A value is required.
Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós...
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A criança e a guerra na Grécia Antiga
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(Nuno Simões Rodrigues)

As palavras transcritas correspondem a versos de uma tragédia grega: As Troianas, de Eurípides. Quem as diz e Andrômaca, uma das cativas, a mulher de Heitor, que estás prestes a perder o seu filho de tenra idade, Astíanax, príncipe de Troia, pela implacabilidade que os Aqueus estão prestes a manifestar, numa demonstração inequívoca de vitória. O nome do menino deixa-nos suspeitar das razões do seu. sacrifício: asty anax, "o senhor da cidade". A herança que o filho de Heitor e neto de Príamo carrega faz dele uma vítima propiciatória e necessária num contexto de guerra. Mortos os grandes de Troia, como eram o avo e o pai, urge eliminar o filho e neto, eventual foco de resistência, qual fungo latente, em que poderá germinar a vingança do sangue do passado, numa perspectiva de futuro. Astíanax tem por isso de morrer. E a sua morte é tão mais angustiante quanto a confrontamos com o passo homérico em que o menino surge como o terceiro elemento de uma "sagrada família". A mesma que se consterna momentos antes do combate final, antes de a guerra destruir para sempre e por completo a harmonia criada pelos deuses:

"Ela veio ao seu encontro, e com ela vinha a criada segurando ao colo o brando menino tão pequeno, filho amado de Heitor, semelhante a uma Linda estrela, a quem Heitor chamava Escamândrio, embora os outros lhe chamassem Astíanax; pois só Heitor era baluarte de Ilion. Sorriu Heitor, olhando em silencio para o seu filho.

Mas Andrômaca aproximou-se dele com lágrimas nos olhos e, acariciando-o com a mão, falou-lhe pelo nome...

Assim falando, o glorioso Heitor foi para abraçar o seu filho, mas o menino voltou para o regaço da ama de bela cintura gritando em voz alta, assarapantado pelo aspecto de seu pai amado e assustado por causa do bronze e da crista de crinas de cavalo, que se agitava de modo medonho da parte de cima do elmo. Então se riram o pai amado e a excelsa mãe:

e logo da cabeça tirou o elmo o glorioso Heitor, e depô-lo, todo ele coruscante, no chão da casa. De seguida beijou e abraçou o seu filho amado e a Zeus e aos outros deuses dirigiu esta oração:

"O Zeus e demais deuses, concedei-me que este meu filho venha a ser como eu, o melhor entre os Troianos; que seja tão ilustre pela força e que pela autoridade seja rei de Ilion. Que de futuro alguém diga este é muito melhor que o pai, ao regressar da guerra. Que traga os despojos sangrentos do inimigo que matou e que exulte o coração da sua mãe!" Assim dizendo, nos braços da esposa amada pôs o filho. Ela recebeu-o no colo perfumado, sorrindo por entre as lagrimas".

Não há muita informação disponível acerca do papel desempenhado pelas crianças da Grécia Antiga em ambiente bélico, pelo que todos os dados, provenientes da arqueologia, da epigrafia, da literatura, da iconografia ou da mitologia, são preciosos para uma leitura e interpretação do mesmo no seu contexto histórico. É em Homero, mais em concreto na Ilíada, que encontramos as primeiras referências ao universo infantil em contexto de guerra. Homero é, alias, rico em imagens de crianças, particularmente presentes em símiles.

No final da Ilíada, a lamentação de Andrômaca confirma de forma profética o destino reservado à prole dos vencidos:

"Marido, para a vida morreste tão jovem e deixas-me viúva no palácio. Teu filho não passa ainda de pequena criança, ele a quem tu e eu geramos, desafortunados! Mas não creio que ele chegue à adolescência, pois antes disso terá a cidade sido arrasada de alto a baixo. Eras o protetor e morreste: só tu a defendias e guardavas as nobres esposas e crianças pequenas, elas que rapidamente partirão nas côncavas naus, e entre elas irei eu. E tu, o filho, também me seguirás, para lá onde desempenharas tarefas aviltantes, laborando à frente de um amo severo; ou então um dos Aqueus pegara em ti pela mão e te lançara da muralha, morte desgraçada!, Encolerizado porque Heitor lhe matou o irmão ou o pai ou o filho, visto que muitos Aqueus com os dentes morderam a vasta terra às mãos de Heitor."

A princesa de Troia antevê as duas saídas possíveis para o seu filho, que seriam, aliás, as mesmas para todas as crianças de Troia ou de qualquer cidade derrotada entre os Gregos. Para Andrômaca, acabara por se confirmar a segunda hipótese, destino que tanto atraiu os artistas na Antiguidade grega. Para citar apenas um exemplo, de entre muitos, um pithos cíclico, encontrado em Miconos, mostra no bojo o cavalo de Troia, rodeado por uma serie de métopas, nas quais se veem cenas do massacre da cidade: mulheres que são levadas à força por soldados, e por eles mortas; crianças, essencialmente do sexo masculino, arrancadas aos braços das mães e assassinadas; e uma métopa em especial, em que um guerreiro tira uma  criança à força do colo de uma mulher. Esta suplica e o soldado não segura qualquer espada, deixando crer que vai lançar o pequeno das muralhas. Parece tratar-se de Astíanax, Andrômaca e Neoptólemo ou Ulisses, duas das figuras que tradicionalmente eram tidas como os executores do pequeno filho de Heitor.

No canto XVIII do mesmo poema, na écfrase que descreve a decoração do escudo de Aquiles, é onde se tem um vislumbre do mundo homérico através da composição de situações que evocam a guerra, a paz, a justiça, a economia e o ócio, as crianças aparecem precisamente nas sequências que aludem à cidade em guerra:

"Mas por volta da outra cidade estavam dois exércitos, refulgentes de armas. Duas alternativas lhes aprouveram: ou destruir a cidade, ou então dividir tudo em dois, todo o patrimônio que continha a cidade aprazível.

Os sitiados não queriam e armavam-se para uma emboscada. As esposas amadas e as crianças pequenas guardavam em pé a muralha, e com elas os homens já idosos".

É verdade que a criança surge em outras situações neste longo passo homérico, mas a pertinência dos versos está no fato de a força infantil ser utilizada em momentos de desespero, como são os de um cerco a uma cidade. Tudo vale quando é necessário defender a própria vida e o recurso a crianças não é exceção. Também elas servem de força suplementar de defesa. A utilização da expressão nhvpia tevkna, "crianças pequenas", poderá mesmo indiciar que as mais velhas, apesar de ainda não adultas, acompanhavam já os outros que combatiam fora da muralha. A descrição homérica coincide com uma representação iconográfica em estuque pintado, encontrada em Pompeios e datada de pouco antes de 79 d.e.c. Do alto de umas muralhas, uma mulher, um homem e uma criança olham um guerreiro, que se afasta das portas da cidade, para combater. As personagens tem sido interpretadas como Heitor, Hecuba, Príamo e Astíanax, mas na verdade podem ser apenas a ilustração do passo homérico acima citado.

Os textos épicos e trágicos são especialmente importantes quando se trata de investigar o universo infantil grego em contexto bélico, apesar de essas mesmas fontes indicarem que a guerra não é própria das crianças, como nota o ancião Nestor, em um dos símiles da Ilíada:

"Ah, na verdade vos conduzis uma assembleia como se fosseis rapazinhos tolos, que nada percebem dos trabalhos da guerra."

Mas a verdade, é que as crianças se vem inevitavelmente envolvidas na guerra. No Ájax, por exemplo, Sófocles apresenta Eurísaces, o filho da personagem titular, como uma criança habituada à refrega e até mesmo treinada para ela:

"Ele não se atemorizara ao ver esta carnificina de há pouco, se na verdade sair ao pai. É preciso treiná-lo como um poldro nas duras regras do pai e igualar a dele à sua natureza. Ó filho, que sejas mais feliz do que o teu pai, mas igual em tudo o mais... Mas tu, Eurísaces, meu filho, pegando na arma de onde deriva o teu nome, segura-a e maneja-a por meio da correia bem cosida ao, meu escudo infrangível, feito de sete peles de boi. Quanto às restantes armas, que as enterrem junto comigo. Mas pega já nesta criança quanto antes. Tranca a casa, e não te ponhas a lamentar-te e a chorar em sua frente. As mulheres são muito dadas a gemer em publico. Fecha-a bem e depressa."

Particularmente marcado pela guerra que assolou Atenas, entre as muitas outras cidades gregas, de 490 a 479 a.e.c. (Guerras Medo-Persas) e de 431 a 404 a.e.c. (Guerra do Peloponeso), Eurípides, que viveu entre 485 e 406 a.e.c., deixou-se tocar por esse flagelo e demonstrou-o em algumas das suas tragédias mais paradigmáticas. O caos político e econômico, a desordem social, as misérias humanas provocadas pela devastação e pela morte tornaram difícil escrever sem que tais realidades não ensombrassem e ecoassem nos enredos dramáticos do poeta. Foi essa envolvência que sugeriu reflexões de natureza trágica em torno de figuras da mitologia, reformuladas em peças como Andrômaca, Hecuba e As Troianas. Sob o pretexto do ciclo troiano, o mito é recuperado e serve como alegoria para uma representação contemporânea das desgraças bélicas. Em todas essas, o poeta encontra-se nas figuras dos vencidos. Ná Hecuba, a rainha de Troia representa as vítimas da guerra, contradizendo as exaltações heróicas de Homero. Mas a dor de Hecuba é acentuada pela ruína e pelas desgraças acrescidas que tem de suportar. Vencida, reduzida à escravidão na casa de um vencedor particularmente amargo, Ulisses, despojada do trono e da sumtuosidade, a mãe dos filhos de Príamo tem ainda de aguentar a perda da prole, que não poupa sexo ou idade. Desaparecidos os filhos guerreiros, Hecuba devera ainda tomar o doloroso conhecimento da morte de Políxena e de Polidoro.

Ainda de tenra idade, Polidoro fora entregue pelos pais ao rei da Trácia, Polimestor, que era também genro de Príamo. Ao mesmo tempo, o rei tutor recebeu um significativo tesouro, não apenas garantia a segurança de Polidoro, como lhe permitia viver com a dignidade de um príncipe em casa alheia, mesmo na eventualidade de os Troianos perderem a guerra contra os Aqueus. Mas Polimestor cobiçou o tesouro e, perante a perspectiva de os Aqueus vencerem a Guerra de Troia, decidiu matar o cunhado, lançando ao mar o seu corpo. Mas o destino fez com que o cadáver da criança desse a costa troiana, sendo encontrado pela própria Hecuba, que assim duplicou o seu sofrimento. A velha rainha decidiu então vingar-se. Mandou uma das suas servas procurar Polimestor, alegando que iria revelar-lhe o paradeiro de um tesouro. Ambicioso, o genro da rainha foi ter com ela. Mas esta, quando o apanhou junto de si, arrancou-lhe os olhos, depois de as cativas troianas terem matado à frente dele os dois filhos que trouxera consigo. A vingança de Hecuba sobre os filhos de Polimestor mostra igualmente como a morte da criança podia ser uma arma poderosa numa investida física contra um inimigo. Outra versão contava que Polimestor tinha entregado Polidoro a Ajax e este, juntamente com os restantes Aqueus, teria decidido usar a criança como garantia, afirmando que só a entregariam aos Troianos em troca de Helena. Mas estes recusaram a proposta e Polidoro teria sido lapidado junto das muralhas de Tróia, sendo depois o cadáver entregue a mãe.

A entrega da criança a outrem, em especial quando detêm um estatuto elevado na comunidade a que pertence, parece surgir como uma solução para o seu afastamento do cenário de guerra e eventual salvamento. É isso que acontece com Polidoro e foi isso que aconteceu com Orestes. Numa das versões do mito dos Atridas, também o filho de Agamêmnon e Clitemnestra era enviado para longe de sua casa, após o assassínio do pai e a tomada do poder pelo primo Egisto e pela própria mãe, Clitemnestra. O contexto em causa sugere um golpe de Estado, que por certo levaria a confrontos bélicos. Segundo os textos antigos, Orestes teria escapado ao massacre da sua casa graças a intervenção da irmã, Electra, que o teria enviado em segredo para a Fócida. Outras versões contavam que tinha sido a ama ou um preceptor ou ainda um velho criado da família a salvar o pequeno herdeiro dos Atridas. Como se verifica, também este mito apontava para um ato de desespero, em que mãe, pai, irmãos ou servos da casa afastavam os filhos do seu seio, em um ato de tentativa de salvamento. Não fizeram o mesmo com os seus filhos os Austríacos, na Segunda Grande Guerra, ou os Espanhóis, na Guerra Civil? Esse afastamento era particularmente importante quando em causa estava um herdeiro do poder.

Polidoro, Astíanax e Orestes deverão funcionar para os trágicos, em particular para Eurípides, como uma sinédoque por todos os filhos dos derrotados. Reféns, escravos ou vítimas sacrificiais. Por outro lado, as exigências religiosas de divindades que impunham tributos de sangue, em troca de vitórias que concediam aos humanos, traduzem as entregas que os simples mortais se veem obrigados a fazer, pelas ambições desmedidas de terceiros. Talvez se insira nessa realidade a morte de Astíanax, lançado das muralhas de Troia, por decisão de Ulisses, ou a versão que continha ainda mais crueldade e que contava que o pequeno Astíanax teria sido morto ao ser lançado contra um altar ou contra o próprio avo, Príamo.

Mas também a de Políxena, outra das filhas de Hecuba e Príamo, condenada ao sacrifício em comemoração da vitória, ou como vingança por um outro sacrifício idêntico, perpetrado anos antes, em Aulis: o de Ifigênia, filha de Clitemnestra e de Agamêmnon, igual expressão da prepotência divina. Estas jovens tornavam-se assim, pela sua condição, instrumentos mediadores da faceta divina do conflito. Na verdade, desconhecemos as idades de Políxena e Ifigênia, no momento do seu sacrifício, mas sabemos que eram virgens núbeis e tudo aponta para o fatoe se tratar de jovens, talvez no início da adolescência, uma vez que o casamento da moça grega acontecia relativamente cedo, por volta dos quinze anos. Como Ifigênia e Políxena, também Troilo parece ser um adolescente, que acaba por ser martirizado pela sua condição de derrotado. O mais jovem dos filhos de Príamo e Hecuba teria sido morto por Aquiles, pouco tempo depois da chegada dos Aqueus às muralhas de Troia.

Mas a crueldade da refrega para com as crianças poderia ir mais longe ainda, como assinalam as palavras que o poeta da Ilíada coloca na boca de Agamêmnon, as quis não poupam sequer os que nem nasceram ainda:

"Menelau amolecido! Por que deste modo te compadeces de homens? Será que em tua casa recebeste dos Troianos nobres favores? Que nenhum deles fuja da íngreme desgraça às nossas mãos, nem mesmo o rapaz que se encontre ainda no ventre da mãe. Que nem ele nos escape, mas que de Ilíon sejam todos de uma vez eliminados, sem rastro nem lamento!".

Nem sempre, contudo, a morte era o destino destes filhos da guerra. Antes de essa se verificar, muitas vezes, as crianças eram feitas reféns. A condição de "refém" funcionava mesmo como uma tentativa de impedir a guerra, e os filhos da aristocracia e da realeza eram particularmente apreciados para a concretização dessas negociações diplomáticas. A morte, porem, poderia ser um dos desfechos dessas situações. Uma das versões da historia de Polidoro aponta para essa realidade, mas há outros exemplos. O mito de Télefo fornece algumas indicações suplementares. Segundo a lenda, quando os Aqueus se dirigiram para a Troade, desembarcaram primeiro na Mísia, de modo a neutralizarem os habitantes da região, antes que eles se aliassem aos Troianos. Outros afirmavam que tal desembarque se devera a um simples engano. Seja como for, Telefo, que era filho de Héracles, estava ligado desde o nascimento à Mísia, pelo que lutou contra os Aqueus, matando mesmo alguns deles. Mas Aquiles acabou por conseguir feri-lo. Terminada a missão na Mísia, a aliança argiva voltou ao mar e, oito anos mais tarde, voltou a reunir-se em Aulis. Desconheciam os Aqueus, porém, o caminho para alcançar a Troade. Entretanto, Télefo, cuja ferida nunca sarara e a quem um oráculo predissera que apenas o que a causara poderia curá-la, dirigiu-se a Aulis, disfarçado de mendigo. Uma vez lá, ofereceu-se aos Aqueus para lhes indicar o caminho para Troia, mas, em troca, Aquiles teria de curá-lo. Na tragédia perdida de Eurípides, Télefo, a conselho da própria Clitemnestra, mãe de Orestes, a personagem titular chantageava os inimigos, tirando o pequeno filho de Agamêmnon de um berço, fazendo dele refém e ameaçando matá-lo, caso os Gregos não consentissem aquele contrato. Os especialistas de Eurípides tem salientado que este episodio dramático deverá ter sido uma criação original do poeta, o que o torna ainda mais pertinente no âmbito do nosso estudo, uma vez que se trata de um episodio envolvendo crianças, cuja composição é contextualizada em vésperas de guerra. Eurípides conheceu bem o ambiente que aqui se reproduz, pelo que essa veio a ser-lhe uma realidade familiar. Ao colocar o pequeno Orestes numa situação de submissão e indefesa precariedade, como faz no Télefo, o poeta apenas põe em cena o sofrimento trágico que marca todas as vítimas da guerra e que as enreda numa teia sem saída.

Outro destino que as Moiras reservavam às crianças na guerra era a escravatura. Enquanto os homens adultos eram, na maioria, exterminados, as mulheres e as crianças eram escravizadas, valorizadas como espolio de guerra e transformadas em objeto de natureza sexual, em quem se exercia o poder dos vencidos e exaltava a humilhação dos derrotados. É uma vez mais em Homero, no episodio de Meleagro, que confirmamos esta ideia:

"Foi então que a esposa de bela cintura de Meleagro lhe dirigiu suplicas, chorosa, e enumerou-lhe todos os males que sobrevêm àqueles cuja cidade e tomada: chacinam os homens, o fogo destrói a cidade, e estranhos levam as crianças e as mulheres de cintura funda".

A essência de As Troianas e da Andrômaca assenta nessa realidade, como aliás o mote que dá desenvolvimento à própria Ilíada: a ira de Aquiles provocada pela perda de uma concubina de guerra, Briseida. Enquanto escravas, as crianças de ambos os sexos, até a idade da adolescência, tornavam-se investimentos a médio prazo para os seus senhores, dada a incerteza de que chegariam a idade adulta, momento em que a sua capacidade de trabalho se valorizava consideravelmente. Então sim, seriam um investimento com retorno.

O tema da escravatura da criança em tempo de guerra parece ser também o que motiva o mito de Ganimedes. Segundo a tradição grega, Ganimedes era um jovem príncipe de Troia, que ainda não tinha chegado à adolescência. Guardava os rebanhos do pai, nas montanhas que rodeavam a cidade de Tebas, quando Zeus o viu, se enamorou dele e o raptou, levando-o para o Olimpo. Ai, passou a servir de escanção dos deuses, como alias se lê também numa ode de "As Troianas". Apesar de os autores antigos referirem que Zeus recompensou o pai de Ganimedes com uma serie de presentes, em troca do seu filho, parece-nos que neste mito está a essência de um jovem feito escravo por um senhor: torna-se seu objeto sexual e passa a servir na casa de quem o possui.

Na ode euripidiana, tem-se salientado o contraste da cidade que arde com a vida graciosa, apesar de servil, que Ganimedes leva entre os deuses, mas a antítese pode igualmente ser salientada ao nível dos destinos de dois troianos como Ganimedes e Astíanax, também ali citado, versos antes.

Quando analisadas, as fontes não mitológicas confirmam o que a literatura grega de natureza mítico-religiosa, a epopeia e a tragédia, sugerem. De certa forma, estes textos reiteram mesmo algumas das situações mencionadas. O passo do canto XVIII da Ilíada, por exemplo, em que as crianças surgem sobre uma muralha, guardando a mesma, ao lado de mulheres e de velhos, é confirmado por textos de Tucídides, de Demostenes e de Plutarco. Nestes três autores, referem-se situações bélicas em que as crianças são colocadas atrás das muralhas das cidades, sendo intenção que se protejam mutuamente. Leiamos o exemplo de Tucídides, escrito na sequencia do discurso de Péricles aos Atenienses, em que o estadista expõe os planos de guerra:

"Depois de ouvir as palavras de Péricles, os Atenienses, já convencidos, começaram a trazer dos campos os seus filhos, as suas mulheres e tudo o que tinham. Retiraram ate as madeiras das casas. Os rebanhos e os animais de carga foram transportados para a Eubéia e para as ilhas vizinhas. Essa foi uma deslocação penosa, uma vez que os habitantes estavam, na maioria, habituados a vida do campo".

Estes passos confirmam que a representação a fresco de Pompeios era, na verdade, tópica, podendo ser aplicada a qualquer caso em que uma cidade estivesse em guerra e não apenas a Troia. De qualquer modo, o caráter poético e universalista da Ilíada justifica que a imagem pudesse reportar-se a uma situação concreta, designadamente o momento da saída de Heitor ou, quiçá, como ilustração da ecfrase do canto XVIII. Por outro lado, são também as crianças e as mulheres as primeiras a ser evacuadas de um eventual cenário de guerra:

"Os Atenienses receberam um relatório dos acontecimentos em Plateias e detiveram imediatamente todos os beócios que se encontravam na Ática. Depois, enviaram um mensageiro aos habitantes de Plateias, para que nada decidissem acerca dos prisioneiros tebanos, antes de eles próprios decidirem alguma coisa, pois desconheciam que já houvera o massacre. Na verdade, partira de Plateias um primeiro mensageiro no momento da entrada dos tebanos. Houvera depois um segundo mensageiro, quando estes acabavam de ser vencidos e capturados. Então, terminaram as informações para Atenas. Portanto, o mensageiro ateniense foi enviado no desconhecimento dos últimos acontecimentos. Ao chegar, encontrou os prisioneiros massacrados. Os atenienses enviaram então exércitos e víveres para Plateias, instalaram lá uma guarnição e retiraram os homens menos capazes, juntamente com as mulheres e as crianças". (TUCIDIDES, 2,14)

De fato, de um modo geral, mulheres e crianças são tidas como inúteis para o ato de guerra, e daÍ evacuadas dos cenários bélicos, como também refere explicitamente Licurgo, um dos oradores áticos, em um dos seus discursos. Na verdade, podem mesmo ser um empecilho grave para quem combate. Mas, por vezes, o desespero leva a que até mesmo esses se vejam obrigados a intervir, auxiliando na defesa do seu espaço e da própria vida. Nas suas narrações da historia grega, Diodoro Sículo faz referencia as crianças que, no cerco de Selinunte às mãos de Cartago, em 409 a.e.c., participaram no combate contra o inimigo a partir das muralhas, ao mesmo tempo que mulheres e moças de tenra idade colaboravam, entregando comida, agua e armas aos que combatiam. Mulheres e crianças refugiam-se nos telhados das casas, lançando pedras e telhas contra o inimigo. A descrição do historiador, que reforça a cena com velhos que defendem com a própria vida as muralhas, ao mesmo tempo que imploram a rapazes, ainda sem idade para integrar o exercito, que jamais permitam que caiam em mãos inimigas, resvala mesmo o patético, digno das descrições épicas ou trágicas.

A contribuição de crianças para o esforço de guerra parece mesmo ser comum, como sugerem vários textos. Em Tucídides, aparecem entre os que são comissionados por Temístocles a reconstruir as muralhas e edifícios de Atenas, informação que se confirma em Diodoro. Outra forma de recorrer à força infantil como mais-valia suplementar em tempo de guerra era valorizar a capacidade de trabalho das crianças nos campos. Juntamente com os velhos, estas encarregavam-se então de funções antes desempenhadas por adultos, agora envolvidos na constituição de exércitos. Isso não significa que, em tempos de paz, as crianças não fossem usadas como força de trabalho agrícola, porque decerto o eram, designadamente entre os menos favorecidos ao nível econômico. Mas o caráter urgente e necessário da medida, como se não fosse "natural" que isso acontecesse, é acentuado pelos autores antigos. Por estas razoes, a criança, em especial a do sexo masculino, futura cidadã, devera acostumar-se à guerra desde cedo, preparando-se para ela, pois, em um ambiente bélico em que o conflito armado faz parte do quotidiano das soluções político-diplomáticas das sociedades em causa, o mais certo é que, mais cedo ou mais tarde, seja convocada para combater ao lado dos seus concidadãos, em defesa dos valores da comunidade em que esta integrada. Eis como Platão formula a questão, pela boca do seu mestre, Sócrates:

"Farão campanha em comum, e levarão para o combate aqueles dos seus filhos que forem robustos, afim de que, tal como os filhos dos outros, dos artífices, contemplem a ação que terão de desempenhar depois de adultos.

E, além do espetáculo, que possam ajudar e servir em tudo o que respeita ao combate, e prestar assistência aos pais e às mães. Ou não reparas no que sucede quanto às artes, como, por exemplo, os filhos dos oleiros servem de ajudantes durante muito tempo e observam, antes de tomar conta do ofício?...

Em face disso, meu amigo, é preciso que as criancinhas tenham logo asas, a fim de que, se houver qualquer necessidade, fujam a voar.

Que queres dizer?, perguntou ele.

Que devem montar a cavalo os por mais novos que possa ser e que, depois de lhes terem ensinado a equitação, e que devem ser levados ao espetáculo em cavalos que não sejam fogosos nem belicosos, mas os mais velozes e dóceis ao freio que seja possível. Assim contemplarão muito bem as ações que lhes competem, e, se acaso for preciso, salvar-se-ão com toda a segurança, seguindo atrás dos seus chefes mais idosos". (PLATÃO, República, 467e-468b)

A instituição da efebia na Grecia Antiga remonta pelo menos ao século IV a.e.c., havendo mesmo quem considere a sua origem como mais antiga. Os jovens do sexo masculino integravam essa instituição quando completavam 18 anos, e os faziam à sua formação militar e se assumiam como cidadãos. Era esse também o momento em que os rapazes deixavam oficialmente de ser crianças e passavam a ser homens. A efebia durava dois anos e consistia num treino oficial para a guerra, que começou por ser ritual e iniciático, acabando por se institucionalizar. A partir de então, estavam preparados para o combate. Mas a verdade é que alguns testemunhos mostram que a participação dos jovens com idade inferior aos 18 anos em situação de conflito era uma realidade efetiva. Assim aconteceu com os cidadãos de Megara, em 459 a.e.c., durante a Guerra do Peloponeso, por exemplo, em que a falta de homens para a batalha levou ao alistamento dos mais jovens da cidade, alguns deles por certo ainda crianças imberbes. A efebia seria portanto uma solução para, em tempos de paz, se prepararem para a guerra. Quando o conflito eclodia, tudo era valido e as vicissitudes do polemos, como a fome, atingiam todos sem opção.

Como nas fontes epico-tragicas, a escravatura surge na restante literatura antiga como o desenlace mais comum para as crianças dos vendidos. Tal como as mulheres, os seus filhos eram feitos prisioneiros e loteados como espolio entre os soldados, eventualmente vendidos depois em hasta publica e colhidos os dividendos, como indiciam as palavras de Demostenes, no seu discurso contra Timocrates. E, tal como nas fontes poéticas, também a historiografia e a retorica mostram as crianças como reféns de guerra, comprovando o recurso a essa prática entre os Gregos. Aconteceu, por exemplo, no tempo de Pisístrato, e em Atenas e em Samos, envolvendo tanto Espartanos como Atenienses, durante a Guerra do Peloponeso.

Por outro lado, aparentemente, a polis grega, enquanto comunidade, assumia os desastres que afetavam as famílias que a compunham e adotava os Órfãos de guerra como seus filhos. Pelo menos, assim o indica a oração fúnebre de Péricles, em Tucídides, depois de elogiar as viúvas de guerra:

"Aqui termino o meu discurso, no qual, de acordo com o costume, falei o que me pareceu adequado; quanto aos fatos, os homens que viemos sepultar já receberam as nossas homenagens e os seus filhos serão, doravante, educados à expensas da cidade ate a adolescência. Oferecemos assim aos mortos e aos seus descendentes uma valiosa coroa como premio pelos seus feitos, pois quanto melhores forem os cidadãos, maiores serão as recompensas pela virtude."

Como se efetivava esse apoio, que constituiria uma forma de solidariedade social, e se de fato se fazia, em vez de se limitar a uma retorica propagandística, como, aliás, é todo o discurso, não sabemos. Além disso, a informação de que dispomos é relativa à Atenas, uma das cidades mais ricas do mundo grego, no século V a.e.c. Desconhecemos se o mesmo seria feito em outros poleis.

Mas, ainda como nas fontes mitológicas, também de outros textos se deduz que a morte era um desenlace possível, em especial quando os objetivos dos atacantes, ou simplesmente a sua avidez e crueldade, o exigiam. Em 413 a.e.c., um ataque sanguinário de mercenários trácios ao serviço de Atenas a regiões beócias resultou no seguinte:

"os trácios irromperam em Micalesso e saquearam casas e templos, massacrando os habitantes, sem poupar velhos ou jovens, matando todos os habitantes que encontravam, incluindo crianças e mulheres e até mesmo animais de carga ou outros seres vivos que encontrassem. Na verdade, os trácios, tal como os bárbaros da pior espécie, são ávidos de sangue, em especial quando acredita que nada tem a temer. E foi assim que, naquela ocasião, ocorreram todas as formas de extermínio, como o ataque a uma escola de rapazes, a maior da cidade, cujos alunos acabavam de entrar. Foram todos mortos. Aquele massacre foi a pior de todas as calamidades para a cidade, pior do que qualquer outro desastre, a mais terrível de todas as que eram recordadas pelos seus habitantes."(TUCIDIDES, 7,29)

As situações estudadas dizem respeito, fundamentalmente, à Grécia dos períodos arcaico e clássico, sem que excluamos o mundo homérico. O que se verifica é a inevitabilidade da participação involuntária das crianças na guerra, quer como elementos de defesa do espaço e agentes do combate, sintomático do desespero das situações, quer como vítimas passivas do processo. Quando integram exércitos, fazem-no por arrastamento, sendo aparentemente e a partida estranho aos autores antigos que tal aconteça. Mas a vitimização destas deuteragonistas é o mais frequente, sendo tomadas como reféns e garantias, espólios e escravas de guerra, objetos com que os vencedores podem fazer sentir a sua vitória como uma realidade. São por isso também usadas como recurso prático dos escritores, em quem o fato cede à verossimilhança, de modo a acentuar de uma. forma patética as misérias bélicas, traduzidas fundamentalmente pela crueldade dos vencedores para com os vencidos. Por outro lado, o sacrifício de crianças em situações de guerra poderá traduzir antigos ritos de ordenação mdgico-religiosa, mas que no período histórico se apresentam como situação ad hoc, apesar de não necessariamente extraordinária.

No período helenístico, as conjunturas político-culturais próprias dos contatos então encetados e da ordem estabelecida trarão novidades às formas de as comunidades se organizarem. Bastará referir que, depois da conquista da Pérsia, Alexandre da Macedônia ordenou que trinta mil rapazes de entre os subjugados, designados epigoni "os que estão a crescer" e que estavam ainda a chegar a puberdade, fossem treinados na forma macedônica de combater, ao mesmo tempo que lhes era ensinado o grego como línguas. Isto é, adotou-se um outro tipo de táctica para com os prisioneiros de guerra. Alexandre transformava-os assim em potenciais voluntários ao serviço dos vencedores, através da educação. O mesmo fará Roma, séculos mais tarde, com muitos dos seus reféns e prisioneiros, em especial os de alta estirpe. Mas essas serão já outras épocas, outras realidades, que exigem outros espaços de tratamento.

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Nuno Simões Rodrigues é professor auxiliar do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do centro de História da Universidade de Liboa.

 

Fonte:
A Guerra na Antiguidade II
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