a tentar compor o quadro da época do abandono das cidades maias sob a ótica das alterações climáticas. Um estudo de pesquisadores da Universidade da Flórida (EUA), liderados pelo geólogo David Hodell, sugere que o declínio do império estaria associado a um longo período de seca que ocorre regularmente na região aproximadamente a cada 200 anos. Para chegar a esta conclusão, os estudiosos analisaram várias camadas de sedimentos encontrados no lago Chichancanab, localizado na península de Yucatán, que apresenta grande concentração de sulfato de cálcio. Durante as secas, a água do lago evaporava mais rápido e a substância depositava-se no fundo. Os pesquisadores observaram depósitos do material a intervalos de 208 anos, que confirmariam a regularidade das secas.

A equipe de Hodell associou a constatação à existência de ciclos da intensidade solar que têm quase a mesma periodicidade: 206 anos. A medição de elementos radioativos como o uso do carbono 14 permitiu verificar que as fases de secas que atingiram a península de Yucatán coincidiram com os períodos de maior atividade do sol.

Civilização Maia
Xibalbá, o mundo inferior maia

O segundo livro do Popol Vuh, os textos sagrados maias, conta a história de dois deuses heróis que se aventuram no Xibalbá, para vingar o assassinato de seu pai e tio pelos deuses do Mundo Inferior, Muitas imagens de deuses maias da morte foram encontradas nos templos. Referem-se a eles como "Deus da Morte L", ou "Deus da Morte D", também conhecido como Itzamná. O Xibalbá era famoso por seu cheiro de podre e vapores sulfurosos.

Os ancestrais dos deuses heróis, Hun Hunahpú e Vucub Hunahpú, estavam jogando tlachtli, uma espécie de jogo de bola popular em todo o Antigo México. Infelizmente, a bola deles foi parar em um túnel que levava ao terrível reino de Xibalbá. Os senhores de Xibalbá desafiaram os deuses para um jogo, mas os deuses foram enganados, sendo, então, assassinados, sacrificados e enterrados na Casa do Sofrimento.

Muitos anos depois, os deuses heróis gêmeos, Hunahpú e Xbalanqué, encontraram um rato, que contou a eles a história da morte de seus ancestrais. O rato explicou sobre o jogo de tlachtli e onde ele havia sido jogado. Assim, os gêmeos partiram para tentar o jogo, determinados a enfrentar o desafio dos demônios e vingar as mortes do pai e do tio. Os gêmeos acharam o túnel e seguiram o caminho que levava até o Rio de Sangue e da entrada para Xibalbá.

Experimentados e testados

Todas as noites, eles eram testados pelos senhores de Xibalbá; os heróis foram jogados na Casa das Lanças, empurrados para a Casa do Gelo, sobreviveram à Câmara dos Jaguares e à Casa do Fogo. Na Casa dos Morcegos, a cabeça de Hunahpú foi arrancada do corpo por um morcego vampiro, e a cabeça rolou pelo campo do jogo. Mas uma tartaruga cruzou a quadra, tocou a cabeça e, num passe de mágica, ela retomou ao corpo de Hunahpú. O jogo recomeçou e os gêmeos ganharam por se vangloriar de que podiam trazer os mortos de volta à vida e provar que eram imortais. Primeiro, invocaram dois feiticeiros para ajudá-los na sua morte e renascimento. Os senhores de Xibalbá, em seguida, exigiram que eles  matassem e ressuscitassem o Cão da Morte e cortassem um homem em pedaços e o trouxessem à vida novamente. Os heróis fizeram isso e sorriram enquanto os governantes do Mundo Inferior e demônios perguntaram se eles poderiam ser ressuscitados também. Os gêmeos lembraram a eles de que não passavam de fantasmas, sombras sinistras e de que seu poder logo diminuiria, e proibiram-nos de jogar tlachtli para sempre.

As almas dos antepassados Hun Hunahpú e Vucub Hunahpú, entretanto, foram enviadas aos céus como o Sol e a Lua, e os heróis voltaram ao mundo para lembrar às pessoas da imortalidade dos deuses e de seu triunfo sobre a terra dos mortos.

Civilização Maia
Centros do poder maia

Os grupos maias instalaram-se em um território de quase 400 mil quilômetros quadrados. A região se subdividia em três porções. A primeira era localizada ao norte, no que hoje compreende metade da península de Yucatán. A segunda, uma área central chamada de terras baixas, constituída pela região de El Petén, na Guatemala, Belize e parte de Honduras, além de áreas hoje mexicanas, como o estado de Tabasco e parte de Chiapas. E a terceira, as terras altas, que compreendem a Guatemala, partes de El Salvador e do estado mexicano de Chiapas, bem como a costa do oceano Pacífico. Neste vasto território, os maias construíram pirâmides, templos com abóbadas elaboradas, palácios, observatórios, avenidas e calçadas, demonstrando um grande avanço na arquitetura. Um dos diferenciais dessa produção maia é que as construções são concebidas como portentosas esculturas. Cidades como Tikal, Cópan, Quiriguá, Piedras Negras, Palenque e Yaxchilán, situadas no sul do México, Guatemala e Honduras, caracterizam a presença de grandes centros urbanos na região maia.

Outra preciosidade da arquitetura maia é Chichén Itzá. No idioma original, significa boca do poço de Itzá. Na bem restaurada ruína da cidade construída por volta do ano 550 podem ser vistos de fato dois poços principais, um para uso cotidiano e outro para emprego religioso. Neste, com 60 metros de largura e 37 metros de profundidade, foram encontrados por arqueólogos-mergulhadores muitos objetos rituais e alguns esqueletos. A pirâmide de Kukulkan, construída nos anos 800, tem nada menos do que 23 metros de altura - com um degrau para cada dia do ano. Em 200 a.e.c., Tikal era apenas um centro cerimonial envolto pela floresta tropical. Nos dez séculos seguintes, transformou-se na maior cidade maia. Entre 435 e 830, seu período áureo, a área central da cidade possuía cerca de 3 mil construções, como templos, palácios, campos para jogos de bola e banhos a vapor.

As plantas das casas eram bem diferentes das atuais: eram construídos três ou quatro quartos seguidos, sendo que a luz só entrava pela porta da frente, o que devia deixar o ambiente na penumbra. A cozinha ficava fora deste núcleo íntimo e lá provavelmente acontecia a maior parte das atividades do dia-a-dia. A área pública da cidade era bem planejada, com grandes calçadões que em geral desembocavam em praças.

Quando Tikal entrou em declínio, outras cidades floresceram, como Palenque. Localizada no Parque Nacional de Palenque, no estado de Chiapas, hoje México, a cidade é tida como a ruína maia mais impressionante. Era abastecida com água trazida de longe por meio de aquedutos subterrâneos. Dentre suas pirâmides, a mais alta é o Templo das Inscrições, que alojou a cripta do sacerdote Pacal Votan, descoberta intacta em 1952. O Templo do Sol tem como destaque o telhado, ricamente decorado e bem preservado. Já o Templo do Jaguar exibe sofisticados motivos em baixo relevo.

Ainda hoje os fãs de astronomia podem se deliciar com uma visita a Copán. A cidade possui um elaborado calendário maia. Na época, este centro reunia estudiosos de várias regiões do império. Piedras Negras é outro bom exemplo arquitetônico. As ruínas mostram 7,2 mil monumentos produzidos ao logo de 200 anos (608 - 810), onde uma série de relevos permite conhecer um pouco mais dessa cultura.

No British Museum, em Londres, e no Musée de L'Homme, em Paris, estão três pequenas peças que continuam desafiando os arqueólogos que se dedicam aos estudos dos povos mesoamericanos. Trata-se de três crânios esculpidos em cristal de rocha. O primeiro deles, em tamanho natural, descoberto pelo pesquisador Mitchell Hedges em 1926, estava em um túmulo nas ruínas maias de Lubaantúm.

O maxilar, ao contrário das demais, pode ser destacado. As outras peças, uma em tamanho natural e a outra com 10 cm de altura por 15 cm de largura, foram encontradas em região asteca. A técnica utilizada é desconhecida, porém exibe perícia dos artesãos.

Civilização Maia
Maias, os mestres da América

Estima-se que ao redor de 700 a.e.c., os primeiros maias surgiram na península de Yucatán, localizada entre a América do Norte e a América Central. Na sua fase de formação, a sociedade herdou vários elementos de outras culturas, como os olmecas, que habitavama região.

Mas talvez esta data inicial esteja subestimada pela ciência contemporânea. Máscaras com dentes de serpente e um conjunto de peças de jade, achados na Guatemala em maio de 2004, podem ser os sinais que faltavam para comprovar que a civilização maia tenha começado muito antes do que se pensava: em 1500 a.e.c.

As máscaras, descobertas por pesquisadores da Universidade norte-americana de Vanderbilt em um sitio arqueológico chamado Cival, são feitas de estu que e medem 5 metros de altura por 3 metros de largura. Têm olhos estilizados em forma de L e bocas quadradas, com um par de dentes de cobra no centro. Segundo o arqueólogo Francisco Estrada-Belli, que participou da expedição, os olhos parecem ser decorados com folhas de espiga de milho, em uma provável representação da cultura agrícola prevalente na nação maia.

 

ORGANIZAÇÃO PECULIAR

O ano de 250 é considerado um marco para o início do chamado período clássico do império maia. Pouco depois do ano 300, os maias já tinham se espalhado pela região das florestas tropicais e dominavam as áreas das atuais Guatemala, Honduras e península de Yucatán, região sul do atual México. Eles se organizavam de uma forma muito peculiar. No lugar de responderem a um monarca, apresentavam uma sociedade que se desenvolvia em torno de centros urbanos autônomos ligados a uma unidade central. Tratava-se de uma espécie de federação de cidades-estado, que formavam o núcleo político e religioso. Com o tempo, por meio deste sistema original, foram erguidas numerosas cidades, como Palenque, Yaxchilán, Tikal, Copán, Piedras Negras, Uxmal e Labná, entre outras.

A expansão dos maias tem início a partir das cidades de Uaxactún e Tikal. O chamado período clássico estende-se até 900, quando muitas das cidades-estado são inexplicavelmente abandonadas.

Nesta fase, o centro da península é invadido pelos toltecas, que tomam Chichén Itzá e acabam dominando os maias. Entre os séculos X e XII, o império maia renasce, no período denominado pós-clássico.

Destaca-se então a Liga de Mayapán, formada pelas cidades de Mayapán, Uxmal e Chichén Itzá, de novo sob controle maia.

A aliança constitui um novo império, que tem sob seu domínio outras 12 cidades. A partir de 1441, as guerras entre as cidades-estado começam a causar a desintegração da sociedade maia. O poder se esvai ainda mais graças a cata clismos naturais, como furacões. Quando os espanhóis chegam à região, em 1511, as epidemias que transmitem ao povo sem resistência imunológica, como a varíola, represen tam o golpe final à cultura.

Quem vê as notáveis construções criadas pelos maias pode não saber que o povo não utilizava nenhum animal de montaria ou tração. Eles também desconheciam a roda e o torno, o que limitava sua ação sobre a natureza. Por isso, todo o transporte, bem como os trabalhos pesados, dependiam única e exclusivamente da força humana. Limitação, contudo, que não os impediu de se transformar em uma das mais avançadas civilizações da América pré-colombiana.

Civilização Maia
Os Meso-americanos

A Meso-américa é uma região geocultural que, atualmente, é ocupada pelo México, Guatemala, Honduras, Costa Rica, Belize e el Salvador. Pensase-se que os primeiros povos a chegar a esta região, há cerca e 35 mil anos, terão atravessado a estreita faixa de terra que atravessa o Estreito de Bering, enreo que é hoje a Rússia e o alasca, e posteriormente se tenham deslocado para o sul.

Desde cerca de 2500 a.e.c. até a invasão dos espanhóis em 1519 d.e.c., a Meso-américa era o centro de várias civilizações muito desenvolvidas no que se refere à língua, à escrita, à arte, à arquitetura, à matemática, à astronomia e à agricultura. Basicamente, estas civilizações eram conhecidas como Olmeca, Maia, Tolteca e Asteca. Não havia um governo central e unificado e a região estava separada em várias cidades-estado individuais que, frequentemente, se digladiavam.

 

ARTE E ARQUITETURA

As sociedades meso-americanas tinham grandes capacidades tanto no campo das artes como dos ofícios e muito do que sabemos hoje sobre a sua cultura e espiritualidade foi recolhido dos murais, cerâmicas e escultura.

As jóias, as máscaras e as gravuras foram maravilhosamente talhadas em ouro, turquesa, obsidiana ou jade. Penas de cores vivas, nomeadamente as verdes de quetzal eram usadas para decorar as roupas e os uniformes militares.

Os conquistadores espanhóis do século XVI ficaram muito espantados com o talento artístico destes povos, e ainda mais com a grandiosidade e a sofisticação das suas cidades, com destaque para as maias - Palenque, Tikal e Chichén Itzá - e para as astecas - Teotihuacan e Tenochtitlan.

O palácio de Palenque terá levado mais de dois séculos a ser construído e é uma obra-prima da arquitetura. As câmaras do Templo as Inscrições, em Palenque, segundo se dizia, conduziam ao sítio onde se ouvem as vozes do espírito, era uma grande metrópole construída no meio da selva. Chichén Itzá apresenta a magnífica pirâmide conhecida como o templo dos Guerreiros, o maior campo de bola da América Central e o poço sagrado onde as vítimas eram sacrificadas em honra ao deus da chuva, Chaac.

Teotihuacan era um lugar de peregrinação pra os Astecas e de grande significado sagrado, especialmente venerado pelas Pirâmides do Sol e da Lua. Tenochtitlan, o centro político e espiritual asteca, foi construído em 1325 d.e.c., em uma ilha do lago Texcoco "O lago da Lua", e  encontra-se hoje sob a capital do México, a Cidade do México. A cidade asteca tinha sido construída sob inspiração divina e orientação da divindade guerreira Huitzilopochtli.

 

POVO DO  MILHO

As sociedades meso-americanas tinham grandes capacidades tanto no campo das artes como dos ofícios e muito do que sabemos hoje sobre a sua cultura e espiritualidade foi recolhido dos murais, cerâmicas e escultura.

As economias da Meso-américa eram baseadas essencialmente na agricultura, nomeadamente do milho. As culturas eram feitas através da técnica de corte-e-queima das florestas húmidas, em campos irrigados, ou em engenhosos jardins suspensos chamados Chinampas. Feijão, malaguetas e abóboras - assim como as vagens e cacau, que cresciam em estado selvagem - eram também culturas importantes para os povos mesoamericanos.

Devido à cultura do milho em larga escala, estes povos evoluíram de caçadores recoletores para uma sociedade agrária fixa, da qual resultou um aumento da população e o desenvolvimento de grandes vilas e cidades.

O sucesso da cultura do milho era tão essencial para o bem-estar físico e financeiro que fazia parte dos mitos, símbolos e rituais dos mesoamericanos. A história da criação e rituais dos mesoamericanos. A história da criação dos Maias conta que os primeiros seres-humanos foram feitos com grãos de milho semeados em carne.

Numa lenda asteca, a divindade serpente emplumada, Quetzalcoatl, transformou-se em formiga para colher as sementes do que viria a ser o primeiro campo de milho.

Orações, rituais e sacrifícios eram oferecidos à deusa da fertilidade, do Sol e da chuva, na esperança de que apaziguando os deuses os meso-americanos receberiam em troca uma colheita abundante.

 

SACRIFÍCIO E GUERRA

A crença no sacrifício das oferendas - em ouro, flores e animais, e mesmo da vida humana - eram uma parte intrínseca da religião dos meso-americanos.

As pessoas pensavam que se mantivessem os deuses bem abastecidos de sangue, estes os recompensariam com um bom equilíbrio entre sol e chuva.

Mas havia outras razões existenciais e mais profundas para estes sacrifícios. A maior parte dos deuses e deusas eram exigentes e imprevisíveis. Os mitos da criação eram explicados por Maias e Astecas como o mundo em que as pessoas podiam ser aniquilados por um capricho divino, sendo dever dos povos agradar aos deuses de forma a que o mundo não voltasse a ser destruído. Os deuses recompensavam devidamente as vítimas de sacrifício (principalmente de auto-sacrifício, ou suicídio) dando-lhes um lugar de destaque nos céus.

Os Maias e principalmente os Astecas formavam nações militaristas, e os prisioneiros de guerra eram um grande fornecedor de vítimas para sacrifício. A principal forma de sacrifício consistia em tirar o coração, mas decapitar ou tirar a pele (esfolar) em vida eram também usuais.

O sacrifício humano era também um elemento importante de pokatok, o jogo ritual com bola.

 

O QUE RESTOU

Os conquistadores espanhóis da Meso-américa, chefiados por Hernán Cortez, em 1519, viriam finalmente a abolir o sacrifício humano, se bem que praticassem outras formas de crueldade. Tomaram posse das terras agrícolas e forçaram os povos à escravatura.

Muitos templos e pirâmides foram destruídos e, consequentemente, também as suas histórias e textos sagrados.

Milhares de códigos maias perderam-se e apenas uns escassos, entre os quais o valioso Popol Vuh, sobreviveram.

Alguns monges visionários, espanhóis, como Bernardino de Sahagún, sentiu que seria importante preservar os manuscritos antigos dos meso-americanos.

O Codex Florentino, transcrito por Sahagún, é o resultado de muitos anos de trabalho e diz-nos muito sobre a forma de ver do mundo dos Astecas.

Hoje, apesar de séculos de Cristianismo, continuam a existir algumas crenças e cerimônias, frequentemente ligadas aos rituais católicos com muita criatividade.

A literatura, a arte e a arquitetura que sobreviveram, são testamentos deste povo orgulhoso, fascinante e complexo.

Civilização Maia
Os verdadeiros descobridores da América

Durante 60 anos, os arqueólogos acreditaram que os primeiros habitantes da américa chegaram ao continente depois de cruzar, há 12 mil anos, uma passagem de terra que ligava a Sibéria e o Alasca, sobre o atual Estreito de Bering. Em 1976, no entanto, vestígios encontrados na região de Monte Verde, no sul do Chile, acabaram por revelar uma outra história: seres humanos já habitavam a América há cerca de 12,5 mil anos. Mais: o achado demonstrou que, se o homem chegou mesmo ao continente pela passagem do norte, isso se deu pelo menos 1,3 mil anos antes do que se imaginava.

A dúvida gerada pela descoberta arqueológica chacoalhou os cientistas, que passaram a questionar muitas das teorias sobre a ocupação da América pelo homem. Há quem defenda que, como os ocupantes do acampamento de Monte Verde chegaram á região depois de enfrentar obstáculos diversos e certamente terríveis, como montanhas, rios e doenças desconhecidas, só poderiam ter atravessado o Estreito de Bering durante o recuo anterior das geleiras. Ou seja, há nada menos do que 21 mil anos. Outra corrente, porém defende a teoria de que nômades asiáticos chegaram à América do Sul por mar, contornando a costa em embarcações precárias.

 

Falso descobrimento

O fato é que chegada de Cristóvão Colombo a ilha La Espanhola (hoje São Salvador), em 12 de outubro de 1492, nem de longe marcou o descobrimento do continente americano. Os pesquisadores estimam que no momento em que os europeus aportaram a terra já era habitada por cerca de 50 a 80 milhões de pessoas.

Ao desembarcar, com seus capacetes reluzentes, arcabuzes e cruzes, os homens de Colombo imaginavam ter chegado à Índia. O que viram foram homens seminus, que em compensação os tratavam como deuses.

 

Diversidade Incompreendida

Os povos pré-colombianos, como passaram a ser conhecidos, eram de uma diversidade cultural impressionante. De um lado, havia grupos nômades, que anda desconheciam o uso dos metais e formavam comunidades relativamente simples. Do outro, sobretudo na cordilheira andina e na América Central, estabeleceram-se sociedades complexas. Verdadeiros impérios que os europeus, no seu afã de catequizadores e espoliadores, sequer imaginaram - ou entenderam.

Na Mesoamérica -  conceito criado na década de 40 do século XX para descrever a área que compreende os territórios da América Central ao extremo sul da América do Norte - os povos pré-colombianos mais conhecidos foram sem dúvida os maias e os astecas. Na América do Sul, os incas. Antes deles poré, o continente abrigou outras sociedades igualmente sofisticadas - como os olmecas, os mochicas e os tiwanakus - que plantaram as gases par o surgimento de seus sucessores mais poderesos.

 

Devastação

Os povos nativos pagaram um preço alto por terem sido "descobertos". Em 30 anos, foram reduzidos a pouco mais de 10 milhões de habitantes. O alto número de mortes deveu-se aos massacres e à ambição dos espanhóis, assim como às doenças introduzidas pelos europeus, para as quais o sistema imunológico dos povos da terra não oferecia resistência. O endeusamento dos homens que vinham do mar tornou os nativos, a princípio, submissos. Depois, o medo tomou conta e veio a revolta e a tentativa de reação, sem sucesso: os invasores possuíam armas, cavalos e muitos soldados.

O legado dessas civilizações tão ricas e peculiares permanece vivo ainda hoje, sempre envolto em uma certa dose de mistério, capas de instigar e levar ensinamentos ao povo que aqui se estabeleceu.

Civilização Maia
Período Pós-Clássico Maia

Com a chegada dos Toltecas a Tula, em fins do século X, uma nova ordem se instaura na Mesoamerica, que será retomada por outros povos (dentre os quais os Astecas constituirão, segundo Miguel Covarrubias, a última chama e a mais espetacular"). Já latente em muitas regiões, o militarismo se aperfeiçoa e passa a constituir assunto de Estado; a partir dai se verá o guerreiro ocupar o lugar até então reservado exclusivamente ao sacerdote. Instauram-se sacrifícios macros e, dentre os ricos tributos arrancados aos povos submetidos, começam a aparecer objetos de ouro, prata, cobre, metais que, ainda que tardiamente, fazem enfim a sua aparição na Mesoamerica. Enquanto Tula controla, a partir do planalto Central, um território bem vasto, um grupo importante de Toltecas (talvez contratados como mercenários pelos dirigentes locais) toma o poder na antiga Chichen Itza, transformando-a no centro de um "renascimento" maia intensamente impregnado do novo espirito tolteca.

Na nova Chichen Itza que cresce sob a tutela de seus novos senhores, respira-se uma grandeza e uma magnificência que fazem empalidecer a longínqua metrópole de Tula. Suntuoso, trabalhado pela mão do artista maia, o belicoso e macabro repertorio tolteca - digno desses bárbaros recentemente civilizados - e retomado incansavelmente ao lado de certos elementos da velha tradição clássica maia. Impressionantes cabeças de serpentes emplumadas e presas ameaçadoras projetam-se dos lados baixos das escadarias, onde o corpo de colunas serpentiformes, com a cauda de guizos, se recurva na parte dianteira da verga. Acrescentem-se frisos ornados de águias ou de jaguares devorando corações humanos; alucinantes crânios de vitimas empaladas e cerradas em fileiras compactas, que constituem o terrível tzompantli ou plataforma de sacrifício; e os orgulhosos guerreiros toltecas desfilando em seus trajes característicos sobre os muros e pilastras dos templos, e aparecendo frequentemente nas cenas de conquista. A arquitetura oferece igualmente um aspecto revolucionário, devido sobretudo ao emprego - como em nenhuma outra parte da Mesoamerica, por sinal - de múltiplas colunas, formando amplos peristilos. É nesse momento então que a cresteria é substituída definitivamente por fileiras de emblemas colocados ao redor dos tetos, a maneira mexicana, enquanto outros elementos permanecem dentro da antiga tradição maia (como as molduras bisotadas ou as mascaras de Chac, o deus da chuva de nariz recurvado).

Por atenuados que sejam os acentos bárbaros - com seu confuso aparelho de guerra e seu ritual sanguinário enxertado no velho tronco maia pelos novos senhores toltecas -, nem por isso a nova Chichen Itzá deixara de ser a ultima manifestação monumental em território maia. A Tríplice Aliança que haviam articulado as cidades de Chichen Itza, Uxmal e Mayapán, a fim de partilhar o controle politico da península, não ultrapassa o primeiro quartel do século XIII. Com a queda de Chichen Itza, termina afinal uma tradição arquitetônica mais do que milenária... Mayapan, que a sucede entre 1224 e 1461, e cujo centro cerimonial não e senão "uma cópia em miniatura de Chichen Itzá" - como diz Pollock -, tenta em vão restabelecer certos costumes maias da idade de ouro (como a ereção de estelas datadas e da disposição de edifícios em quadriláteros). Mas a prática do Calculo Longo já se acha há muito tempo abandonada em proveito de um sistema simplificado ou mais vago, denominado Calculo Curto. Em compensação, da tradição oral, tão profundamente enraizada nessas regiões, sobreviverão as crenças e as antigas profecias recolhidas nos chamados Livros de Chilam Balam, uma das mais ricas fontes de documentação indígena. Quanto a arquitetura e outros ramos de arte, nada mais poderá deter uma degenerescência progressiva, a tal ponto que, apenas um século após o declínio de Mayapán, ao empreender a conquista de Yucatan, os espanhóis encontrarão a península inteira mergulhada em completo caos cultural e politico, do qual somente as pequenas cidades da costa do Caribe parecem ter escapado em parte.

Ao longo de todo o litoral oriental de Yucatan vão se assinalando cidades, algumas das quais fortificadas, sem duvida devido a instabilidade politica da época. Tulum, cuja existência remonta ao período clássico, constitui um exemplo particularmente característico do estilo regional, com seus edifícios de guarda e suas muralhas quase intactas, perfuradas por algumas portas estreitas. Certos elementos arquitetônicos ligam-se inevitavelmente a arte maia-tolteca, enquanto a pintura mural apresenta afinidades com a tradição "Mixteca-Puebla", a outra corrente artística que, paralelamente ao repertório tolteca, domina o panorama pós-classico. Por trás, porém, desse aspecto agradável de uma arquitetura com os muros das fachadas curiosamente encurvados, escondem-se uma pobreza de execução e uma exigibilidade que refletem bem o nível cultural da época... O que não impede que a ilha de Cozumel seja então um dos centros de peregrinação mais reputados da área maia, com seu santuário dedicado a Ix Chel, o companheiro de Itzamna, deusa da lua, protetora da medicina e dos partos.

Enquanto a península de Yucatan, destroçada pelas rivalidades entre pequenos Estados decadentes, mergulha cada vez mais na anarquia, alguns raros redutos de civilização maia se agarram a certos cantos da floresta tropical - sobre os lagos do Petén, por exemplo - como Topoxte, que tenta, entre 1200 e 1400, um retorno as tradições classicas; on Tayasal, sobre o lago Flores, onde os descendentes de Itza emigrados continuariam a viver isolados do mundo exterior ate sua rendição em 1697 (ou seja, mais de 150 anos depois da conquista dos territórios circunvizinhos pelos espanhóis! ... ).

Na outra extremidade da área maia, as Terras Altas da Guatemala constituíam um dos mais importantes centros de uma civilização ainda viva, embora passavelmente hibrida e relativamente decadente. Essa região que, como vimos, desempenhara um papel determinante por ocasião das fases formativas, e depois dera origem ao verdadeiro enclave de Teotihuacán, durante a fase clássica media, não participou mais que de forma nitidamente marginal da "Belle Epoque" maia. As migrações sucessivas não fizeram depois senão acentuar uma "mexicanização" progressiva, a tal ponto que, com seus templos geminados e suas inúmeras escadarias flanqueadas de volumes salientes "a mexicana", as cidades fortificadas da época - tais como Iximche, Mixco, Viejo ou Cahyup - apresentavam semelhança bem maior com as tradições arquitetônicas chichimecas e astecas, então em voga no planalto Central, do que com as antigas tradições maias clássicas de Petén, Motagua ou Usumacinta. Conscientes - e orgulhosos - de sua remota filiação mexicana, os Quiches e outros povos belicosos das Terras Altas não encontravam menos motivos para vaidade em sua velha origem maia, da qual conservavam uma tradição oral intensamente viva. Dessa tradição, o padre Brasseur de Bourbourg recolheu, no século passado, belíssimas joias, tais como o Popol Vuh e o maravilhoso poema épico Rabinal Achi.

Concluiremos com estes excertos do Chilam Balam de Chumayel, que retratam a amarga reação dos Maias de Yucatan diante da penetração dos conquistadores espanhóis (os Dzules, ou estrangeiros, vistos antes como deuses!... ):

A lua, o vento, o ano, o dia: tudo caminha, mas também passa. Todo sangue chega ao lugar de seu repouso, assim como todo poder chega ao seu trono... [Mas] vieram os Dzules que transfomaram tudo. Eles ensinaram o terror, eles secaram as flores, sugando ate ferir a flor [honra] dos outros para poderem fazer sobreviver a própria... Não havia entre eles nem grande sabedoria, nem palavras, nem ensinamentos. Os Dzules não vieram senão para mutilar o sol! E os filhos de seus filhos permaneceram entre nos, que deles não recebemos senão amargura.

Civilização Maia
O declínio do mundo clássico Maia

Pois esse mundo clássico chega ao seu final. Por motivos muito diversos, ainda difíceis de discernir em sua totalidade, o frágil equilíbrio politico e cultural - que os povos da Mesoamerica haviam conseguido manter durante séculos - pouco a pouco se desagrega, começando por Teotihuacan, que ate então brilhara como verdadeiro "farol" espiritual (administrando sem duvida um status quo que Wigberto Jimenez Moreno denomina a Pax Teotihuacana), mas cujas influencias, amplamente difundidas entre os Maias, não chegaram a alterar substancialmente as tradições culturais desse povo. Parcialmente destruída por um incêndio por volta de 650, a imponente Cidade dos Deuses da os primeiros sinais de enfraquecimento, desencadeando um processo de declínio que se acentuara bruscamente entre 750 e 800, e envolvera em sua queda consideráveis elementos de uma antiga tradição "mexicana" muitas vezes centenária. O terrível vazio deixado por seu desaparecimento - é preenchido, tanto para o bem como para o mal, por outras cidades do planalto Central, tais como Cholula e Xochicalco - provoca um desequilíbrio que se reflete por toda a Mesoamerica em movimentos migratórios, invasões e mudanças politicas diversas. No vale do Oaxaca, Monte Alban é ocupada pelos Mixtecas, enquanto hordas barbaras originarias do norte do México começam a varrer o planalto Central.

Na segunda metade do século VIII, atraídos provavelmente pelas dificuldades que debilitam Teotihuacan, os primeiros movimentos migratórios "Pipils" atravessam a área meridional maia, portando uma bagagem cultural que abrange elementos do planalto Central assim como de regiões do golfo do México (inclusive o emprego ritual de "cangas" e "machados" de pedra que se difundirá até a Nicarágua). Os turbilhoes provocados por essas migrações não afetam - ao menos aparentemente - as Terras Baixas,  entre o fim do século VII e o inicio do IX, um desenvolvimento tão generalizado quanto espetacular, retomando sem dúvida o controle de certas rotas comerciais ate então exercido por Teotihuacgn. Por trás desse inusitado esplendor, porem, germinam sinais precursores da queda próxima: a pressão ao longo da fronteira sudeste, exercida por grupos estrangeiros mais ou menos assimilados à civilização maia; o enriquecimento de uma elite, de uma aristocracia que - conforme comenta Patrick Culbert - retém para si, por via hereditária, os ganhos acumulados, tornando difícil o acesso ao poder e às riquezas", o advento de certas dinastias guerreiras testemunhando um militarismo crescente e às vezes, talvez, institucionalizado. É particularmente significativo observar que, para comemorar o fim de um katan no ano 790 (9.18.0.0.0.), 19 cidades maias erigem monumentos datados, enquanto em 810 (9.19.0.0.0.) apenas 12 cidades continuam a observar essa prática. E o declínio se acentua de forma dramática com três monumentos inaugurados em 830, no limiar do decimo baktun (10.0.0.0.0.), para terminar em 909 (10.4.0.0.0.) com duas datas conhecidas: uma em Quintana Roo e outra em Toning. Como o soar dos sinas por um príncipe moribundo, essa interrupção no costume de erigir monumentos datados marca, para cada cidade maia, o começo do fim: Copán (801), Yaxchilán (807); Piedras Negras e Quirigá (810); Oxkintok (849); Tikal (869); timbal, Uaxactun e Chichen Itzá (889). Enquanto as cidades das Terras Baixas declinam uma apos a outra, certos sinais surgem a sudoeste de Petén (em Polol, desde 810, e em Seibal, na região do rio de la Pasión, entre 849 e 889), sugerindo uma fase de hibridação cultural mais ou menos breve, cuja ocorrência apenas adiará por algum tempo o desmoronamento final.

J. Eric Thompson atribui essas mudanças, em grande parte, a um grupo denominado "Putun", originário do ramo maia Chontal, o qual, estabelecido no limite ocidental da área maia, no delta dos rios Usumacinta e Grijalva, tinha absorvido progressivamente muitos elementos culturais de filiação mexicana. Povo de navegadores e comerciantes, esse grupo empreendedor e belicoso - que controlava as vias marítimas contornando a península de Yucatan - teria subido o rio Usumacinta, participando talvez das conquistas realizadas durante o século VII pelos príncipes guerreiros de Piedras Negras e Yaxchilan, e, após ter contribuído, por volta de 810, para a queda dessas ultimas cidades e para a penetração de elementos "exóticos" em direção a Tikal (via Polol), teria se apoderado, por volta de 849, do sitio estratégico de Seibal, sobre o rio de la Pasión. As estelas erigidas em Seibal entre 849 e 889 - assim como as cenas representadas sobre a cerâmica "Laranja Fina" que, como outras variedades, provem das zonas costeiras de Veracruz e Tabasco - sugerem uma tentativa de coexistência cultural e politica que vai durar apenas o espaço de alguns decênios e não chegará a conter um declínio já muito avançado, tanto nessa como em outras regiões. É igualmente provável que, sob o nome de "Itzá", um ramo desse grupo Putun tenha conquistado Chichen Itza por volta de 918, e que outro ramo colocado sob as ordens de Tutul Xiu se tenha apoderado de Uxmal um pouco mais tarde. A implantação, em lugares-chaves de Yucatan, desses grupos ja fortemente impregnados de uma cultura hibrida teria facilitado a penetração definitiva, nas proximidades do século XIX, de um importante contingente tolteca proveniente do planalto Mexicano (e destinado a dominar, a partir da nova capital maia-tolteca de Chichen Itza, uma parte considerável da península).

É bastante significativo analisar as etapas finais da vida clássica em Tikal. Em 810, em uma suprema afirmação de megalomania, um soberano obeso e vaidoso inaugura o templo III, no qual - após prolongado intervalo que a derrocada de outras cidades maias explica facilmente - uma estela de estilo pomposo e convencional e erigida em 869, ultima tentativa de continuar a tradição. Depois disso, apenas o pequeno sitio periférico de Timbal erigida, em 879 e 889, duas outras estelas em que figuram muitos tragos insólitos. Em seguida, nada mais ira preencher, em Tikal, o vácuo horrível em matéria de criação de monumentos. O abandono, entretanto, não é total: reduzida a cerca de 1/10 de seus efetivos, aparentemente privada da autoridade de velha aristocracia, uma população cada vez mais inculta produz, ainda por algum tempo, uma cerâmica de inspiração estrangeira e - para proporcionar a si mesma, sem duvida, a ilusão de uma vida cerimonial tão ativa quanto no passado - se contenta em trocar de lugar algumas estelas arrancadas de seu contexto original e algumas vezes ate mesmo danificadas. Chega-se ate a transformar, mais por ignorância do que por impiedade, um fragmento de estela ou de "altar" em... uma mó! Finalmente, pilham-se os túmulos e se profanam os antigos santuários, neles se acampando. Portanto, tudo parece indicar que, por uma razão ou por outra, a ordem que reinava nos tempos clássicos rompeu-se para sempre, dando lugar a uma triste paródia de culto e a uma ocupação selvagem que prenuncia o abandono total e definitivo.

Sem duvida complexas e múltiplas, as causas desse declínio maia estão longe de ser conhecidas; e aqui nos contentaremos em enumerar algumas hipóteses que nos parecem as mais plausíveis entre todas as formuladas ate o presente (e recentemente analisadas por Patrick Culbert a começar pelos flagelos naturais, como epidemias, secas, inundações, terremotos, furações, mudanças climáticas radicais etc. Uma brusca ruptura do equilíbrio pode ter afetado as possibilidades de produção do solo e prejudicado as necessidades alimentares de uma população que, próximo ao fim do período clássico, devia praticamente duplicar-se de uma geração a outra. Ainda mais difíceis de discernir são as catástrofes causadas pelo próprio homem: invasões maciças (aparentemente pouco prováveis no contexto da época); pressão de grupos periféricos; turbilhões provocados pela passagem de vagas migratórias; militarismo crescente que - dentro do fenómeno da "escalada" - ultrapassa o estagio de simples incursões ou expedições punitivas visando empreender guerras de conquista, guerras intestinais ou insurreições de "trabalhadores", acarretando o exilio ou a destruição da classe dirigente, o desmembramento das rotas de comercio e, a longo prazo, a desintegração da própria sociedade. Não se pode evocar sem calafrio a hipótese "suicida", segundo a qual, presa as ciladas de seus próprios oráculos e principalmente ao cicio inexorável dos hatans, a elite intelectual teria simplesmente baixado as armas diante de um fracasso fatalista inscrito pela eternidade nos astros. Observando o intervalo de 13 hatans exatamente - que separa o ano 534 (inicio do "hiatus"), do ano 790 (ponto culminante na ereção de monumentos comemorativos), Gordon Willey se pergunta se um não prefigura o outro, a maneira de um "ensaio" teatral... Enquanto Dennis Puleston sugere que o segundo poderia representar perfeitamente uma reprise do anterior, reapresentação que, uma vez desencadeada, teria sido empurrada por seu próprio impulso e - misturando-se a outros acontecimentos nefastos - teria por fim escapado a toda tentativa de recuperação.

Nesse desastre, muitos dos elementos que faziam o esplendor do mundo clássico desaparecerão para sempre, e apenas algumas cidades sobreviverão: Uxmal e Chichen Itza, no norte, Barton Ramie, a leste, Cotzumalhuapa, ao sul, e, fora da área maia, El Tajin, em Veracruz, Xochicalco, no vale do Morelos, Cholula e Cacaxtla, em Puebla. De um realismo inesperado nessas regiões do planalto Mexicano, as pinturas murais de Cacaxtla retratam, entre elementos de origens muito diversas, protagonistas que comprovadamente são maias. Cholula, por sua vez, retoma a seu favor o papel de centro de peregrinação que pertencera a Teotihuacan, enquanto, do ponto de vista artístico, constitui um ramo não desprezível do complexo "Misteca-Puebla" que dominara as artes ditas "menores" durante praticamente todo o período pós-clássico. Quanto a Xochicalco, verdadeira encruzilhada de influencias onde se fundem elementos originários não só de regiões, mas também de épocas diferentes, ocupara um lugar particularmente importante durante essa fase de transição, principalmente no que concerne ao despertar de Tula, a futura capital tolteca.

Civilização Maia
A Idade de Ouro dos Maias

Após um período de estagnação relativamente pronunciada, entre 534 e 613 (designado pelos antropólogos anglo-saxões como hiatus), e que se traduz principalmente pela lentidão generalizada na construção de estelas datadas e outros monumentos, uma efervescência inusitada vai agitar as Terras Baixas, levando ao ponto culminante as tendências regionais que vinham há algum tempo amadurecendo em certas cidades e fomentando um surto, por vezes efêmero, em muitos outros lugares que até então haviam permanecido discretamente nas sombras. Para esse grande "salto a frente" que é a fase clássica "recente" (cujo ponto de partida flutua entre a segunda metade do século VI e o inicio do século VII), muitas circunstancias parecem convergir, a começar pelo controle da rede comercial, que passa essencialmente para as mãos de um certo ramo da aristocracia local possuidor de fortes ligações com povos mais ou menos "mexicanizados", originários da periferia ocidental. Entre estes, contam-se os "Putuns" de que fala Eric S. Thompson, os quais se distinguem pelas aptidões comerciais e pela extrema mobilidade com que empreenderam expedições de longa distância por via terrestre, fluvial ou marítima (foi assim que subiram os grandes cursos de Agua e contornaram a península de Yucatan).

Com o advento dessa fase, assiste-se a uma prosperidade generalizada na quase totalidade das Terras Baixas, acarretando o aumento progressivo da população. Longe de estar centralizado em uma "capital" única, o poder eátA polarizado em torno de uma miríade de centros cerimoniais do tipo "cidade-Estado" e de dimensões bem diversas, controlando um território mais ou menos vasto, seja manu militari, seja, como parece mais frequente, mediante um jogo extremamente complexo de alianças dinásticas ou interesses comerciais, que não exclui absolutamente a possibilidade de longas migrações. Muitas vezes nos sentimos mesmo tentados a comparar esse sistema dos Maias aquele que foi usado nas cidades e colônias gregas da época clássica; a densa floresta tropical - verdadeiro oceano vegetal de tão penosa travessia - desempenha aqui um papel equivalente aos perigos da navegação antiga no Mediterrâneo para os gregos. Assim, fundam-se muitas "colônias" cujo esplendor - que as vezes não vai durar mais que o tempo de uma ou duas gerações - é invariavelmente balizado pela construção de estelas ou outros monumentos comemorativos, não apenas indicando a ascensão de um chefe local a certo nível de conhecimentos esotéricos, mas revestindo-o de invejável aura de prestígio.

Parte da riqueza provém da manufatura de objetos de luxo e da rede de trocas comerciais; o essencial para a subsistência, entretanto, precisa ser assegurado pela exploração de recursos locais (frequentemente muito escassos) e pela racionalização da agricultura. Isso provavelmente implica certa diversificação de tarefas agrícolas, assim como o desenvolvimento das possibilidades para o seu rendimento. Chega-se assim, à medida que se avança no período pré-clássico, a tirar partido de terrenos inclinados, criando um quadriculado bastante flexível de terraços destinados a lutar contra a erosão e a reter, junto a terra cultivável, um grau relativo de umidade. Tal é o caso da região de Rio Bec (ao norte de Petén) e de algumas regiões de Belize e de Petén central. Consegue-se mesmo, parece, tornar altamente produtivos certos solos pantanosos usualmente inaproveitáveis, tais como as savanas, os bajos ou zonas inundadas pelas enchentes sazonais, cujo subsolo argiloso pouco se prestava ao cultivo e que era preciso modificar elevando o nível do solo por meio de plataformas artificiais cuja drenagem era assegurada por canais (por vezes de grande porte, como o de Edzna, ao norte do Campeche). Praticamente quase todo o solo nas Terras Baixas - e em Petén em particular - é favorável a cultura do ramon (fruta-pao), cujos frutos são armazenados nos chultuns, câmaras escavadas no subsolo calcário e frequentemente protegidas da umidade por uma antecâmara cujo acesso é vedado por uma laje de pedra.

Tudo isso contribui pois para ampliar as possibilidades agrícolas, geralmente limitadas apenas às milpas (campos de milhos), tradicionalmente explorados pelo sistema de cultura extensivo e rotativo, com o emprego de queimadas - praticamente inalterado até hoje nessas florestas tropicais -, que oferecia baixo rendimento e exigia esforços suplementares do homem. É preciso, com efeito, no inicio da estação seca (em torno de outubro ou novembro), preparar o espaço escolhido, desembaraçando-o dos troncos mais finos e não deixando no local senão as arvores mais difíceis de derrubar. Aproximadamente em fins de abril, quando termina a estação seca, ateia-se o fogo e, nos primeiros dias de maio, faz-se a semeadura, lançando-se os grãos dentro de orifícios cavados por meio de um bastão (coa), cuja ponta é endurecida a fogo. Chegada a estação das chuvas, vigia-se periodicamente a milpa para dela retirar as ervas daninhas e prevenir a invasão pelo mato. A colheita, feita em outubro ou novembro, ainda é, em certas regiões, objeto de celebrações especiais.

Nessas florestas, a milpa tem capacidade de produzir apenas por dois ou três anos consecutivos, de forma que é preciso avançar incessantemente para novas terras num raio razoável de distância do local de residência. Os intervalos ociosos compreendidos entre as diversas fases desse ciclo agrícola são não apenas empregados em necessidades familiares, mas também absorvidos pelas necessidades da comunidade, das quais uma importante porcentagem compreende as atividades de culto e as intermináveis obras de ampliação e ornamentação do centro cerimonial. Pois, como em toda a Mesoamerica, a religião dizia respeito a todos e ninguém podia subtrair-se as mil facetas de um ritual tão complexo quando meticuloso.

Quando se constatam as dificuldades da agricultura tradicional de queimada, que no entanto representa a base do sistema mesoamericano, compreende-se por que regiões consideradas atualmente entre as mais inóspitas, como Petén e muitos outros pontos despovoados das Terras Baixas, não puderam assegurar a subsistência de uma densa população durante o surto clássico senão desenvolvendo uma cultura intensiva em certos solos, assim como a exploração de determinados recursos suplementares, tais como a fruta-pao e os tubérculos. Dennis Pulestonl sugere que o nordeste de Petén, tão superpovoado então como talvez outras regiões das Terras Baixas classificadas entre as mais desfavoráveis a agricultura, havia provavelmente chegado a importar, junto com o algodão e outras matérias-primas, quantidades consideráveis de milho proveniente de Rio Hondo, na região nordeste de Belize, de Rio Bec, ao norte, ou de Rio Candelaria, a nordeste. Essas regiões, como vimos, constituíam na época - graças a exploração intensiva das terras - verdadeiros "celeiros" de milho.

Conforme observa Georges Cowgill, convém sublinhar também o fato de que - precisamente entre 650 e 700, isto é, no momento em que os Maias se preparavam para entrar em sua "idade de ouro" - sinais de fraqueza se faziam sentir nas duas metrópoles que ate então haviam mantido um nível cultural dos mais elevados na Mesoamerica: Teotihuacan e Monte Alban. Esta última, dominando todos os vales ao redor, conseguira preservar-se, cercada de outros grandes complexos culturais, dentro de um relativo isolacionismo por mais de um milênio. Quanto à Cidade dos Deuses, depois de ter eclipsado todas as demais regiões durante quatro ou cinco séculos, imprimindo-lhes uma influência que as vezes permanecera muito vivida, é precisamente destruída por um incêndio em torno do ano 650, sobrevive apenas por mais um século, resvalando em seguida para um rápido declínio. Como sinal precursor da grande derrocada clássica, Teotihuacan e Monte Alban viriam, por sua vez, a decair no espaço de mais algumas gerações. Essa ruptura pôde, entretanto, jogar a favor dos Maias, os quais, dispondo de uma infra-estrutura cultural laboriosamente construída, puderam também exercer um controle mais direto sobre certas redes de trocas comerciais. Não se exclui a possibilidade de que o espirito de conquista tenha desempenhado um papel importante nessa conjuntura, como parece indicar a proliferação de motivos guerreiros na arte maia durante a fase clássica recente.

Quaisquer que tenham sido as circunstancias que concorreram para favorecer esse brilho clássico, nada de tão requintado nem tão variado jamais se produziu no mundo pré-colombiano. Certas cidades, como Palenque, desabrocham como flores tardias, mas tão preciosas! Outras (dentre as quais Copan, Piedras Negras e Yaxchilan, na área central; Uxmal, Chichen Itza, Santa Rosa Stampak e Becan na península do Yucatan) atingem o ponto culminante de uma trajetória cultural relativamente longa; enquanto Tikal e Uaxactan, por sua vez, chegam muito simplesmente a conclusão logica de uma evolução lenta porem coerente, a despeito de todas as suas descontinuidades, da qual retomaremos o fio momentaneamente interrompido.

 

Os dois últimos séculos de esplendor em Tikal

No inicio do século VII, apos um período de estagnação, Tikal retoma suas construções suntuárias sob o reinado conjunto, ao que parece, de dois soberanos. Uma inovação da época, destinada sem duvida a tornar o culto acessível a um maior número de fieis, é a construção do primeiro conjunto arquitetônico de pirâmides gêmeas (que doravante designaremos pelo nome simplificado de "complexo gêmeo"). É constituído de uma grande esplanada artificial sobre a qual se elevam, nas extremidades leste e oeste, duas pirâmides em degraus, idênticas, com o aspecto de simples plataformas cerimoniais elevadas, guarnecidas de uma escadaria de acesso a cada um de seus lados e desprovidas de santuário no cume. Diante da pirâmide, alinha-se as vezes uma fileira de nove grupos de estelas-altares não-esculpidos, enquanto, sobre o eixo perpendicular, situa-se, ao sul, um edifício baixo e alongado, dispondo de nove portas; e, na extremidade norte, acha-se um compartimento em alvenaria, aberto por meio de uma porta em forma de abobada maia e contendo, tal como um cofre, um par de monolitos do tipo estela-altar esculpidos em baixo-relevo. Dentro desse santuário a céu aberto a estela representa um soberano em atitude ritual, tendo em uma das mãos uma barra cerimonial e fazendo com a outra o gesto do semeador, espalhando grãos de milho ou de cacau. Sobre o altar figuram geralmente, além dos motivos de palma trançada, ou petatillo, também símbolos hierárquicos e prisioneiros amarrados. Segundo Jones, esses complexos geminados, característicos de Tikal, teriam sido concebidos para marcar a passagem de um hatan (ou grupo de 7.200 dias) a outro, e utilizados nas grandes cerimonias publicas, onde o halach uinic, de caráter semidivino, oficiando como profeta transmitia os augúrios relativos ao desenvolvimento do hatun em curso, assim como os prognósticos individuais. Jorge Guillemin sublinha o caráter solar desses conjuntos, onde as sucessivas horas do dia irão determinar um jogo vivo de sombras e luzes.

As medidas destinadas a tornar o culto menos hermético, mais acessível ao comum dos mortais - em suma, mais popular -, devemos acrescentar a importância progressiva do jogo de bola, tanto em seu aspecto ritual e tão divinatório quanto, talvez, em seu caráter de espetáculo suscetível de atrair as massas. Finalmente, essa reativação que se observa por toda a cidade a partir de meados do século VII e se traduz no reativamento de construções civis e religiosas, de enterros suntuosos e nas artes em geral, testemunha uma estabilidade econômica e política. Essa renovação cultural alcançara seu ponto culminante entre 681 e 768, durante o reinado de dois personagens que ainda se designam, a falta de melhor denominação, sob os títulos de Soberanos A e B. O primeiro pertencia, sem duvida, as antigas famílias que emigraram para o sul de Petén, contando-se, entre seus ancestrais, o famoso Céu Tormentoso, de origem maia-mexicana.

Tem-se a impressão, quando se analisam certos tragos do Soberano A, de uma encenação habilmente orquestrada para fazer de sua ascensão ao trono um acontecimento revestido de um caráter histórico e cósmico extraordinário. Sua entronização, com efeito, é celebrada solenemente e ligada a de seu prestigioso ancestral, Céu Tormentoso, que remonta exatamente a 13 hatuns anteriores. Ora, Sabe-se da importância de que se revestia, aos olhos dos Maias, o mecanismo dos hatuns e, muito particularmente, no calendário ritual, o retorno cíclico do mesmo signo a cada 13 hatuns (ou 260 anos de 360 dias cada), retorno no qual os Maias, impregnados como estavam de preocupações cósmicas e das virtudes mágicas desses mecanismos cíclicos, queriam ver um eterno retorno dos próprios fenômenos históricos, como teremos ocasião de observar em outros exemplos e como se depreende principalmente da leitura angustiante dos textos proféticos contidos nos livros de Chilam Balam.

A entronização do Soberano A marca igualmente o ressurgimento vigoroso, em Tikal, de elementos de origem mexicana. Mais do que resultantes de um contato direto, esses elementos (encontrados simultaneamente em outros sítios das Terras Baixas, como Piedras Negras, Copan e Uxmal) pertencem a certas famílias reinantes, para as quais parecem funcionar como emblemas heráldicos que, justapondo-se aos símbolos maias tradicionais, mostram até que ponto certos dirigentes maias reivindicavam laços espirituais com a longínqua Cidade dos Deuses, cujo prestigio permanecia aceso, a despeito de seu acentuado declínio a partir do final do século VII. É curioso observar que, na arquitetura, por exemplo - um dos domínios em que Tikal se havia revelado ate então em feroz oposição a qualquer ingerência do exterior-, por essa época se constroem vários edifícios que, tanto pelos volumes exteriores (visivelmente inspirados no tablero-talud usado em Teotihuacan) como por sua iconografia, se ligam a tradição mexicana.

Mas se esses acentos exóticos são perfeitamente identificáveis em Tikal, assim como em outros lugares, em nada entravam a extraordinária eclosão da arquitetura e das artes plásticas, cujo caráter puramente maia é devido então ao paroxismo, seguindo as tendências estéticas de cada regido. Em Tikal - onde, no curso do milênio anterior, se desenvolvera uma arquitetura religiosa que, graças a acréscimos posteriores, finalmente adquirira um caráter de verticalidade cada vez mais acentuado (como os templos-pirâmides 22 e 33 da Acrópole Norte) -, verdadeiros colossos são, construídos pelos soberanos A e B, de uma só vez e não como simples resultado de uma serie de superposições. É assim que, aproximadamente nos anos 700, sob o comando do Soberano A, que reinou de 681 a 733, são erigidos entre as Acrópoles Norte e Central, nas extremidades oeste e leste da Grande Praça central - que até então se achavam vazias -, os tempos I e II, cuja altura total, dos assentamentos a cresteria (cumeeira), ultrapassa respectivamente 40m e 50m. O mais antigo dos dois - o templo II ou templo das Máscaras - compensa o aspecto pesado de sua base piramidal pela altura e relativa leveza de sua cresteria, que conserva alguns vestígios de uma rica ornamentação em relevo. Quanto ao templo l, ou templo do Jaguar Gigante (assim denominado devido a um motivo esculpido sobre um friso interior em madeira de sapota), constitui o protótipo por excelência da arquitetura de Tikal.

Tudo nesse templo I contribui para acentuar a tendência vertical que há séculos constituía uma das características essenciais dessa arquitetura: as proporções da base em degraus formando o gigantesco suporte piramidal; o desenho rítmico nas faces inclinadas, onde se alternam horizontalmente, em um jogo sutil de sombras e luzes, molduras em saliência e reentrância, e cujo sentido ascendente e reforçado por vigorosos recortes verticais, os quais, estreitando-se de nível para nível, convergem para o santuário, ao qual se chega através de um só lance de uma escadaria abrupta (e em cujo interior, visíveis somente aos privilegiados que na época tinham acesso a ele, frisas em madeira de sapota delicadamente esculpidas mostram os dignitários em vestes cerimoniais). Finalmente, alongando esse santuário em altura, vi-a-se a imponente massa da cresteria, reduzindo-se gradativamente em direção ao cume, com suas chanfraduras e planos inclinados, cujos vestígios ornamentais sugerem a esfigie colossal de um personagem sentado em seu trono (sem duvida, o próprio Soberano A).

Culminância magistral de uma serie de tendências arquitetônicas, algumas das quais remontando a quase um milênio, esse edifício de proporções majestosas e particularmente equilibradas encarna a perfeição essa ânsia de eternidade que muito cedo levou os homens dessa região a erigirem seus santuários na floresta ate ultrapassarem a altura das copas, o que só conseguiram - e somente por certo tempo - ao final do período clássico. Nenhuma outra cidade maia soube vencer a tal ponto a floresta tropical, o oceano vegetal dentro do qual Tikal esta submersa sendo materialmente perfurado, de lugar em lugar, pelas altaneiras cresterias dos grandes templos. Entre estes, o templo V (construído igualmente, ao que parece, sob o reinado do Soberano A, e próximo a Acrópole Sul) não contem, apesar de seus 60m de altura, sendo um único quarto de 75cm de largura, enquanto o muro posterior, destinado ao suporte de uma enorme cresteria, atinge cinco metros de espessura!... Que dizer então do templo IV, construído em torno de 741 pelo Soberano B e que, com seus 72 metros de altura e seus muros de 12 metros de espessura, se conserva entre as mais impressionantes construções realizadas na América pré-colombiana, depois da pirâmide do Sol, em Teotihuacan, cuja altura total devia atingir 75 metros, incluindo-se o santuário?

Quando se passeia - com dificuldade - dentro dessa densa floresta tropical é, através de uma clareira, se descobre subitamente um desses colossos, pode-se imaginar a forca do impacto místico que devia produzir, em sua época, uma tal concepção arquitetônica: a imponente pirâmide, em cujo templo, sobreposto no alto desse imenso apêndice policromado, esta entronado o príncipe, uma imagem nebulosa parecendo situar-se no ponto de encontro entre a terra e o sol... Mais ainda que nas outras cidades maias, fica-se maravilhado aqui por essa concepção de santuário, enquanto relicário inacessível ao comum dos mortais, esmagador tanto pelas dimensões quanto pela carga de mistério, quase irreal no cimo de sua base piramidal, onde se esfuma no infinito, parcialmente envolto pelas nuvens de copal. Junte-se a isso o efeito de caixa de ressonância - sem dúvida intencional, ao menos em parte - produzido pelas estreitas passagens do santuário e que, ampliando a voz do oficiante, devia lançar os fieis em verdadeiro estupor. O homem era aqui negado, anulado por essa formidável presença.

Seria injusto, contudo, limitar exclusivamente a essas obras ambiciosas a arquitetura desse período em Tikal: a idade de ouro que, como dissemos, coincide com um período de estabilidade e abundância, traduz-se aqui pelo embelezamento e ampliação da cidade, cuja população permanente atinge uma espantosa densidade, considerando-se o meio natural tão pouco propicio. Sobre uma superfície de 16 km2, contam-se aproximadamente 3 mil estruturas sólidas, que vão desde uma simples plataforma até uma imensa pirâmide. O centro cerimonial, cujo núcleo é a Acrópole Norte, é consideravelmente ampliado. Largas avenidas, de traçado mais ou menos regular ou acidentado, segundo a topografia, partem das praças adjacentes à Grande Praça central e ligam entre si os principais conjuntos de edifícios: para oeste, em direção ao templo IV; para o norte, em direção ao grupo H; e, para sudeste, dentro de um grandioso projeto, sem duvida inacabado, no sentido do templo das Inscrições, cuja construção foi iniciada em 766, sob o reinado do Soberano B (734-768).

É no interior de um retângulo de aproximadamente 1.200m por 600m de lado, orientado no sentido leste-oeste, que se encontra a mais Alta concentração de construções, dispostas de maneira muito flexível em torno dos três principais reservatórios a céu aberto, e cujo núcleo central é formado pela Acrópole Norte, pelos templos I e II e pela Acrópole Central, verdadeiro coração administrativo e religioso de Tikal. Com efeito, se a Acrópole Norte apresenta os mais espetaculares conjuntos de edifícios destinados ao culto, o panorama oferecido pela Acrópole Central é inteiramente diverso, com suas longas filas horizontais de construções que, perfuradas de múltiplas aberturas e se elevando algumas às vezes ate dois ou mesmo três níveis, se organizam em quadriláteros mais ou menos compactos em torno de pátios interiores. Combinando sem duvida em graus diversos funções administrativas e residenciais, algumas dessas construções merecem plenamente a denominação de "palácios", com a qual temos tendência a designar todas as edificações mesoamericanas que não se identifiquem visivelmente como templos, nem como campos de jogo de bola, nem como termas. O Palácio Maler, por exemplo, é um modelo de harmonia, com suas duas alas ligeiramente salientes e seus dois andares, o segundo dos quais se abre exclusivamente para o sul, debruçando-se sobre o Reservatório do Palácio, onde se vinha refletir o gigantesco templo V.

Essa arquitetura civil distingue-se não somente pela disposição de edifícios alongados, frequentemente munidos de duas ou mesmo três fileiras paralelas de peças, mas também pela presença de plataformas ou bancos de alvenaria revestidos de estuque, tal como as paredes internas e externas. Essas peças, que não recebiam luz solar senão através da abertura das portas (e com frequência de maneira indireta), são as vezes guarnecidas de estreitas fendas a guisa de janelas. As travas de madeira, frequentemente engastadas nas paredes inclinadas da abóbada, permitem uma decoração mural e diversos objetos suspensos. A isso, acrescentem-se as esteiras de dormir e, segundo o escalão social, também almofadas, assentos baixos e mesmo um trono mais ou menos elaborado, assim como peles de jaguar e de outros animais, tecidos de algodão as vezes ricamente bordados, alguns utensílios ... e se terá uma ideia da ordenação desses locais razoavelmente obscuros, úmidos mas relativamente frescos, cujo conforto era praticamente nulo, a ponto de certos autores afirmarem que, considerações de prestigio a parte, a simples cabana de um camponês maia deveria ser sensivelmente mais atraente. A cozinha, como ainda é uso frequente nessas regiões, fazia-se, na maior parte do tempo, de fora, sob um alpendre, enquanto as peças de alvenaria eram reservadas outras funções: habitação, entreposto e trabalho. A comunicação de uma peça a outra efetuava-se quase sempre de maneira bastante indireta, prestando-se esse tipo de construção a uma grande flexibilidade de soluções. No entanto, realizando-se boa parte das atividades ao ar livre, e frequentemente ao abrigo de um alpendre ou da própria floresta densa, essas peças escuras e pouco acolhedoras não eram, sem duvida, utilizadas senão durante determinadas horas do dia ou da noite.

É muito difícil, em geral, determinar as diversas funções que um mesmo edifício poderia as vezes combinar. Nesse setor, por exemplo, a frente da extremidade leste da Acrópole Central, sobre a Praia Leste, para onde confluem duas largas calcadas, há, nas proximidades de um campo de jogo de bola, um enorme complexo em forma de quadrilátero, dispondo de rampas elevadas nos quatro ângulos, e que bem parece ter sido um mercado publico. Ao sul dos três grandes reservatórios, por outro lado, sucedem-se, de leste para oeste, construções nitidamente diferentes, a começar pelo compacto Grupo G. Passando-se por esparsos conjuntos residenciais para se chegar ao imponente templo B, encontra-se depois a Acrópole Sul, formidável conjunto de plataformas artificiais do qual emerge um templo-pirâmide curiosamente encerrado entre grandes edifícios do tipo "palácio". Vem em seguida, delimitada ao norte por três campos paralelos de jogo de bola, uma das mais vastas e belas praças de Tikal, a Praça dos Sete Templos, assim denominada em razão dos sete santuários que vela se dispõem em alinhamento cerrado sobre o lado leste (sua fachada posterior vindo a se escorar sobre as plataformas laterais da Acrópole Sul) e cujo templo central se destaca tanto pelo tamanho como pela altura. Finalmente, circundada ao longo de três de seus lados por longos edifícios e voltada para o norte em direção ao templo III - o ultimo dos colossos de Tikal, inaugurado em 810 -, uma praça ainda mais gigantesca segue-se a essa ultima, comportando no centro uma das mais majestosas pirâmides, cuja construcao remonta à época pré-clássica. Esse setor central e integrado, a noroeste, pelo Palácio dos Morcegos e, depois, por um desses complexos geminados tão característicos de Tikal, o impressionante templo IV para o qual convergiam duas outras calçadas (uma conduzindo ao Grupo Norte, a outra a Grande Praça central).

Muito flexível, adaptação essencialmente a uma topografia bastante irregular e fatalmente limitado em suas perspectivas pelas espessas massas de vegetação, resultado de dezenas de séculos de incessantes remodelagens (terraplenagem, superposições, ampliações, modificações diversas...), o centro de Tikal esta longe de oferecer um aspecto ordenado como o de Teotihuacan, onde, em contrapartida, se encontra, pela primeira vez na Mesoamerica, um verdadeiro tecido urbano, dispondo de um sistema de ruas e avenidas regularmente traçadas em angulo reto e delimitando massas compactas de construções. Entretanto, como observa Jorge Hardoyl é difícil negar o caráter de cidade a esse conjunto tão imponente quanto harmonioso, fruto de um crescimento mais "orgânico" e cujos construtores - menos impressionados com o ângulo reto e com a preocupação de simetria do que seus congêneres da Cidade dos Deuses - souberam criar, dentro de "uma amostra de inexatidão", efeitos atraentes de conjunto, com a maior parte dos largos calçadões desembocando quase invariavelmente em uma praça e se completando com a perspectiva majestosa, sem contudo ser dominante, de um templo ou de um conjunto importante.

Para completar essa visão de Tikal, acrescentem-se a isso os desníveis de terreno sabiamente utilizados - de inicio, acrescenta Hardoyls para dar ênfase às massas isoladas e lhes acentuar o volume - e também a maneira como se alternavam as construções e espaços descobertos, devidamente revestidos de estuque (praças, esplanadas, plataformas cerimoniais, calçadas alinhadas por parapeitos, reservatórios etc.), com as áreas de reserva, onde continuava a dominar a floresta - em alguns pontos cuidadosamente conservada -, a sombra da qual serpenteavam milhares de sendas conduzindo aos setores periféricos e as milpas disseminados por um vasto circulo. As calçadas, como vimos, limitam-se a comunicação entre os principais setores do centro cerimonial: concebidas essencialmente, ao que parece, com o fim de facilitar as procissões e outras grandes festividades civis ou religiosas, o que não exclui absolutamente a preocupação de produzir um impacto estético, elas não ligam Tikal as cidades vizinhas, como acontece em certas cidades maias da península de Yucatan. Quanto mais se afasta do núcleo da cidade, mais frouxo se torna esse tecido quase urbano: os conjuntos, arquitetônicos vão-se distribuindo ao acaso dos acidentes do terreno, não distantes dos pontos de agua; e assim se passa, de forma quase imperceptível, aos setores periféricos, comportando ainda algumas construções solidas (como modestos palácios e um reduzido centro cerimonial), as habitações de características cada vez mais rurais, algumas cabanas se agrupam ao redor da casa do chefe, ate chegar o ponto em que, a quilômetros de caminhada mais adiante, defronta-se de novo com uma pequena aglomeração anunciando a proximidade de outra cidade (ou de um pequeno centro cerimonial mais ou menos "satélite", como timbal).

William Bullard, estudando as estruturas de habitação ao redor de Tikal, comenta que, à medida que se interna na floresta a procura de traços de ocupação humana, "uma primeira impressão - e precipitada - e de que ela [a ocupação] existe quase por toda parte". Isso mostra até que ponto, ao final do período clássico, o sistema dos Maias conseguira o prodígio não somente de sobreviver nesse meio difícil, mas também de se implantar praticamente ate o limite do possível. Se o caso de Tikal é um caso extremo de concentração quase urbana, muitas outras cidades maias da época tendiam a se aproximar desse modelo. O centro da cidade de Yaxha, na regido do Petén, apresentava mesmo uma proporção mais alta de edificações, frequentemente delimitadas por calcamentos em ângulos retos, dando ao conjunto uma aparência mais "urbana". Dzibilchaltun, na extremidade noroeste de Yucatan, constituía uma das mais formidáveis aglomerações maias em termos de extensão e densidade, ainda que - pelo desenho e beleza de seus edifícios - seu centro cerimonial estivesse longe de rivalizar com Tikal. Esse período de prosperidade e expansão traduz-se igualmente por uma eclosão extraordinária nas artes plásticas.

No domínio da escultura, como no da arquitetura, Tikal permanece como uma das principais formadoras de escola. Suas estelas, cujo protótipo se cristalizou através das gerações anteriores, conservam o contorno regular, ligeiramente alargado e arredondado no cume; a parte esculpida - ai compreendidos os textos glificos, geralmente agrupados em cartuchos - limita-se muito frequentemente a face anterior do monólito, enquadrada quase invariavelmente no interior de uma moldura. Quanto ao motivo principal, o do chefe supremo (as vezes com prisioneiro a seus pés),este e representado com o rosto de perfil, o corpo visto de frente ou de perfil, em uma atitude que, ainda rígida no inicio do século VIII, pouco a pouco se anima; certas partes do traje, principalmente as longas e elegantes plumas de quetzal, acrescentam-lhe, graças ao esvoaçar, uma leveza toda singular. O sentido de preciosismo é algumas vezes levado aos mínimos detalhes de um traje muito rico; a modelagem é, em geral, delicada, até mesmo sensual - sobretudo a dos membros, como as pernas do personagem da estela 21 (ano 736) e os pés do prisioneiro, de fato surpreendentes, do altar 8 (ano 751). As mãos maias são mais expressivas do que as próprias fisionomias!

Se o tema sempiterno das estelas de Tikal pode acabar se tornando fatigante, outras manifestações artísticas menos convencionais trazem uma nota de frescor e espontaneidade, como os desenhos finamente gravados em osso (que faziam parte das suntuosas oferendas do tumulo 116 que recobre o templo 1), um dos quais mostra, dentro de uma canoa, divertidas e dinâmicas divindades maias, muitas delas sob a forma de animais diversos. Por um lado, se o protótipo de estela desenvolvido em Tikal e Uaxactun se impõe relativamente por todo o território maia, por outro se assistira a eclosão praticamente simultânea de muitas escolas regionais ou locais. Certas cidades, apesar de próximas - como Naranjo e Yaxha -, souberam escapar as convenções demasiado rígidas de Tikal: a estela 22 de Naranjo (ano 702), por exemplo, mostra-nos uma cena da "ascensão" de um halach uinic ao nível divino; nela o dignitário aparece sentado, com as pernas cruzadas "a oriental", sobre um almofadão bordado, parecendo surgir de uma enorme mascara de ltzamna, o deus criador maia, tendo diante de si um prisioneiro que eleva as mãos em atitude de súplica. Na estela 31 de Yaxha, onde um personagem suntuosamente vestido executa uma dança ritual em presença de um anão sentado, um sinuoso mundo vegetal povoado de pequenos seres fantásticos parece jorrar das máscaras e de outros atributos que constituem o ornato de cabeça do dignitário.

Portanto, cada regido - às vezes cada cidade - soube acrescentar, ao esquema clássico da estela maia, sinais particulares. Na bacia do rio de lá Pasión, apesar de seu estreito parentesco com Petén, certas esculturas se distinguem pela concepção, pelo tema, pelo dinamismo ou pelo caráter rebuscado de sua execução. Assim é o disco de Cancuen, que mostra, por exemplo, dois adversários confrontando-se no jogo ritual de bola (tema bastante frequente na região de Usumacinta e do rio Lacanha). Melhor exemplo ainda são as excelentes estelas de La Amelia, onde se representa - por cima de um jaguar estendido ao solo e impressionantemente vivo - um personagem robusto e atarracado que, girando lentamente, executa uma dança ritual, ao que parece segundo a posição das pernas e o extraordinário movimento comunicado as longas plumas que se projetam de suas costas, mais o exuberante penteado do dançarino, dando a impressão de um verdadeiro "instantâneo" fotográfico! Dentro do gênero rebuscado, são especialmente dignas de menção as estelas 2 (quase idênticas) de Aguateca e de Dos Pilas, datando de 736, nas quais o artista se aplicou a representar, com um cuidado tão meticuloso quanto refinado, até o mínimo detalhe, uma vestimenta excepcionalmente carregada de atributos; dentre os quais figura um numero espantoso de elementos mexicanos tais como as mascaras de Tlatoc, um peitoral em forma de coruja, "signos do ano" etc.

A região estilística do rio de La Pasión  delimitada, a oeste, por Altar de Sacrifícios (para onde confluem os riachos Chixoy e Pasión, dois dos principais afluentes do Usumacinta), por Machaquila, a leste, e por Cancuen, ao sul. Esta encravada na área setentrional, entre o Men e a bacia de Usumacinta, duas das regiões mais importantes da área central; estendendo-se para o sul, ela penetra como cunha nas Terras Altas da Guatemala. Apesar de suas dimensões reduzidas, essa posição geográfica lhe conferiu, aparentemente, durante certas fases da evolução cultural maia, o papel determinante de "encruzilhada". Ela se conta entre as mais antigas regiões das Terras Baixas ocupadas por grupos sedentários; por outro lado, constituía, desde a fase pré-clássica recente, uma das principais vias de comunicação entre a área meridional e as Terras Baixas (convém lembrar vestígios como a estela de Três Islas, por ocasião da primeira onda de influencias mexicanas). Durante a fase clássica recente, contribui imensamente para ativar o extraordinário fluxo de pessoas e riquezas que, transportando-se desde o centro da Guatemala ate as costas do Tabasco e do Campeche, tinha por artéria vital a bacia do Usumacinta e seus afluentes.

Examinaremos também que papel desempenhou essa região, algumas gerações mais tarde, na derrocada do mundo clássico maia, como e demonstrado principalmente nas profundas modificações que apresentam as estelas de Seibal desde meados do século IX. Por enquanto, porem, deixando por um tempo a parte o núcleo da área central maia, passemos em revista as demais grandes províncias maias das Terras Baixas, a começar pela bacia de Usumacinta.

 

A bacia do Usumacinta

PIEDRAS NEGRAS - Muitas cidades dessa região rivalizam entre si tanto pelo porte como pelo número e qualidade de sua escultura. Umas das mais antigas e importantes, Piedras Negras, situa-se a margem direita do rio Usumacinta, do lado guatemalteco, suas principais edificações agrupando-se ao redor de uma serie de terraços dispostos entre as ondulações do terreno, fortemente escarpado, e ao que parece sem relação com o rio que corre nos contrafortes. Entretanto, como observa Horst Hartung, uma análise minuciosa do plano de massas de Piedras Negras põe em evidencia o papel decisivo desempenhado por certos eixos visuais que, passando pelo centro dos dois campos de jogo de bola, determinam uma serie de relações - de acentos as vezes sutis - entre os elementos essenciais da composição. Essas linhas de referencia, inteiramente virtuais, estão exatamente orientadas em direção aos pontos cardeais, enquanto as construções dão antes a impressão de estarem, elas mesmas, dispostas ao acaso. Esse estudo é confirmado pelas interpretações de caráter histórico realizadas por Tatiana Proskouriakoff a respeito dos textos glificos de Piedras Negras e do modo como se sucedem os monumentos que levam essas inscrições.

Desde o inicio do período clássico, a arquitetura de Piedras Negras demonstra intimas afinidades com o estilo de Petén, o que se pode observar pela evolução de edifícios como o templo K5, cuja base piramidal corresponde ao modelo de Tikal: ângulos desbastados e frequentemente arredondados, molduras e outros elementos característicos, e também a parte posterior do santuário recoberta de uma cresteria maciça. A tendência a verticalidade, entretanto, e menos acentuada; por outro lado, uma analise mais profunda de certos conjuntos majestosos dessa cidade revela, em alguns locais, uma leveza raramente presente em Tikal, e cuja origem poderia localizar-se na cidade de Palenque, situada a noroeste. Tal é o caso, por exemplo, da Acrópole de Piedras Negras, que se comunica com a Praça Oeste por meio de uma grande escadaria, e cujas edificações, escalonando-se ate o cume de uma colina, se organizam em torno de uma sucessão de terraços artificiais, a passagem de um grupo a outro efetuando-se através de largas galerias cobertas, com numerosos acessos (os quais, como os do Palácio Palenque, exibem a graça de um verdadeiro pórtico). Mesmo alguns santuários, em contraste com outros, são visivelmente inspirados no modelo de Palenque que, como veremos, e de uma concepção inteiramente "revolucionária".

Graças principalmente a sua escultura, Piedras Negras ocupa lugar de destaque na arte maia. Não bastando ter erigido todos os 7.200 monumentos comemorando a passagem de um hatun a outro (como era então o costume nas cidades maias mais prósperas), Piedras Negras é a única a ter esculpido sem interrupção, durante mais de 200 anos entre 608 e 810 da nossa era, estelas marcando o fim de cada hotun ou período de 1.800 dias. Além disso, quer se trate de uma estela, das fundações de um altar, de uma verga ou de um trono em pedra, as esculturas de Piedras Negras atestam grande criatividade, tanto pelo tema como pela concepção plástica, onde as vezes estão combinados, simultaneamente, todos os recursos da arte do relevo. Certas estelas, por exemplo, representam cenas de "ascensão" (simbolizando sem duvida a ascensão ao poder ou entronização), cujo personagem principal, sentado de frente sobre uma almofada, com as pernas dobradas, destaca-se sozinho, em alto-relevo, no interior de um nicho, em violento contraste com a superfície do monólito, delicadamente esculpida em baixo-relevo. Outras, resgatando o espirito místico dos primeiros tempos, apresentam uma composição onde, de forma original - como observa Beatriz de La Fuentel -, "se fundem dois planos, o mundano e o sobrenatural". Esse e o caso da estela 5 (ano 716), onde o halach uinic, sentado no trono, com o cetro na mão, está colocado ostensivamente sob a proteção de uma divindade, cujo maxilar superior recurvado se prolonga acima da cabeça, a maneira de um dossel, e no qual - agitando-se em poses simiescas - aparecem os pequenos, "gnomos" da mitologia maia, sendo o todo encimado por um pássaro portando uma mascara grotesca. Se a atmosfera aqui e de uma exuberância toda maia, a enorme estela 40 (ano 746), ao contrario, e de uma rara sobriedade, pontilhada aqui e ali de detalhes rebuscados, que uma execução preciosista torna ainda mais comovente: humildemente ajoelhado e vestido com simplicidade, o grande sacerdote que figura no registro superior faz o gesto do semeador, enquanto, de um angulo inferior, emerge o busto suntuoso de uma divindade antropomórfica.

De espirito mais marcial, a estela 12 (onde, sob a guarda de dois guerreiros, um grupo de prisioneiros e levado a presença do chefe supremo) é um exemplo magistral tanto de composição quanto de execução. Inaugurada em 795, essa escultura representa bem o lado dominador de certos dirigentes maias da época, ao mesmo tempo em que constitui uma das obras-primas saídas das oficinas de Piedras Negras. Admiravelmente adaptada a forma ligeiramente irregular do monolito, a cena, buscando um efeito de perspectiva "ascendente", começa, na parte inferior, por um grupo compacto de cativos em atitudes muito variadas. Ao centro da composição, entre dois guardas, o chefe dos cativos, colocando a mão esquerda sobre o ombro direito em atitude de submissão, volta o rosto em direção ao jovem chefe, que esta com a mão esquerda pousada naturalmente sobre a perna esquerda flexionada, enquanto a outra perna pende para o solo. O artista soube imprimir a cena um movimento e um sentido da hierarquia incomuns; a profundidade do relevo vai em um crescendo de baixo para cima, onde uma das longas plumas de quetzal que coroam o enorme barrete do principal personagem destaca-se em terceira dimensão. Uma combinação semelhante de todos os recursos da arte do relevo reencontra-se na famosa verga 3 (ano 761) que, dentro de um gênero muito mais preciosista, constitui verdadeira façanha da arte maia. A cena, de uma veracidade impressionante, representa uma reunião do conselho, na qual, diante de jovens nobres e de membros da família reinante, um grupo de dignitários está sentado no solo mesmo, enquanto, do alto do trono ricamente ornamentado, em cujo rebordo apóia sua mão, o príncipe se inclina em direção aos mais idosos de seus conselheiros. Deve-se mencionar finalmente o trono l, cujo espaldar representa uma enorme mascara de divindade cujos olhos, de órbitas profundas, servem como enquadramentos aos bustos de dois personagens parecendo comunicar-se de uma 6óbita a outra! Ha um outro espaldar de trono (que hoje pertence a uma coleção particular, sendo muito provavelmente proveniente de Piedras Negras) no qual estão recortadas em relevo, sobre um fundo particularmente profundo, as silhuetas de dois personagens voltados um para o outro, em atitude muito natural.

YAXCH I LAN - Situadas mais acima, na margem esquerda do Usumacinta, do lado mexicano, as construções de Yaxchilan - tanto as situadas sobre a esplanada inferior que serpenteia ao longo das escarpas como as erigidas sobre os principais taludes do terreno - são essencialmente orientadas para o rio, ao contrário das de Piedras Negras, embora guardando entre si certas semelhanças visuais. Assim, enquanto os templos de Piedras Negras conservam um estreito parentesco estilístico com os de Tikal, os de Yaxchilan parecem dispensar deliberadamente o emprego da pesada cumeeira sobre o muro posterior do santuário para se lançar a soluções diferentes, as vezes mais próximas das tradições em voga na península de Yucatan ou em Palenque.

No domínio da escultura, mais ainda que por suas estelas (dentre as quais se encontra a imponente estela 11, de 752, que de um fado apresenta uma cena de transmissão de poder e, de outro, três personagens ajoelhados aos pés do príncipe "Pássaro Jaguar"), pela profusão e beleza de suas vergas em pedra que Yaxchilan ocupa lugar especial, a começar pela verga 48, que remonta ao ano 25 e contem uma das mais belas inscrições glificas maias. Marca-as por um caráter anedótico e histórico particularmente acentuado, essas vergas foram interpretadas de forma altamente sugestiva por Tatiana Proskouriakoff, que sublinha em particular o caráter guerreiro de dois soberanos da dinastia "Jaguar", reinante em Yaxchilan durante o século VIII, dos quais alguns traços parecem indicar que se trataria de usurpadores originários da região Puuc de Yucatan. A verga 8, datada de aproximadamente 755, mostra "Pássaro Jaguar" e seu companheiro de armas capturando com as mãos dois personagens importantes, inclusive "Crânio com Joias"; essa proeza se conservara, dai por diante, inscrita como um de seus títulos de gloria, acompanhando seu nome em todas as inscrições posteriores a seu respeito.

Além dessa face belicosa, tão frequentemente representada em Yaxchilan, outros temas estão presentes sobre essas vergas, cujos baixos-relevos, rebuscados e sensuais, se recortam em silhueta sobre um fundo fortemente pronunciado. Coberta de tecidos ricamente bordados, uma mulher neles aparece com frequência, ocupando às vezes uma posição predominante, sobretudo nas cenas de auto sacrifício e nas alucinantes "aparições" de um jovem deus que surge em armas das mandíbulas desmesuradamente abertas de uma serpente fantástica, sob o olhar extasiado de uma sacerdotisa de joelhos.

BONAMPAK - Além do interesse nada negligenciável de sua escultura, a modesta "Acrópole" de Bonampak, situada a sudoeste de Yaxchilan, ocupa lugar excepcional dentro do panorama da arte maia, tanto pelo valor documental como pela beleza de suas pinturas murais, onde a segurança das linhas se alia a um sentido muito desenvolvido da composição e a uma palheta particularmente rica. O "prisioneiro" moribundo e uma verdadeira peça de bravura, sem falar dos mil recursos sutis por meio dos quais o "mestre de Bonampak" soube dotar suas cenas de um sopro de vida que ultrapassa de longe o aspecto tão frequentemente pesado e convencional da arte monumental maia.

PALENQUE - Situada nos contrafortes iniciais da serra de Chiapas, Palenque apresenta uma localização excepcional, de onde domina, do alto de suas imensas esplanadas artificiais, a planície de Tabasco, ao norte. Os cursos de agua que atravessam a cidade foram captados e canalizados, em alguns lugares, para dentro de aquedutos subterrâneos. O que não fora ate a metade do século VI mais que um aglomerado sem importância bruscamente despertara, no espaço de alguns decênios, para se tornar um dos mais fervilhantes centros de arte maia. Sob a influencia de soberanos esclarecidos, dentre os quais se destaca a figura do grande Pacal, escultores e arquitetos empreendem em Palenque, desde fins do século VII, uma profunda revisão dos elementos tradicionais maias, aos quais darão um aspecto renovado, muitas vezes "revolucionário". Em matéria de escultura, por exemplo, o "culto a estela" - tão profundamente enraizado entre os Maias - e substituído por grandes painéis de pedra calcaria, esculpidos em relevo muito sutil, encaixados nas paredes internas dos principais edifícios, ao mesmo tempo em que, no exterior, fachadas, tetos inclinados e cresterias se cobrem de belos relevos modelados em estuque.

Quanto a arquitetura de Palenque, esta tende, desde as suas primeiras manifestações, a ampliar os espaços interiores, chegando muito rapidamente a soluções onde a preocupação com a estrutura e com a função se alia de forma harmoniosa aos múltiplos imperativos de ordem estética. As particularidades dessa renovação arquitetônica aparecem com eloquência em certos santuários mais bem conservados da cidade, tais como os templos da Cruz e do Sol, onde, de imediato, se é agradavelmente surpreendido pela harmonia de proporções e pela sensação de leveza e delicadeza, e onde somente uma análise minuciosa permite identificar, nesse todo coerente, os componentes sutis. A cresteria desses templos e concebida como uma estrutura leve de claraboia que, diversamente de Tikal, não repousa sobre a parte posterior do edifício, mas ao próprio centro do teto, apoiando-se diretamente sobre o muro compreendido entre as duas vigas paralelas. É precisamente ai que reside o segredo dessa amplitude relativa e dessa leveza: o muro central desempenha a função de uma membrana perfurada de portas e de nichos, mas capaz, apesar disso, de servir como núcleo, estabilizada pelo peso da cresteria..., conforme observa George Kubler. Assim, em relação estreita com o núcleo central da edificação, essa cresteria deixa de constituir obstáculo ao alargamento do espaço entre as vigas - como sempre ocorreu em Tikal - e contribui para tornar mais leves as construções de Palenque, quer se trate de templos ou de palácios. Acrescente-se a isso, a guisa de janelas, algumas elegantes aberturas em forma de cruz ou de "T", assim como, aqui e ali, um friso interior ou pinturas murais, um trono parcialmente engastado em um muro, ou um desses admiráveis painéis que

Entre as construções mais importantes de Palanque, devemos mencionar finalmente o majestoso conjunto conhecido pela denominação de Palácio, caracterizado pela torre de observação e cercado de vastas galerias cobertas, cujas paredes exteriores - praticamente reduzidas a grandes pilastras - conservam algumas das mais belas cenas modeladas em estuque, e o templo das inscrições, que encerra no interior da cripta secreta construída dentro dos alicerces de sua enorme base piramidal (e descoberta por Alberto Ruz Lhuilher) o mais suntuoso tumulo real conhecido no mundo maia: o que contem os restos do soberano Pacal, fundador de uma brilhante linhagem de príncipes construtores e protetores das artes.

 

A bacia do Motagua

COPAN - junto com Tikal e Palenke, Copan constitui um dos pontos altos da civilização maia e representa um dos três vértices do que conviria denominar-se o "Triangulo Maia Clássico", em cujo interior esta compreendido praticamente tudo de essencial da area central. Apesar de sua posição geográfica relativamente afastada de Petén (no limite sudeste da área maia e atual território de Honduras), Copan ocupou desde cedo, do ponto de vista científico, o primeiro lugar no domínio da astronomia maia (e mesoamericana em geral). Desde a fase pré-clássica media, as estelas 10 e 12, situadas nas extremidades opostas do vale, acentuadamente no eixo oeste-oeste, marcam uma linha visual que coincide com o pôr-do¬sol de 12 de abril, dia que - como demonstrou Morley - era sem duvida aquele que os astrónomos de Copan haviam decretado como propicio a primeira fase do ciclo Agrícola, que consistia em atear logo as milpas (ate hoje, a queimada e feita na mesma época). A estreita abertura vasada na parede oeste do templo 22 de Copan esta orientada de modo idêntico, devendo-se observar que nessa região, confirmando aparentemente a diferença entre o calendário de 365 dias e o de 260 dias, o ciclo de cultura do milho dura cerca de 105 dias.

O computo dos "meses" lunares - cujo use foi introduzido no ano 691 sobre os monólitos de Copan, de onde logo se transmitira a outras cidades maias - garante uma exatidão complementar as inscrições cronológicas. Ultrapassando de longe em precisão todos os calendários ate então utilizados por outras civilizações, inclusive a ocidental, o ano tropical maia, tal como era então calculado pelos sacerdotes-astrônomos de Copan-365,2420 dias, e de uma aproximação surpreendente, se considerarmos que não difere dos cálculos mais modernos senão por três decimalíssimos de dia por ano. Que dizer então das incríveis especulações realizadas em Copan sobre as revoluções sinódicas e os eclipses do planeta Vênus, com cálculos estendendo-se as vezes ate milhões de anos?... Com tais eminencias no assunto, não e surpreendente que Copan tenha sido repetidamente, durante o século VIIIl, centro de congressos de astronomia que reuniam representantes de outras cidades (da área maia e talvez ate de muito além: de Xochicalco, por exemplo, ao sul do planalto Central mexicano).

Centro intelectual de primeira grandeza, Copan oferece além disso o espetáculo de um local extremamente alegre, com suas principais construções agrupando-se em torno da Grande Praça e da Acrópole (cujos níveis estão artificialmente elevados em relação ao rio), no centro de um pequeno vale fértil. Dentro de uma concepção majestosa - e as vezes muito flexível -, plataformas cerimoniais e numerosas tribunas se alternam com os templos e outras edificações, determinando gigantescas esplanadas, demarcadas aqui e ale por grandes monolitos, os quais, situados ao pé de santuários ou alinhados ao longo dos principais eixos visuais, sublinham a composição do conjunto. Desde o inicio do século, afirma-se aqui uma sensibilidade artística que, rompendo com os modelos implantados por Petén, era comunicar a escultura de Copan uma opulência toda particular. Mais altas e menos achatadas que em Tikal, as estelas saídas das oficinas de Copan, embora respeitando o tema de suas congêneres (o halach uinic de pé, geralmente segurando a barra cerimonial em forma de serpente bickfala), se aproximam substancialmente da escultura em alto-relevo, na medida em que os personagens representados se destacam do bloco de pedra em três lados, um alto-relevo alias muito pronunciado e cada vez mais arredondado. Observemos a esse proposito que a estatuaria em alto-relevo - muito apreciada pelos Olmecas - estava praticamente ausente da arte maia, sendo uma das exceções mais notáveis as esculturas de Toning (a oeste de Usumacinta), dentre as quais são particularmente dignas de menção algumas extraordinárias estatuas de prisioneiros ajoelhados.

Transbordando dos contornos do monólito e ate vasadas em alguns pontos, as estelas do século VII (nas quais, em faces opostas, figuram as vezes os does soberanos que compartilhavam o poder) atingem tons de um lirismo que não pode ser qualificado sendo como "barroco". Quanto aos altares que tão frequentemente as acompanham, estes assumem, em sua maioria, o aspecto inquietante de animais fantásticos: tartarugas, sapos ou serpentes bicefalas, crocodilos, máscaras grotescas etc. Por toda parte, em violento contraste com os panos despojados das bases piramidais, dos degraus e dos muros da fachada, jorra uma profusão de esculturas de um relevo vigoroso, dentro de uma efervescência plástica incomparável em toda a Mesoamerica. Admiravelmente reconstituída por Tatiana Proskouriakoff, a famosa Escadaria Hieroglífica e sem duvida o exemplo mais espetacular dessa arte, com a massa de esculturas do eixo central recortando-se em forte relevo sobre os 2.500 signos, aproximadamente, que, como um tapete ricamente bordado, constituem o texto glifico. A doce fisionomia de um jovem deus do milho, proveniente das ruinas do tempo, encarna a perfeição o ideal estético de Copan. Essa integração entre escultura e arquitetura produz um efeito ainda mais dramático no caso da Tribuna dos Espectadores, da Escadaria dos jaguares e do tempo 22, onde, no inimitável estilo de Copan, se fundem elementos cuja origem parece provir das regiões centrais de Yucatan.

QUIRIGUA - Situada mais ao norte, em território da Guatemala, a cidade de Quirigua deriva de Copan o essencial de sua evolução cultural, tanto por seu plano de massas quanto pela concepção de seus monolitos que, se não chegam a igualar a sensualidade e espirito criativo de seus modelos, os ultrapassam pelo menos em suas dimensões. Com efeito, as estelas erigidas em Quirigua a partir do ano 751 variam entre cinco e dez metros de altura, mas o personagem representado permanece enrijecido, apesar das tentativas de intensificação do claro-escuro, sobretudo nos contornos da fisionomia. A execução, porem, não carece de qualidade, e determinadas inscrições glificas se contam entre as mais refinadas. Os famosos "zoomorfos", esculpidos em imensos blocos medindo ate 4m de comprimento, parecendo estranhos animais encarquilhados, constituem as vezes verdadeiras "fantasias tropicais", tais como a "Grande Tartaruga", em cujas caprichosas dobras, glifos, gnomos e outros elementos aparecem e desaparecem em sucessão vertiginosa.

 

A península de Yucatan

Da majestade dos templos de Tikal a opulência de Copan, passando pela delicadeza dos edifícios de Palenque, passamos em revista as características essenciais de cada uma das regiões da área maia central. Apesar das diferenças marcadas quanto aos modos de expressão entre uma região e outra, as vezes mesmo de uma cidade para outra, uma certa unidade cultural se faz sentir dentro dessa área central maia, onde, por exemplo, se concede uma importância primordial a construção periódica de monumentos datados que, no plano artístico, encontram sua expressão de preferencia na escultura em alto-relevo e principalmente em baixo-relevo, seja independente da arquitetura ou nela incorporada. Assinala-se também a escultura progressivamente mais refinada, onde se emaranham linhas ondulantes, de uma sensualidade que frequentemente atinge acentos barrocos. A área setentrional, em contrapartida, caracteriza-se-antes pela tendência a empregar, em sua escultura mais estreitamente subordinada a arquitetura, motivos geométricos em que predomina a linha reta. Além disso, o emprego de estelas e de inscrições glificas e, em geral, muito menos frequente ao norte, com exceção de alguns locais, como Coba, Oxkintok, Xcalumkin, Edzna etc. Seria incorreto, no entanto, pretender reduzir a esses esquemas simplistas um fenómeno tão complexo, cuja cronologia as vezes ainda e incerta. Assim, na zona ainda do noroeste da península, Dzibilchaltun - que tem uma Tonga trajetória remontando ao período pré-clássico - constrói, durante a fase clássica media, seu curioso templo das Sete Estatuetas, o único edifício mesoamericano munido de verdadeiras janelas, e cuja extensão ultrapassa mesmo a de Tikal! Acanceh, desde o inicio do período clássico, constrói um santuário inspirado na pirâmide E-VII-sub de Uaxactun, e em seguida modela uma frisa em estuque, da qual muitos motivos parecem provir em linha direta de Teotihuacan. Coba, que possui uma impressionante rede de sache-ooh ou "caminhos brancos", um dos quais conduz em linha direta a Yaxuna, quase 100km a oeste, erige imensas pirâmides de ângulos desbastados, relembrando fortemente as de Tikal. Xcalumkin, por volta da metade do século VIII, constrói seu templo da Serie Inicial. É a pequena ilha de Jaina, que e então uma necrópole de primeira ordem, produz as mais extraordinárias estatuetas em terracota, galeria viva de personagens em que a fineza de execução e a minucia do detalhe se alia um agudo senso de observação. Observa-se que, por seu estilo - não obstante a relativa proximidade em relação as regiões de Chenes e Puuc -, essas deslumbrantes estatuetas mostram uma estreita afinidade com a arte maia da área central (e particularmente da bacia de Usumacinta).

 

As províncias Rio Bec e Chenes

Imediatamente ao norte de certas cidades que, como Calakmul, pertencem a esfera de influencia de Tikal e ao estilo do "grande Petén", no limite entre a área central e a setentrional, situa-se a província de Rio Bec, então muito próspera graças a uma agricultura intensiva e caracterizada por um estilo regional tão insólito quanto difundido. Quer se trate de uma aglomeração relativamente importante (como a cidadela fortificada de Becan, Hormiguero ou os diversos grupos denominados Rio Bee) ou de um lugar minúsculo como Xpuhil, pelo menos um dos edifícios principais comporta invariavelmente estranhas torres, simulando ate o mínimo detalhe os templos-pirâmides de paredes abruptas e escadaria impraticável, mas cuja simples presença devia possuir alto valor simbólico para a liturgia da região. Isso não exclui absolutamente a existência eventual de muitos outros edifícios de funções e aspectos diversos, dentre os quais verdadeiros templos-pirâmides e complicados conjuntos polivalentes, apresentando as vezes soluções radicalmente diferentes de uma fachada a outra.

Um motivo que se repete incansavelmente através de numerosos exemplos dessa arquitetura e o pórtico em forma da garganta escancarada de ltzamna, o deus criador maia, tal como pode ser visto tanto no cimo dos templos simulados quanto no centro de um edifício funcional.

Se a existência de torres imitando os templos-pirâmides delimita o estilo Rio Bee, o motivo principal do portal simulando uma goela aberta e comum também ao estilo Chenes, mais ao norte - junto com outros elementos, tais como pequenas colunas ligadas, mascaras de angulo, gregas, tendas estilizadas e cresterias vasadas - faz parte de um repertorio mais vasto que engloba, ainda mais ao norte, cidades da região Puuc, como Uxmal, e cuja influencia se faz sentir ate Chichen Itza, no nordeste, Tikal, no sul (principalmente no que concerne ao grupo G), e mesmo Copan, na fronteira sudeste da área central. De Rio Bee a região acidentada do Puuc, quanto mais se avança para o noroeste da península, mais o arredondado sensual e a ornamentação exuberante cedem lugar a uma arte eminentemente arquitetônica, em que uma escultura de caráter geométrico esta subordinada as necessidades de uma composição rigorosa na qual dominam os contornos nítidos e os volumes bem contrastados.

 

A província Puuc

Nada demonstra melhor o estilo dessa arte clássica de Yucatan do que o estilo da região Puuc, cuja sensibilidade artística se situa na extremidade oposta da arte sensual e ondulante da área central. É precisamente em relação a maneira de conceber a arquitetura que se evidenciam com maior intensidade estas duas facetas da arte maia: uma apresentando os contornos flexíveis e ligeiramente arredondados, enquanto a outra tende a simplificar os volumes, ao mesmo tempo imprimindo certo rigor a alternância de superfícies planas e partes esculpidas; uma fazendo acentuado apelo aos sentidos, a outra parecendo submeter-se aos esquemas mais abstratos do intelecto. A arquitetura Puuc recorre antes aos volumes cúbicos, cuja ornamentação não e mais um revestimento vistoso mas se transforma verdadeiramente - como observa Marta Foncerrada de Molina - em parte integrante da edificação. Ângulos bem pronunciados, molduras bisotadas e um jogo sutil de sombras penetrantes contribuem para sublinhar cada uma das partes de um conjunto harmonioso.

Uma utilização mais flexível da abobada falsa permite audácias verificadas apenas nessa região, como por exemplo o arco de Labna. A coluna, jamais adotada pelos Maias da área central, e empregada aqui a fim de tornar mais leve o aspecto das fachadas, alternando-se as vezes com simples portas, como e o caso do palácio de Sayil, um dos grandes clássicos desse gênero, onde se manifesta um sentido bem avançado da composição. Nessa mesma linha, o palácio do Governador em Uxmal constitui sem duvida uma das criações mais equilibradas, criação monumental em que, controlada por mãos de mestres, a extrema riqueza do friso superior se funde em um todo majestoso, cuja originalidade de concepção se harmoniza com rigor e segurança na modulação e alternância dos diversos motivos empregados... Em contrapartida, a influencia desse grande estilo se faz sentir em certos locais da província Chenes, mais ao sul, e, estendendo-se para o nordeste ate Kuluba, marca profundamente a arquitetura de Chichen Itza, que será mais tarde o cenário de um "renascimento" maia-tolteca intensamente impregnado de elementos estranhos a tradição maia clássica.

Civilização Maia
Civilização Maia: A Queda

Certo dia, no ano 800, a pacífica cidade maia de Cancuén, na atual Guatemala, foi tomada pelo caos e pela violência. O soberano, Kan Maax, certamente tinha alguma idéia do que teria de enfrentar, pois tentara erguer uma improvisada fortificação em torno de seu imenso palácio com 200 cômodos. Mas não pôde terminá-la a tempo.

Os atacantes avançaram rapidamente pelas defesas em volta da cidade e afluíram para o centro cerimonial de Cancuén. Mesmo hoje é evidente a velocidade com que se deu o ataque. Obras civis inconclusas jaziam em ruínas. Panelas e vasilhas estavam jogadas pelo chão da cozinha do palácio.

A fúria dos invasores concentrou-se em 31 reféns. Pelas jóias e adereços encontrados com seus restos mortais, sabemos que eram nobres, talvez da extensa família de Kan Maax, ou então membros de outras famílias reais, ali refugiados após a derrocada de suas cidades.

Todos foram levados ao pátio cerimonial do palácio e ali executados de maneira sistemática. Usando lanças e machados, os forasteiros empalaram ou decapitaram suas vítimas. Em seguida, os corpos foram colocados na cisterna do palácio. Kan Maax e sua rainha não foram poupados. Ambos acabaram sepultados a 90 metros, sob 60 centímetros de entulho, que seria usado na reforma do palácio. O rei ainda usava um requintado cocar e um colar de madrepérola que o identificava como o Sagrado Senhor de Cancuén.

Ninguém sabe quem eram os matadores ou o que pretendiam. Não pareciam interessados em saquear a cidade. Cerca de 3 mil peças de jade, incluindo vários blocos enormes, permaneceram intocados, assim como os objetos do palácio e os utensílios de cerâmica da gigantesca cozinha de Cancuén. Todavia, para os pesquisadores que vêm exumando indícios ao longo dos últimos anos, a mensagem dos invasores é clara. Ao lançar os corpos na cisterna, "eles envenenaram o poço", conta o arqueólogo Arthur Demarest. Também rasparam os traços de todas as fisionomias esculpidas nos monumentos de pedra de Cancuén e os derrubaram, com o rosto voltado para o chão. "O local", comenta Demarest, "foi ritualmente morto."

Cancuén foi um dos últimos centros importantes a cair, no vale do rio Pasión, localizado no antigo território maia, nos limites da atual Guatemala. A civilização que dominara a região por cinco séculos começava seu prolongado e inelutável declínio.

Enquanto ataques militares ocasionaram a destruição de algumas cidades-Estado, outras apenas foram minguando. Os kuhul ajaw, senhores sagrados, que haviam celebrado suas façanhas em murais, esculturas e edifícios, deixaram de encomendar obras. As exibições públicas da escrita hieroglífica tornaram-se escassas, e quase sumiram dos monumentos as datas referentes ao calendário chamado de Contagem Longa. A população sofreu drástica redução. Os nobres deixaram os palácios, ocupados por gente comum. Depois, mesmo esses ocupantes foram embora, e a selva retomou o que restou.

Em outros pontos das terras baixas do Petén, na Guatemala e no sul do México, o colapso prolongou-se por mais tempo. Mesmo por ocasião da queda de Cancuén, os soberanos da grande cidade-Estado de Tikal, na região norte de Petén, erguiam edifícios cerimoniais. No entanto, 30 anos depois, também a população de Tikal começou a minguar rapidamente. O derradeiro monumento ali erguido data de 869. E no ano 1000 chegou ao fim o período clássico dos maias.

Há uma questão que fascina os estudiosos e o público desde que os exploradores do século 19 descobriram as primeiras "cidades perdidas", na região de Petén: como é possível que uma das grandes civilizações do mundo antigo acabou simplesmente desaparecendo?

As primeiras especulações revolviam em torno de alguma catástrofe repentina, como explosão vulcânica, terremoto ou furacão. Ou talvez uma doença misteriosa, de impossível identificação hoje - algo como a peste negra na Europa medieval ou a varíola que dizimou as populações indígenas logo após a chegada dos europeus ao Novo Mundo. Os estudiosos, contudo, descartam essas hipóteses baseadas em um único acontecimento, pois, afinal, o colapso estendeu-se por pelo menos dois séculos. Em vez disso, passaram a considerar conjuntos de problemas que afligiam diversas regiões do mundo maia, entre os quais superpopulação, danos ambientais, fome e seca.

Eles também concentraram-se no único fator que parece ter estado presente durante todo o longo declínio: à medida que os recursos se tornavam escassos, os kuhul ajaw, perderam seu prestígio divino e, com isso, a confiança dos súditos, tanto das camadas nobres como das populares. A instabilidade e o desespero, por sua vez, levaram a conflitos cada vez mais destrutivos.

Por mais de um milênio, os maias haviam confiado seu bem-estar temporal e religioso aos soberanos divinizados. Estes exibiam seu poder e sua majestade em cerimônias e rituais ostentatórios, em arte e arquitetura opulentas, e em registros escritos de seus triunfos, inscritos em pedra, murais ou objetos de cerâmica.

O sistema prosperou - e, na verdade, seus excessos propiciaram as realizações artísticas e os conhecimentos que fizeram dos maias uma das grandes culturas do mundo antigo - enquanto a terra conseguia atender às necessidades básicas da população. No início isso era fácil, pois as cidades eram pequenas e os recursos relativamente abundantes, mas, com o passar do tempo, o crescimento demográfico, a ampliação da nobreza e a rivalidade entre as cidades-Estado passaram a exercer uma pressão cada vez maior sobre o meio ambiente.

Hoje, a região de Petén, a maior província da Guatemala em termos geográficos, possui 367 mil habitantes, que vivem em vilarejos isolados e dispersos pela densa mata. No século 8, segundo algumas estimativas, nada menos que 10 milhões de pessoas habitavam as terras baixas maias. Então, a paisagem era uma seqüência quase ininterrupta de áreas intensamente cultivadas, jardins e vilarejos, unidos por uma rede de trilhas e caminhos pavimentados que interligavam as monumentais cidades-Estado.

Os agricultores maias conheciam bem as refinadas técnicas para aproveitar ao máximo a capacidade dos frágeis solos tropicais. Mas, a partir do século 9, como se comprova pela análise dos sedimentos em leitos de lagos, uma série de prolongadas secas abateu-se sobre o mundo maia, prejudicando sobretudo cidades como Tikal, que dependiam da chuva tanto para suas reservas de água potável, como para revigorar os terrenos pantanosos nos quais eram cultivados alimentos. Possivelmente a escassez de água não afetou tanto os portos fluviais como Cancuén, mas em grande parte da região maia os sedimentos lacustres também revelam antigas camadas de solo erodido, uma conseqüência do desmatamento e do uso excessivo da terra.

Quando se desencadeou a crise, os kuhul ajaw pouco puderam fazer em benefício da população. A monocultura - o cultivo intensivo de um tipo básico de alimento, que pudesse ser acumulado e guardado para as épocas de escassez ou para trocas - não era viável na floresta tropical. Em vez disso, cada cidade-Estado produzia em pouca quantidade grande variedade de alimentos, como milho, feijão, abóbora e cacau. Havia o suficiente, pelo menos no início, para alimentar a população, mas não sobrava nada.

Ao mesmo tempo, a sociedade maia testemunhava o perigoso crescimento de sua camada dirigente. Com o tempo, a poligamia da elite e o casamento entre as famílias reais incharam as fileiras do grupo dominante. Com isso cresceu a demanda por jade, conchas, plumas da exótica ave quetzal, requintados objetos de cerâmica e outros dispendiosos adereços cerimoniais essenciais para que os senhores afirmassem sua posição no cosmo maia.

A tradicional rivalidade entre as cidades-Estado só piorou essa situação. Os kuhul ajaw esforçavam-se para superar seus vizinhos, erguendo templos cada vez mais altos, palácios cada vez mais luxuosos e encenando cerimônias públicas cada vez mais complexas. Tudo isso requeria mais mão-de-obra, que por sua vez dependia do crescimento demográfico e, talvez, de guerras por meio das quais cobrar, dos inimigos vencidos, tributos sob a forma de trabalhadores cativos. Sob tantas pressões, o sistema político maia começou a ratear.

A maior rivalidade de todas ajudou a levar ao seu auge os maias do período clássico - mas em seguida dilacerou o mundo que haviam criado. A partir do século 5, a cidade-Estado de Tikal, provavelmente estimulada por uma aliança com a poderosa cidade de Teotihuacan, no planalto mexicano, ampliou sua influência, arregimentando aliados e Estados vassalos em um território que, mais ao sul, ia do vale do rio Pasión até Copán, na atual Honduras. Um século depois surgiu outra potência: a cidade-Estado setentrional de Calakmul, situada nas planícies da atual região mexicana de Campeche, articulou uma aliança de cidades ao longo de toda a região de Petén, ao norte da península de Yucatán, e a leste, até a atual Belize. Os dois grandes blocos defrontaram-se em um conflito que durou mais de 130 anos.

Esse período assinalou a época dourada do período clássico da civilização maia. Os kuhul ajaw estavam em pleno florescimento nesses dois grandes blocos, competindo em termos de objetos artísticos e monumentos, assim como em guerras freqüentes mas limitadas. Em uma importante batalha em 562, Calakmul derrotou Tikal, mas não destruiu a cidade vencida nem massacrou sua população. Com o tempo Tikal recuperou-se e venceu Calakmul, construindo em seguida muitos de seus monumentos mais espetaculares.

Simon Martin - com Nikolai Grube, da Universidade de Bonn - compara a rivalidade entre Tikal e Calakmul à disputa entre Estados Unidos e União Soviética no século 20, quando tentavam superar-se em áreas que iam dos armamentos à corrida espacial. Uma vez que nenhum dos lados jamais seria capaz de alcançar uma posição de superioridade, pode-se argumentar que a Guerra Fria resultou em uma espécie de estabilidade - e o mesmo ocorreu no mundo maia. "Havia destruição em razão dessa rivalidade", diz o arqueólogo guatemalteco Héctor Escobedo. "Mas também havia certo equilíbrio."

Mas isso não durou muito. Para Martin, é possível que o equilíbrio fosse intrinsecamente instável. Ou talvez um ambiente muito tenso tornou-se afinal insustentável pelas orgulhosas potências maias, desencadeando uma irremediável explosão de hostilidade. Seja como for, o colapso começou na pequena cidade-Estado de Dos Pilas, nas proximidades do rio Pasión, ao sul de Cancuén.

Em 630, na tentativa de reforçar sua presença ao longo das rotas mercantis do rio Pasión, rotas cada vez mais dominadas por Calakmul,

Tikal reforçou um posto avançado que havia nas cercanias de duas nascentes de água - pilas, em espanhol. Além dessas fontes de água, pouco mais havia no local. Em Dos Pilas não se cultivava nem se vendia nada. Para os estudiosos trata-se de um "Estado predador", pois dependia dos tributos pagos pelas áreas circundantes. Ali a guerra não era apenas um ritual para glorificar os soberanos e aplacar os deuses. A guerra era o meio de sobrevivência dos moradores de Dos Pilas.

A história de violência e duplicidade do reino começou quando, em 635, Tikal instalou um de seus príncipes, Balaj Chan Kawiil, no governo de Dos Pilas. As tropas ergueram uma capital de aparência opulenta para o jovem príncipe, usando fachadas esculpidas para disfarçar estruturas frágeis. Em 658, no entanto, Calakmul invadiu Dos Pilas e Balaj Chan Kawill foi obrigado a exilar-se.

 

Sabemos o que houve em seguida graças a um raio que, durante uma tempestade, há seis anos, derrubou uma árvore em Dos Pilas, revelando a existência de uma escadaria esculpida sob suas raízes. As inscrições na escada revelam que Balaj Chan Kawiil retornou dois anos após ter sido exilado - dessa vez como representante de Calakmul. No decorrer das duas décadas seguintes, o soberano vira-casaca de Dos Pilas ajudaria Calakmul a consolidar seu controle do vale do rio Pasión. Em seguida, Calakmul enviou-lhe a conta de sua sobrevida política: Balaj Chan Kawiil recebeu ordens para investir contra seu próprio irmão, soberano em Tikal.

Em 679, ele atacou sua cidade natal. "Os crânios empilhados formaram montanhas e correram rios de sangue", relatam os hieroglifos da escada. Balaj Chan Kawiil saiu vencedor, e seu irmão morreu. A vitória marcou o apogeu do poderio de Calakmul e conferiu a Dos Pilas o domínio do Petexbatún, a parte meridional de Petén.

Tikal sobreviveu, recuperou-se e menos de 20 anos depois atacou e derrotou Calakmul. Esculturas de estuque na acrópole central de Tikal mostram um nobre de Calakmul prestes a ser sacrificado. Essa foi uma derrota da qual Calakmul jamais se recuperou, mas Tikal também nunca mais recobrou seu vigor quando cessaram as guerras.

O que ocorreu em seguida não é muito claro. Embora Calakmul tenha sido vencida, os aliados da cidade, entre os quais Dos Pilas, continuaram a fustigar Tikal. E Dos Pilas consolidou sua hegemonia na área de Petexbatún por meio de alianças e guerras. Seus governantes encomendaram monumentos e construíram uma segunda capital.

Todavia, em 761 acabou a onda de sorte para Dos Pilas. Antigos aliados e vassalos conquistaram a cidade e expulsaram seu governante. Dos Pilas jamais voltaria a se recompor e, com seu fim, o mundo maia cruzou uma linha crucial. Dali em diante, em vez de restabelecer a ordem, as guerras só iriam gerar mais desordem; em vez de um único governante emergir em triunfo de uma batalha decisiva, cada conflito criava mais pretendentes ao poder.

 

As derrotas levavam os moradores desesperados a demolir os edifícios cerimoniais, a fim de aproveitar as pedras no erguimento de barreiras para conter futuros invasores. Já não mais se reconstruíam e recuperavam as cidades: elas simplesmente deixavam de existir.

Os Estados menores tentavam em vão se distinguir em meio ao caos generalizado. Em vez disso, tudo o que essas cidades em conflito conseguiam era obter vantagens temporárias em uma região cada vez mais desprovida de recursos. A população comum provavelmente escondia-se, fugia ou perecia.

Por algum tempo, os nobres em fuga ainda encontraram refúgio em Cancuén, um tranqüilo porto junto à nascente do rio Pasión. Mesmo quando outras cidades rio abaixo mergulhavam no caos durante o século 8, Cancuén prosperava com o comércio de objetos de luxo e alojamentos suntuosos para visitantes especiais. O arquiteto dessa era dourada foi o rei Taj Chan Ahk, que ascendeu ao trono em 757, com 15 anos. Cancuén tinha longa história como posto mercantil estratégico, mas Taj Chan Ahk transformou-a em espantoso centro cerimonial. Havia, no centro da cidade, um palácio real de 25 mil metros quadrados - com três andares, tetos abobadados e 11 pátios internos -, construído com pedra calcária em um promontório à beira do rio. Era cenário digno de um rei divino, e Taj Chan Ahk desempenhou com perfeição tal papel, mesmo que este estivesse desaparecendo em outras partes do mundo maia.

Não há nenhum indício de que Taj Chan Ahk tenha alguma vez travado uma guerra ou mesmo vencido uma batalha. Em vez disso, conseguiu dominar a região superior do vale do rio Pasión durante quase quatro décadas por meio de apoios e alianças.

Taj Chan Ahk morreu em 795 e foi sucedido por seu filho, Kan Maax, que tentou superar o pai por meio da ampliação do palácio. Mas a pompa e o ritual - os antigos adereços da realeza - não mais eram capazes de manter a coesão do universo maia. Bastaram cinco anos para que o caos afinal alcançasse os portões da cidade. E então, em um único e terrível dia, sua glória extinguiu-se, e mais uma luz apagou-se no mundo clássico dos maias.

Quando se desencadeou a crise, os kuhul ajaw pouco puderam fazer em benefício da população. A monocultura - o cultivo intensivo de um tipo básico de alimento, que pudesse ser acumulado e guardado para as épocas de escassez ou para trocas - não era viável na floresta tropical. Em vez disso, cada cidade-Estado produzia em pouca quantidade grande variedade de alimentos, como milho, feijão, abóbora e cacau. Havia o suficiente, pelo menos no início, para alimentar a população, mas não sobrava nada.

Ao mesmo tempo, a sociedade maia testemunhava o perigoso crescimento de sua camada dirigente. Com o tempo, a poligamia da elite e o casamento entre as famílias reais incharam as fileiras do grupo dominante. Com isso cresceu a demanda por jade, conchas, plumas da exótica ave quetzal, requintados objetos de cerâmica e outros dispendiosos adereços cerimoniais essenciais para que os senhores afirmassem sua posição no cosmo maia.

A tradicional rivalidade entre as cidades-Estado só piorou essa situação. Os kuhul ajaw esforçavam-se para superar seus vizinhos, erguendo templos cada vez mais altos, palácios cada vez mais luxuosos e encenando cerimônias públicas cada vez mais complexas. Tudo isso requeria mais mão-de-obra, que por sua vez dependia do crescimento demográfico e, talvez, de guerras por meio das quais cobrar, dos inimigos vencidos, tributos sob a forma de trabalhadores cativos. Sob tantas pressões, o sistema político maia começou a ratear.

A maior rivalidade de todas ajudou a levar ao seu auge os maias do período clássico - mas em seguida dilacerou o mundo que haviam criado. A partir do século 5, a cidade-Estado de Tikal, provavelmente estimulada por uma aliança com a poderosa cidade de Teotihuacan, no planalto mexicano, ampliou sua influência, arregimentando aliados e Estados vassalos em um território que, mais ao sul, ia do vale do rio Pasión até Copán, na atual Honduras. Um século depois surgiu outra potência: a cidade-Estado setentrional de Calakmul, situada nas planícies da atual região mexicana de Campeche, articulou uma aliança de cidades ao longo de toda a região de Petén, ao norte da península de Yucatán, e a leste, até a atual Belize. Os dois grandes blocos defrontaram-se em um conflito que durou mais de 130 anos.

Esse período assinalou a época dourada do período clássico da civilização maia. Os kuhul ajaw estavam em pleno florescimento nesses dois grandes blocos, competindo em termos de objetos artísticos e monumentos, assim como em guerras freqüentes mas limitadas. Em uma importante batalha em 562, Calakmul derrotou Tikal, mas não destruiu a cidade vencida nem massacrou sua população. Com o tempo Tikal recuperou-se e venceu Calakmul, construindo em seguida muitos de seus monumentos mais espetaculares.

Simon Martin - com Nikolai Grube, da Universidade de Bonn - compara a rivalidade entre Tikal e Calakmul à disputa entre Estados Unidos e União Soviética no século 20, quando tentavam superar-se em áreas que iam dos armamentos à corrida espacial. Uma vez que nenhum dos lados jamais seria capaz de alcançar uma posição de superioridade, pode-se argumentar que a Guerra Fria resultou em uma espécie de estabilidade - e o mesmo ocorreu no mundo maia. "Havia destruição em razão dessa rivalidade", diz o arqueólogo guatemalteco Héctor Escobedo. "Mas também havia certo equilíbrio."

Mas isso não durou muito. Para Martin, é possível que o equilíbrio fosse intrinsecamente instável. Ou talvez um ambiente muito tenso tornou-se afinal insustentável pelas orgulhosas potências maias, desencadeando uma irremediável explosão de hostilidade. Seja como for, o colapso começou na pequena cidade-Estado de Dos Pilas, nas proximidades do rio Pasión, ao sul de Cancuén.

Em 630, na tentativa de reforçar sua presença ao longo das rotas mercantis do rio Pasión, rotas cada vez mais dominadas por Calakmul,

Tikal reforçou um posto avançado que havia nas cercanias de duas nascentes de água - pilas, em espanhol. Além dessas fontes de água, pouco mais havia no local. Em Dos Pilas não se cultivava nem se vendia nada. Para os estudiosos trata-se de um "Estado predador", pois dependia dos tributos pagos pelas áreas circundantes. Ali a guerra não era apenas um ritual para glorificar os soberanos e aplacar os deuses. A guerra era o meio de sobrevivência dos moradores de Dos Pilas.

A história de violência e duplicidade do reino começou quando, em 635, Tikal instalou um de seus príncipes, Balaj Chan Kawiil, no governo de Dos Pilas. As tropas ergueram uma capital de aparência opulenta para o jovem príncipe, usando fachadas esculpidas para disfarçar estruturas frágeis. Em 658, no entanto, Calakmul invadiu Dos Pilas e Balaj Chan Kawill foi obrigado a exilar-se.

Sabemos o que houve em seguida graças a um raio que, durante uma tempestade, há seis anos, derrubou uma árvore em Dos Pilas, revelando a existência de uma escadaria esculpida sob suas raízes. As inscrições na escada revelam que Balaj Chan Kawiil retornou dois anos após ter sido exilado - dessa vez como representante de Calakmul. No decorrer das duas décadas seguintes, o soberano vira-casaca de Dos Pilas ajudaria Calakmul a consolidar seu controle do vale do rio Pasión. Em seguida, Calakmul enviou-lhe a conta de sua sobrevida política: Balaj Chan Kawiil recebeu ordens para investir contra seu próprio irmão, soberano em Tikal.

Em 679, ele atacou sua cidade natal. "Os crânios empilhados formaram montanhas e correram rios de sangue", relatam os hieroglifos da escada. Balaj Chan Kawiil saiu vencedor, e seu irmão morreu. A vitória marcou o apogeu do poderio de Calakmul e conferiu a Dos Pilas o domínio do Petexbatún, a parte meridional de Petén.

Tikal sobreviveu, recuperou-se e menos de 20 anos depois atacou e derrotou Calakmul. Esculturas de estuque na acrópole central de Tikal mostram um nobre de Calakmul prestes a ser sacrificado. Essa foi uma derrota da qual Calakmul jamais se recuperou, mas Tikal também nunca mais recobrou seu vigor quando cessaram as guerras.

O que ocorreu em seguida não é muito claro. Embora Calakmul tenha sido vencida, os aliados da cidade, entre os quais Dos Pilas, continuaram a fustigar Tikal. E Dos Pilas consolidou sua hegemonia na área de Petexbatún por meio de alianças e guerras. Seus governantes encomendaram monumentos e construíram uma segunda capital.

Todavia, em 761 acabou a onda de sorte para Dos Pilas. Antigos aliados e vassalos conquistaram a cidade e expulsaram seu governante. Dos Pilas jamais voltaria a se recompor e, com seu fim, o mundo maia cruzou uma linha crucial. Dali em diante, em vez de restabelecer a ordem, as guerras só iriam gerar mais desordem; em vez de um único governante emergir em triunfo de uma batalha decisiva, cada conflito criava mais pretendentes ao poder.
As derrotas levavam os moradores desesperados a demolir os edifícios cerimoniais, a fim de aproveitar as pedras no erguimento de barreiras para conter futuros invasores. Já não mais se reconstruíam e recuperavam as cidades: elas simplesmente deixavam de existir.

Os Estados menores tentavam em vão se distinguir em meio ao caos generalizado. Em vez disso, tudo o que essas cidades em conflito conseguiam era obter vantagens temporárias em uma região cada vez mais desprovida de recursos. A população comum provavelmente escondia-se, fugia ou perecia.

Por algum tempo, os nobres em fuga ainda encontraram refúgio em Cancuén, um tranqüilo porto junto à nascente do rio Pasión. Mesmo quando outras cidades rio abaixo mergulhavam no caos durante o século 8, Cancuén prosperava com o comércio de objetos de luxo e alojamentos suntuosos para visitantes especiais. O arquiteto dessa era dourada foi o rei Taj Chan Ahk, que ascendeu ao trono em 757, com 15 anos. Cancuén tinha longa história como posto mercantil estratégico, mas Taj Chan Ahk transformou-a em espantoso centro cerimonial. Havia, no centro da cidade, um palácio real de 25 mil metros quadrados - com três andares, tetos abobadados e 11 pátios internos -, construído com pedra calcária em um promontório à beira do rio. Era cenário digno de um rei divino, e Taj Chan Ahk desempenhou com perfeição tal papel, mesmo que este estivesse desaparecendo em outras partes do mundo maia.

Não há nenhum indício de que Taj Chan Ahk tenha alguma vez travado uma guerra ou mesmo vencido uma batalha. Em vez disso, conseguiu dominar a região superior do vale do rio Pasión durante quase quatro décadas por meio de apoios e alianças.

Taj Chan Ahk morreu em 795 e foi sucedido por seu filho, Kan Maax, que tentou superar o pai por meio da ampliação do palácio. Mas a pompa e o ritual - os antigos adereços da realeza - não mais eram capazes de manter a coesão do universo maia. Bastaram cinco anos para que o caos afinal alcançasse os portões da cidade. E então, em um único e terrível dia, sua glória extinguiu-se, e mais uma luz apagou-se no mundo clássico dos maias.

Civilização Maia
Civilização Maia: Ascenção

O forasteiro chegou assim que o término da estação das chuvas começou a firmar os caminhos através da floresta, permitindo a passagem das tropas. À frente de um grupo de guerreiros, ele entrou na cidade maia de Waka, passando diante dos templos e mercados e cruzando as praças amplas. Os moradores locais devem ter ficado atônitos, impressionados não só pela demonstração de força, mas também pelos cocares de penas, lanças e escudos recobertos de espelhos - os sinais de que aqueles homens eram originários de uma remota cidade imperial.

As inscrições antigas datam esse evento de 8 de janeiro de 378 e atribuem ao forasteiro o nome de Fogo Novo. Ele chegou em Waka, situada na atual Guatemala, como enviado de um potentado dos altiplanos no centro do México. Nas décadas seguintes, esse mesmo nome reapareceria em monumentos dispersos por todo o território dos maias, cuja civilização se estendia pelas florestas da Mesoamérica. Sob o impulso desse forasteiro, os maias alcançaram um apogeu que se prolongaria por cinco séculos.

Os maias sempre foram um enigma. Décadas atrás, as glórias de suas cidades em ruínas, e de sua bela mas incompreensível escritura, haviam levado muitos pesquisadores a imaginar uma pacífica sociedade de sacerdotes e escribas. Mas quando os especialistas em epigrafia decifraram os hieroglifos maias, descortinou-se um quadro de dinastias em guerra, rivalidades violentas e palácios incendiados.

Ainda hoje, contudo, continuam obscuras questões fundamentais, entre as quais o motivo do salto que levou a civilização maia ao seu apogeu. Na mesma época em que se difundia a fama de Fogo Novo, uma onda de mudanças varria o mundo maia. O que antes não passara de um grupo de cidades-Estado voltadas para seus próprios interesses, tornou-se uma coleção de centros urbanos empenhados em ampliar vínculos com os povoados vizinhos e com outras culturas, e uma das conseqüências dessa explosão de atividade foram as realizações artísticas que marcaram o chamado período clássico dos maias.

Agora, novas pistas, exumadas em ruínas tomadas pela vegetação e vislumbradas em textos recém-decifrados, sugerem que Fogo Novo foi um personagem crucial em toda essa transformação. Ainda que fragmentários, os indícios acumulados no decorrer da última década revelam que esse misterioso forasteiro reorganizou a liderança política do mundo maia. Recorrendo tanto à diplomacia como à força, ele forjou alianças, instalou novas dinastias e estendeu a influência da distante cidade-Estado da qual era representante, a grande metrópole de Teotihuacan, situada nas cercanias da atual Cidade do México.

Não há consenso entre os estudiosos a respeito da natureza de seu legado - ou seja, se foi o iniciador de uma prolongada era de dominação externa ou se serviu de catalisador para mudanças que vinham sendo preparadas pelos maias. Também é possível que estes já estivessem no caminho da grandeza. Mas não há dúvida de que a intervenção de Fogo Novo coincidiu com uma virada histórica.

Mesmo antes de Fogo Novo, os maias haviam alcançado resultados surpreendentes em uma terra tão agreste. Atualmente, as terras baixas do sul do México e da região guatemalteca de Petén proporcionam pouco mais do que a mera subsistência aos seus habitantes. "Uma civilização avançada", diz o especialista Arthur Demarest, "era a última coisa que se esperaria ver naquela região."

O local da antiga Waka, hoje conhecido como El Perú, provavelmente não é hoje muito diferente do que na época em que ali chegou o primeiro maia, por volta de 1000 a.C. - uma densa floresta onde araras-vermelhas, tucanos e urubus aninham-se em árvores imensas. É uma terra de facões e lama, de serpentes e suor, de grandes felinos - dos quais o mais notável é o balam, o jaguar, senhor da selva.

Os primeiros a mudar-se para lá provavelmente não tinham outra opção - é bem possível que a superpopulação em outras regiões os tenha empurrado para esse ambiente inóspito. Mas, uma vez instalados, enfrentaram os desafios. Estabelecendo-se às margens de rios, lagos e manguezais, aprenderam a aproveitar ao máximo a escassa fecundidade do solo. Por meio de queimadas, desmataram a floresta para cultivar milho, abóbora e outras plantas, e depois alternavam as plantações e faziam a rotação dos campos.

À medida que crescia a população, acabaram por adotar métodos de cultivo mais intensivos - recorrendo à adubação, ao uso de terraços e à irrigação. Também drenaram os mangues para abrir novas áreas de cultivo e usaram os sedimentos e a lama das terras baixas como fertilizantes em campos murados. Lagos artificiais permitiam a criação de peixes, e currais abrigavam veados e outros animais capturados na floresta. No fim, os antigos maias conseguiram extrair da terra pobre o suficiente para manter milhões de pessoas, uma população várias vezes maior que aquela que hoje vive na mesma região.

Ao longo dos séculos, à medida que aprendiam a prosperar na floresta tropical, seus povoados transformaram-se em cidades-Estado, e sua cultura tornou-se requintada. Os maias construíram palácios e templos que se elevavam por quase 100 metros na direção do céu. Cerâmicas, murais e esculturas exibiam um estilo artístico intrincado e colorido. Embora não conhecessem a roda nem as ferramentas de metal, foram capazes de elaborar um completo sistema de escrita hieroglífica e entendiam o conceito de zero, empregando-o em cálculos corriqueiros. Tinham um ano com 365 dias e eram sofisticados o bastante para fazer ajustes semelhantes ao nosso ano bissexto. Faziam observações regulares das estrelas, podiam prever eclipses solares e construíam seus edifícios cerimoniais de modo que ficassem voltados para o nascer ou o pôr-do-sol em determinadas épocas do ano.

Servindo como mediadores entre o céu e a terra, estavam os soberanos maias - os kuhul ajaw, senhores sagrados, cujo poder era garantido pelas divindades. Eles atuavam quer como xamãs, decidindo sobre questões religiosas e ideológicas, quer como governantes, liderando seus súditos na guerra e na paz.

Sob o manto do ritual, as cidades maias atuavam como Estados por toda a parte, forjando alianças, travando guerras e mantendo relações comerciais ao longo de um território que chegou a abranger desde o atual sul do México até o litoral caribenho de Honduras. Caminhos pavimentados com estuque cruzavam a floresta em todas as direções, enquanto as canoas percorriam os rios. No entanto, até o aparecimento de Fogo Novo, os maias seguiam politicamente fragmentados, com cada cidade-Estado preocupada apenas com sua própria existência.

Por volta de 378, Waka era um centro de prestígio, orgulhoso de suas quatro praças principais, centenas de edifícios, templos com até 90 metros de altura, palácios cerimoniais, pátios ornamentados com altares e monumentos de calcário. Potência mercantil, a cidade ocupava posição estratégica no rio San Pedro, que seguia para oeste desde o âmago da região de Petén. Seu mercado era repleto de produtos alimentícios, como milho, feijão, pimenta e abacate, além do chicle extraído dos sapotizeiros e que serviam de cola, e do látex das seringueiras para fazer as bolas usadas em jogos cerimoniais. Itens mais exóticos também acabavam em Waka. Das montanhas ao sul vinha o jade para as esculturas e jóias; a obsidiana para as lâminas das armas e a pirita dos espelhos eram originárias do altiplano mexicano a oeste, os domínios de Teotihuacan.

Uma espraiada metrópole com mais de 100 mil habitantes - talvez a maior cidade do mundo naquela época -, a cultura de Teotihuacan não deixou nenhum registro que os especialistas em epigrafia pudessem decifrar. Mas parecem claros os motivos que levaram seus governantes a enviar Fogo Novo àquela remota região maia. A cidade de Waka situava-se no promontório que dava para um afluente do rio San Pedro e dispunha de porto seguro, excelente para abrigar canoas maiores. "Era uma área perfeita de onde lançar um ataque militar", comenta o arqueólogo David Freidel, co-diretor das escavações em Waka. E talvez fosse isso que Fogo Novo tinha em mente.

Aparentemente Waka era crucial para que o enviado pudesse cumprir sua missão: atrair toda a região central de Petén para a órbita de Teotihuacan, por meios pacíficos, se possível, ou pela força, se necessário. Seu alvo principal era Tikal, reino a 80 quilômetros a leste de Waka. Tikal era a mais importante cidade-Estado na região central de Petén. Se atraisse Tikal, as outras cidades viriam atrás.

Fogo Novo estava acompanhado de uma tropa de elite, mas a função desta era sobretudo demonstrar a sinceridade de suas intenções e comprovar sua boa-fé. Era evidente que precisava de reforços e este fora o motivo de sua passagem por Waka. O governante local, Jaguar de Rosto Solar, aparentemente recebeu bem o forasteiro. Com base nas indicações em textos encontrados em Waka e em outros locais, David Freidel - com o co-diretor do projeto, Héctor Escobedo, e o especialista em epigrafia Stanley Guenter - sugeriu que os dois governantes cimentaram a aliança por meio da construção de um altar para abrigar a chama sagrada de Teotihuacan.

Além do apoio moral, Fogo Novo provavelmente contribuiu com sua pequena força expedicionária. Esses homens deviam carregar os arremessadores de lanças e dardos típicos de Teotihuacan, e também os escudos com a parte traseira recoberta de pirita reluzente, talvez destinados a ofuscar o inimigo quando os soldados giravam o corpo para lançar seus projéteis. Os guerreiros de Petén, munidos de machados de pedra e lanças, engrossaram as fileiras da tropa de assalto. Como proteção, muitos usavam coletes de algodão recheados de sal grosso. Onze séculos depois, quando se viram na abafada e úmida floresta tropical, os conquistadores espanhóis logo substituíram suas armaduras de metal por esses coletes protetores maias.

É quase certo que a expedição militar partiu rumo a Tikal em canoas de guerra, seguindo no rumo leste, rio San Pedro acima. Quando se aproximaram da nascente, os soldados desembarcaram e marcharam seja pela margem, seja pela borda do cânion onde corria o rio.

Essa rota estava pontilhada de guarnições defensivas. Notícias da coluna que se aproximava devem ter alcançado Tikal. Em algum ponto no trecho de margem de rio e caminho pela selva, o exército de Tikal tentou interromper o avanço de Fogo Novo. Blocos de pedra com inscrições, chamados estelas, mais tarde erguidos em Tikal, mencionam que os defensores foram desbaratados. As forças de Fogo Novo continuaram em direção à cidade. Em 16 de janeiro de 378 - mais de uma semana após sua chegada a Waka - o conquistador tomou Tikal.

A data está registrada na famosa Estela 31 de Tikal, que nos proporcionou os primeiros indícios da importância de Fogo Novo, ao ser decifrada, em 2000, por David Stuart. O segundo trecho da estela conta o que aconteceu após a queda da cidade: o soberano de Tikal, Grande Pata de Jaguar, morreu no mesmo dia, provavelmente pelas mãos dos vencedores. Em seguida, Fogo Novo abandonou qualquer pretensão de fazer-se passar por um pacífico emissário. As tropas sob seu comando destruíram os monumentos de Tikal - as estelas erguidas pelos 14 governantes anteriores da cidade. Uma nova era havia começado, e mais tarde outros monumentos iriam celebrar os responsáveis pela mudança. A Estela 31 descreve Fogo Novo como Ochkin Kaloomte, Senhor do Ocidente, provavelmente em referência a suas origens em Teotihuacan. Especialistas sugeriram outro significado: o de que Fogo Novo representava uma facção que fugira para o oeste - para Teotihuacan - após golpe de Estado promovido antes pelo pai de Grande Pata de Jaguar, e agora retomava o poder.

Fogo Novo levou algum tempo para pacificar Tikal e a região circundante. Um ano após sua chegada, contudo, os monumentos em Tikal registram que ele garantiu a ascensão de novo soberano estrangeiro. As inscrições identificam este como o filho da Coruja Arremessadora de Lanças, o patrono de Fogo Novo em Teotihuacan. De acordo com a Estela 31, o novo rei tinha menos de 20 anos, e por isso é provável que Fogo Novo se tenha tornado regente de Tikal. Não há a menor dúvida, porém, de que ele era o governante de fato da cidade.

Nos anos seguintes à conquista, a própria Tikal passou à ofensiva, ampliando seus domínios por toda a região maia. Fogo Novo parece ter sido o responsável por essa campanha expansionista. Referências a ele foram encontradas em cidades tão distantes quanto Palenque, situada a mais de 250 quilômetros a noroeste. Mas o testemunho mais claro desse ímpeto imperialista vem da cidade de Uaxactún, apenas 20 quilômetros distante de Tikal. Ali um mural mostra um nobre maia prestando homenagem a um guerreiro envergando os trajes típicos de Teotihuacan - talvez um dos soldados de Fogo Novo. Uma estela, representando um guerreiro, encontra-se ao lado de uma sepultura onde arqueólogos acharam os restos mortais de duas mulheres, uma criança e um bebê. David Friedel e outros estudiosos concluíram que eram os restos da família real de Uaxactún, assassinada pelas forças de Tikal. O rei fora levado a Tikal e ali sacrificado.

Em 426, Tikal conquistou Copán, 270 quilômetros mais ao sul, no território da atual Honduras, e colocou no trono local seu escolhido, Kinich Yax Kuk Mo, que se tornou o fundador de nova dinastia. Um retrato póstumo mostra-o vestido com traje típico da região central do México - uma referência a Teotihuacan - e, tal como Fogo Novo, portador do título de Senhor do Ocidente.

Para alguns especialistas, Tikal atuava como um Estado vassalo de Teotihuacan, estendendo os domínios dessa cidade por todas as terras baixas maias, com Fogo Novo desempenhando o papel de uma espécie de governador militar. Outros o vêem como um catalisador que levou Tikal a ampliar seu poder e sua área de influência.

Nada sabemos de seu destino. Não há registro de sua morte, ou indícios de que tenha governado um reino maia. Mas seu prestígio perdurou - os maias nunca mais foram os mesmos depois dele. Tanto no campo da religião como no da arte, os maias do período clássico começaram a adotar motivos e temas estrangeiros, conferindo requinte e exuberância cosmopolita a uma cultura já bastante vigorosa.

Logo outro desenvolvimento político passou a fomentar esse florescimento cultural. No século 6, os senhores de Calakmul, ao norte de Petén, deram início à sua própria expansão. Com o tempo, Calakmul passou a desafiar Tikal, e a rivalidade entre os dois impérios dividiu o mundo maia. Tal como a Guerra Fria entre o Ocidente e o Leste Europeu, no século 20, esse conflito levou a realizações cada vez maiores, ao mesmo tempo que disseminava tensões e atritos. Ao contrário da nossa, a Guerra Fria dos maias acabou em catástrofe.

 

Outros títulos
O Livro de Ouro da Mitologia
O Livro de Ouro da Mitologia -  | 2011 |
Thomaa Bullfinch
Deuses e Heróis da Mitologia Grega e Latina
Deuses e Heróis da Mitologia Grega e Latina -  | 2008 |
Odile Gandon
As 100 Melhores estórias da mitologia
As 100 Melhores estórias da mitologia -  | 2003 |
Carmen Seganfredo
As Religiões Que o Mundo Esqueceu
As Religiões Que o Mundo Esqueceu -  | 2008 |
Pedro Paulo Funari
Geologia
27/07/2014 | 01:34h
A vida Pré-Cambriana
O Vêndico, que terminou há quinhentos e Quarenta e cinco milhões de anos, marcou a ultima etapa do sistema Pré-Câmbriano. Este longo intervalo da história da Terra foi uma época de continentes à deriva e de alterações atmosféricas e da química dos oceanos. Os geólogos possuem bom número de provas que demonstram que nos tempos vêndicos a maioria dos continentes se aglomerava no hemisfério sul, com o Noroeste de África situado sobre o Pólo Sul. Por volta do final deste período, as placas continentais reuniram-se, formando um supercontinente de curta duração, a que se deu o nome de Panótia.
Psicologia
23/07/2014 | 20:59h
O que é a emoção?
Uma palavra sobre o que quero dizer sob a rubrica emoção, termo cujo significado preciso psicólogos e filósofos discutem há mais de um século. Em seu sentido mais literal, o Oxford English Dictionary define emoção como “qualquer agitação ou perturbação da mente, sentimento, paixão; qualquer estado mental veemente ou excitado”. Eu entendo que emoção se refere a um sentimento e seus pensamentos distintos, estados psicológicos e biológicos, e a uma gama de tendências para agir. Há centenas de emoções, juntamente com suas combina­ções, variações, mutações e matizes. Na verdade, existem mais sutilezas de emoções do que as palavras que temos para defini-las.
História
23/07/2014 | 20:58h
Testemunhas da Primeira Guerra Mundial
Esmee Sartorious trabalhou como enfermeira durante toda a guerra, primeiro na Bélgica, depois em hospitais na frente britânica e, por fim, na Itália. Antes de voltar para casa por meio da neutra Holanda, em agosto de 1914 ela viu de perto o início da ocupação alemã na Bélgica: Como tantas outras, quando a guerra foi declarada, eu me apresentei imediatamente à organização St. John’s Ambulance, a fim de saber se havia a possibilidade de que me designassem para exercer alguma função; minha única recomendação era um treinamento de três meses no Hospital de Londres [...]. Três dias depois, a Cruz Vermelha britânica recebeu uma solicitação de 40 enfermeiras que seriam enviadas à Bélgica […] e me perguntaram se eu queria ir. Naturalmente, aceitei com entusiasmo, e no dia 14 de agosto estava em Bruxelas.
História
22/07/2014 | 19:55h
Czar Nicolau II
Ficaria conhecido na história como o Czar Libertador, o homem responsável pela libertação dos servos e pela in­trodução de grandes reformas internas. Mas para os pe­quenos e determinados grupos revolucionários russos do final do século XIX, Alexandre II era o símbolo de repressão, cuja morte era necessária para a introdução de uma nova ordem.
Psicologia
20/07/2014 | 01:02h
Aprendizado emocional nas Escolas
O tema, por sua própria natureza, exige que professores e alunos se concentrem no tecido emocional da vida da criança — uma concentração decididamente ignorada em quase todas as outras salas de aula dos Estados Unidos. A estratégia aqui inclui o uso das tensões e traumas da vida das crianças como o tema do dia. Os professores falam de problemas reais — a mágoa por ser deixado de fora, inveja, desacordos que podem se transformar numa batalha no pátio de recreio. Como diz Karen Stone McCown, criadora do Currículo da Ciência do Eu e diretora da Nueva
Psicologia
19/07/2014 | 23:55h
Controle emocional aprendido desde o berço
O fato é muito chocante. Mas é também mais um indicador, à nossa disposição, para que tomemos consciência da necessidade, urgente, de ensinamentos que objetivem o controle das emoções, as resoluções de desentendimentos de forma pacífica e, enfim, a boa convivência entre as pessoas. Os educadores, há muito preocupados com as notas baixas dos alunos em matemática e leitura, começam a constatar que existe um outro tipo de deficiência e que é mais alarmante: o analfabetismo emocional. Apesar dos louváveis esforços que visam a melhorar o desempenho acadêmico, esse novo tipo de deficiência ainda não ganhou espaço no currículo escolar. Como disse um professor do Brooklyn, a atual ênfase do ensino parece sugerir que “nos preocupamos mais com a qualidade da leitura e escrita dos alunos do que em saber se eles vão estar vivos na semana que vem”.
Psicologia
17/07/2014 | 20:19h
Experiência traumática e o reaprendizado emocional
Esses momentos vívidos, aterrorizantes, dizem hoje os neurocientistas, tomam-se lembranças impressas nos circuitos emocionais. Os sintomas são na verdade sinais de uma amígdala cortical superestimulada impelindo as vívidas lembranças do momento traumático a continuar invadindo a consciência. Como tal as lembranças traumáticas tornam-se gatilhos sensíveis, prontos para soar o alarme ao menor sinal de que o momento temido está para acontecer mais uma vez. Esse fenômeno de gatilho sensível é uma marca característica de todos os tipos de trauma emocional, incluindo os repetidos maus-tratos físicos na infância. Qualquer fato traumatizante pode gravar essas lembranças disparadoras na amígdala cortical: um incêndio ou acidente de carro, uma catástrofe natural como um terremoto ou furacão, estupro ou assalto. Milhares de pessoas todo ano vivem esse tipo de tragédia e muitas ou a maioria fica com uma espécie de ferida emocional que fica marcada no cérebro.
História
17/07/2014 | 20:06h
A vida camponesa russa - Aristocratas e servos
ra o ano de 1803 quando, no final de uma tarde quente de agosto, a menina Mar­ta Wilmot chegou a Troitskoe. Enviada na esperança de que este interregno a ajuda­ria a suportar a dor provocada pela morte do seu irmão favorito, não podia estar mais ansiosa para sair da carruagem. Tinha feito uma parada em São Petersburgo, após uma longa viagem, e tinha ouvido alguns comentários desagradáveis acerca da prin­cesa Dashkova. “Foi apresentada a mim”, lembra Marta, muitos anos mais tarde, “ como a pessoa mais cruel e vingativa deste mundo” . A jovem estrangeira tinha sido avisada de que Troitskoe não passava de uma fortaleza erma, habitada por uma sinis­tra castelã capaz de chegar ao ponto de censurar a correspondência de Marta.