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A criança e a guerra na Grécia Antiga

 

Civilização Grega - Mitologia Grega - Guerra de Tróia - Eurípedes - Andrômaca - Astíanax - Hecuba - Príamo - Heitor - Télefo - Orestes - Ganimedes - Ifigênia
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As palavras transcritas correspondem a versos de uma tragédia grega: As Troianas, de Eurípides. Quem as diz e Andrômaca, uma das cativas, a mulher de Heitor, que estás prestes a perder o seu filho de tenra idade, Astíanax, príncipe de Troia, pela implacabilidade que os Aqueus estão prestes a manifestar, numa demonstração inequívoca de vitória. O nome do menino deixa-nos suspeitar das razões do seu. sacrifício: asty anax, "o senhor da cidade". A herança que o filho de Heitor e neto de Príamo carrega faz dele uma vítima propiciatória e necessária num contexto de guerra. Mortos os grandes de Troia, como eram o avo e o pai, urge eliminar o filho e neto, eventual foco de resistência, qual fungo latente, em que poderá germinar a vingança do sangue do passado, numa perspectiva de futuro. Astíanax tem por isso de morrer. E a sua morte é tão mais angustiante quanto a confrontamos com o passo homérico em que o menino surge como o terceiro elemento de uma "sagrada família". A mesma que se consterna momentos antes do combate final, antes de a guerra destruir para sempre e por completo a harmonia criada pelos deuses:

"Ela veio ao seu encontro, e com ela vinha a criada segurando ao colo o brando menino tão pequeno, filho amado de Heitor, semelhante a uma Linda estrela, a quem Heitor chamava Escamândrio, embora os outros lhe chamassem Astíanax; pois só Heitor era baluarte de Ilion. Sorriu Heitor, olhando em silencio para o seu filho.

Mas Andrômaca aproximou-se dele com lágrimas nos olhos e, acariciando-o com a mão, falou-lhe pelo nome...

Assim falando, o glorioso Heitor foi para abraçar o seu filho, mas o menino voltou para o regaço da ama de bela cintura gritando em voz alta, assarapantado pelo aspecto de seu pai amado e assustado por causa do bronze e da crista de crinas de cavalo, que se agitava de modo medonho da parte de cima do elmo. Então se riram o pai amado e a excelsa mãe:

e logo da cabeça tirou o elmo o glorioso Heitor, e depô-lo, todo ele coruscante, no chão da casa. De seguida beijou e abraçou o seu filho amado e a Zeus e aos outros deuses dirigiu esta oração:

"O Zeus e demais deuses, concedei-me que este meu filho venha a ser como eu, o melhor entre os Troianos; que seja tão ilustre pela força e que pela autoridade seja rei de Ilion. Que de futuro alguém diga este é muito melhor que o pai, ao regressar da guerra. Que traga os despojos sangrentos do inimigo que matou e que exulte o coração da sua mãe!" Assim dizendo, nos braços da esposa amada pôs o filho. Ela recebeu-o no colo perfumado, sorrindo por entre as lagrimas".

Não há muita informação disponível acerca do papel desempenhado pelas crianças da Grécia Antiga em ambiente bélico, pelo que todos os dados, provenientes da arqueologia, da epigrafia, da literatura, da iconografia ou da mitologia, são preciosos para uma leitura e interpretação do mesmo no seu contexto histórico. É em Homero, mais em concreto na Ilíada, que encontramos as primeiras referências ao universo infantil em contexto de guerra. Homero é, alias, rico em imagens de crianças, particularmente presentes em símiles.

No final da Ilíada, a lamentação de Andrômaca confirma de forma profética o destino reservado à prole dos vencidos:

"Marido, para a vida morreste tão jovem e deixas-me viúva no palácio. Teu filho não passa ainda de pequena criança, ele a quem tu e eu geramos, desafortunados! Mas não creio que ele chegue à adolescência, pois antes disso terá a cidade sido arrasada de alto a baixo. Eras o protetor e morreste: só tu a defendias e guardavas as nobres esposas e crianças pequenas, elas que rapidamente partirão nas côncavas naus, e entre elas irei eu. E tu, o filho, também me seguirás, para lá onde desempenharas tarefas aviltantes, laborando à frente de um amo severo; ou então um dos Aqueus pegara em ti pela mão e te lançara da muralha, morte desgraçada!, Encolerizado porque Heitor lhe matou o irmão ou o pai ou o filho, visto que muitos Aqueus com os dentes morderam a vasta terra às mãos de Heitor."

A princesa de Troia antevê as duas saídas possíveis para o seu filho, que seriam, aliás, as mesmas para todas as crianças de Troia ou de qualquer cidade derrotada entre os Gregos. Para Andrômaca, acabara por se confirmar a segunda hipótese, destino que tanto atraiu os artistas na Antiguidade grega. Para citar apenas um exemplo, de entre muitos, um pithos cíclico, encontrado em Miconos, mostra no bojo o cavalo de Troia, rodeado por uma serie de métopas, nas quais se veem cenas do massacre da cidade: mulheres que são levadas à força por soldados, e por eles mortas; crianças, essencialmente do sexo masculino, arrancadas aos braços das mães e assassinadas; e uma métopa em especial, em que um guerreiro tira uma  criança à força do colo de uma mulher. Esta suplica e o soldado não segura qualquer espada, deixando crer que vai lançar o pequeno das muralhas. Parece tratar-se de Astíanax, Andrômaca e Neoptólemo ou Ulisses, duas das figuras que tradicionalmente eram tidas como os executores do pequeno filho de Heitor.

No canto XVIII do mesmo poema, na écfrase que descreve a decoração do escudo de Aquiles, é onde se tem um vislumbre do mundo homérico através da composição de situações que evocam a guerra, a paz, a justiça, a economia e o ócio, as crianças aparecem precisamente nas sequências que aludem à cidade em guerra:

"Mas por volta da outra cidade estavam dois exércitos, refulgentes de armas. Duas alternativas lhes aprouveram: ou destruir a cidade, ou então dividir tudo em dois, todo o patrimônio que continha a cidade aprazível.

Os sitiados não queriam e armavam-se para uma emboscada. As esposas amadas e as crianças pequenas guardavam em pé a muralha, e com elas os homens já idosos".

É verdade que a criança surge em outras situações neste longo passo homérico, mas a pertinência dos versos está no fato de a força infantil ser utilizada em momentos de desespero, como são os de um cerco a uma cidade. Tudo vale quando é necessário defender a própria vida e o recurso a crianças não é exceção. Também elas servem de força suplementar de defesa. A utilização da expressão nhvpia tevkna, "crianças pequenas", poderá mesmo indiciar que as mais velhas, apesar de ainda não adultas, acompanhavam já os outros que combatiam fora da muralha. A descrição homérica coincide com uma representação iconográfica em estuque pintado, encontrada em Pompeios e datada de pouco antes de 79 d.e.c. Do alto de umas muralhas, uma mulher, um homem e uma criança olham um guerreiro, que se afasta das portas da cidade, para combater. As personagens tem sido interpretadas como Heitor, Hecuba, Príamo e Astíanax, mas na verdade podem ser apenas a ilustração do passo homérico acima citado.

Os textos épicos e trágicos são especialmente importantes quando se trata de investigar o universo infantil grego em contexto bélico, apesar de essas mesmas fontes indicarem que a guerra não é própria das crianças, como nota o ancião Nestor, em um dos símiles da Ilíada:

"Ah, na verdade vos conduzis uma assembleia como se fosseis rapazinhos tolos, que nada percebem dos trabalhos da guerra."

Mas a verdade, é que as crianças se vem inevitavelmente envolvidas na guerra. No Ájax, por exemplo, Sófocles apresenta Eurísaces, o filho da personagem titular, como uma criança habituada à refrega e até mesmo treinada para ela:

"Ele não se atemorizara ao ver esta carnificina de há pouco, se na verdade sair ao pai. É preciso treiná-lo como um poldro nas duras regras do pai e igualar a dele à sua natureza. Ó filho, que sejas mais feliz do que o teu pai, mas igual em tudo o mais... Mas tu, Eurísaces, meu filho, pegando na arma de onde deriva o teu nome, segura-a e maneja-a por meio da correia bem cosida ao, meu escudo infrangível, feito de sete peles de boi. Quanto às restantes armas, que as enterrem junto comigo. Mas pega já nesta criança quanto antes. Tranca a casa, e não te ponhas a lamentar-te e a chorar em sua frente. As mulheres são muito dadas a gemer em publico. Fecha-a bem e depressa."

Particularmente marcado pela guerra que assolou Atenas, entre as muitas outras cidades gregas, de 490 a 479 a.e.c. (Guerras Medo-Persas) e de 431 a 404 a.e.c. (Guerra do Peloponeso), Eurípides, que viveu entre 485 e 406 a.e.c., deixou-se tocar por esse flagelo e demonstrou-o em algumas das suas tragédias mais paradigmáticas. O caos político e econômico, a desordem social, as misérias humanas provocadas pela devastação e pela morte tornaram difícil escrever sem que tais realidades não ensombrassem e ecoassem nos enredos dramáticos do poeta. Foi essa envolvência que sugeriu reflexões de natureza trágica em torno de figuras da mitologia, reformuladas em peças como Andrômaca, Hecuba e As Troianas. Sob o pretexto do ciclo troiano, o mito é recuperado e serve como alegoria para uma representação contemporânea das desgraças bélicas. Em todas essas, o poeta encontra-se nas figuras dos vencidos. Ná Hecuba, a rainha de Troia representa as vítimas da guerra, contradizendo as exaltações heróicas de Homero. Mas a dor de Hecuba é acentuada pela ruína e pelas desgraças acrescidas que tem de suportar. Vencida, reduzida à escravidão na casa de um vencedor particularmente amargo, Ulisses, despojada do trono e da sumtuosidade, a mãe dos filhos de Príamo tem ainda de aguentar a perda da prole, que não poupa sexo ou idade. Desaparecidos os filhos guerreiros, Hecuba devera ainda tomar o doloroso conhecimento da morte de Políxena e de Polidoro.

Ainda de tenra idade, Polidoro fora entregue pelos pais ao rei da Trácia, Polimestor, que era também genro de Príamo. Ao mesmo tempo, o rei tutor recebeu um significativo tesouro, não apenas garantia a segurança de Polidoro, como lhe permitia viver com a dignidade de um príncipe em casa alheia, mesmo na eventualidade de os Troianos perderem a guerra contra os Aqueus. Mas Polimestor cobiçou o tesouro e, perante a perspectiva de os Aqueus vencerem a Guerra de Troia, decidiu matar o cunhado, lançando ao mar o seu corpo. Mas o destino fez com que o cadáver da criança desse a costa troiana, sendo encontrado pela própria Hecuba, que assim duplicou o seu sofrimento. A velha rainha decidiu então vingar-se. Mandou uma das suas servas procurar Polimestor, alegando que iria revelar-lhe o paradeiro de um tesouro. Ambicioso, o genro da rainha foi ter com ela. Mas esta, quando o apanhou junto de si, arrancou-lhe os olhos, depois de as cativas troianas terem matado à frente dele os dois filhos que trouxera consigo. A vingança de Hecuba sobre os filhos de Polimestor mostra igualmente como a morte da criança podia ser uma arma poderosa numa investida física contra um inimigo. Outra versão contava que Polimestor tinha entregado Polidoro a Ajax e este, juntamente com os restantes Aqueus, teria decidido usar a criança como garantia, afirmando que só a entregariam aos Troianos em troca de Helena. Mas estes recusaram a proposta e Polidoro teria sido lapidado junto das muralhas de Tróia, sendo depois o cadáver entregue a mãe.

A entrega da criança a outrem, em especial quando detêm um estatuto elevado na comunidade a que pertence, parece surgir como uma solução para o seu afastamento do cenário de guerra e eventual salvamento. É isso que acontece com Polidoro e foi isso que aconteceu com Orestes. Numa das versões do mito dos Atridas, também o filho de Agamêmnon e Clitemnestra era enviado para longe de sua casa, após o assassínio do pai e a tomada do poder pelo primo Egisto e pela própria mãe, Clitemnestra. O contexto em causa sugere um golpe de Estado, que por certo levaria a confrontos bélicos. Segundo os textos antigos, Orestes teria escapado ao massacre da sua casa graças a intervenção da irmã, Electra, que o teria enviado em segredo para a Fócida. Outras versões contavam que tinha sido a ama ou um preceptor ou ainda um velho criado da família a salvar o pequeno herdeiro dos Atridas. Como se verifica, também este mito apontava para um ato de desespero, em que mãe, pai, irmãos ou servos da casa afastavam os filhos do seu seio, em um ato de tentativa de salvamento. Não fizeram o mesmo com os seus filhos os Austríacos, na Segunda Grande Guerra, ou os Espanhóis, na Guerra Civil? Esse afastamento era particularmente importante quando em causa estava um herdeiro do poder.

Polidoro, Astíanax e Orestes deverão funcionar para os trágicos, em particular para Eurípides, como uma sinédoque por todos os filhos dos derrotados. Reféns, escravos ou vítimas sacrificiais. Por outro lado, as exigências religiosas de divindades que impunham tributos de sangue, em troca de vitórias que concediam aos humanos, traduzem as entregas que os simples mortais se veem obrigados a fazer, pelas ambições desmedidas de terceiros. Talvez se insira nessa realidade a morte de Astíanax, lançado das muralhas de Troia, por decisão de Ulisses, ou a versão que continha ainda mais crueldade e que contava que o pequeno Astíanax teria sido morto ao ser lançado contra um altar ou contra o próprio avo, Príamo.

Mas também a de Políxena, outra das filhas de Hecuba e Príamo, condenada ao sacrifício em comemoração da vitória, ou como vingança por um outro sacrifício idêntico, perpetrado anos antes, em Aulis: o de Ifigênia, filha de Clitemnestra e de Agamêmnon, igual expressão da prepotência divina. Estas jovens tornavam-se assim, pela sua condição, instrumentos mediadores da faceta divina do conflito. Na verdade, desconhecemos as idades de Políxena e Ifigênia, no momento do seu sacrifício, mas sabemos que eram virgens núbeis e tudo aponta para o fatoe se tratar de jovens, talvez no início da adolescência, uma vez que o casamento da moça grega acontecia relativamente cedo, por volta dos quinze anos. Como Ifigênia e Políxena, também Troilo parece ser um adolescente, que acaba por ser martirizado pela sua condição de derrotado. O mais jovem dos filhos de Príamo e Hecuba teria sido morto por Aquiles, pouco tempo depois da chegada dos Aqueus às muralhas de Troia.

Mas a crueldade da refrega para com as crianças poderia ir mais longe ainda, como assinalam as palavras que o poeta da Ilíada coloca na boca de Agamêmnon, as quis não poupam sequer os que nem nasceram ainda:

"Menelau amolecido! Por que deste modo te compadeces de homens? Será que em tua casa recebeste dos Troianos nobres favores? Que nenhum deles fuja da íngreme desgraça às nossas mãos, nem mesmo o rapaz que se encontre ainda no ventre da mãe. Que nem ele nos escape, mas que de Ilíon sejam todos de uma vez eliminados, sem rastro nem lamento!".

Nem sempre, contudo, a morte era o destino destes filhos da guerra. Antes de essa se verificar, muitas vezes, as crianças eram feitas reféns. A condição de "refém" funcionava mesmo como uma tentativa de impedir a guerra, e os filhos da aristocracia e da realeza eram particularmente apreciados para a concretização dessas negociações diplomáticas. A morte, porem, poderia ser um dos desfechos dessas situações. Uma das versões da historia de Polidoro aponta para essa realidade, mas há outros exemplos. O mito de Télefo fornece algumas indicações suplementares. Segundo a lenda, quando os Aqueus se dirigiram para a Troade, desembarcaram primeiro na Mísia, de modo a neutralizarem os habitantes da região, antes que eles se aliassem aos Troianos. Outros afirmavam que tal desembarque se devera a um simples engano. Seja como for, Telefo, que era filho de Héracles, estava ligado desde o nascimento à Mísia, pelo que lutou contra os Aqueus, matando mesmo alguns deles. Mas Aquiles acabou por conseguir feri-lo. Terminada a missão na Mísia, a aliança argiva voltou ao mar e, oito anos mais tarde, voltou a reunir-se em Aulis. Desconheciam os Aqueus, porém, o caminho para alcançar a Troade. Entretanto, Télefo, cuja ferida nunca sarara e a quem um oráculo predissera que apenas o que a causara poderia curá-la, dirigiu-se a Aulis, disfarçado de mendigo. Uma vez lá, ofereceu-se aos Aqueus para lhes indicar o caminho para Troia, mas, em troca, Aquiles teria de curá-lo. Na tragédia perdida de Eurípides, Télefo, a conselho da própria Clitemnestra, mãe de Orestes, a personagem titular chantageava os inimigos, tirando o pequeno filho de Agamêmnon de um berço, fazendo dele refém e ameaçando matá-lo, caso os Gregos não consentissem aquele contrato. Os especialistas de Eurípides tem salientado que este episodio dramático deverá ter sido uma criação original do poeta, o que o torna ainda mais pertinente no âmbito do nosso estudo, uma vez que se trata de um episodio envolvendo crianças, cuja composição é contextualizada em vésperas de guerra. Eurípides conheceu bem o ambiente que aqui se reproduz, pelo que essa veio a ser-lhe uma realidade familiar. Ao colocar o pequeno Orestes numa situação de submissão e indefesa precariedade, como faz no Télefo, o poeta apenas põe em cena o sofrimento trágico que marca todas as vítimas da guerra e que as enreda numa teia sem saída.

Outro destino que as Moiras reservavam às crianças na guerra era a escravatura. Enquanto os homens adultos eram, na maioria, exterminados, as mulheres e as crianças eram escravizadas, valorizadas como espolio de guerra e transformadas em objeto de natureza sexual, em quem se exercia o poder dos vencidos e exaltava a humilhação dos derrotados. É uma vez mais em Homero, no episodio de Meleagro, que confirmamos esta ideia:

"Foi então que a esposa de bela cintura de Meleagro lhe dirigiu suplicas, chorosa, e enumerou-lhe todos os males que sobrevêm àqueles cuja cidade e tomada: chacinam os homens, o fogo destrói a cidade, e estranhos levam as crianças e as mulheres de cintura funda".

A essência de As Troianas e da Andrômaca assenta nessa realidade, como aliás o mote que dá desenvolvimento à própria Ilíada: a ira de Aquiles provocada pela perda de uma concubina de guerra, Briseida. Enquanto escravas, as crianças de ambos os sexos, até a idade da adolescência, tornavam-se investimentos a médio prazo para os seus senhores, dada a incerteza de que chegariam a idade adulta, momento em que a sua capacidade de trabalho se valorizava consideravelmente. Então sim, seriam um investimento com retorno.

O tema da escravatura da criança em tempo de guerra parece ser também o que motiva o mito de Ganimedes. Segundo a tradição grega, Ganimedes era um jovem príncipe de Troia, que ainda não tinha chegado à adolescência. Guardava os rebanhos do pai, nas montanhas que rodeavam a cidade de Tebas, quando Zeus o viu, se enamorou dele e o raptou, levando-o para o Olimpo. Ai, passou a servir de escanção dos deuses, como alias se lê também numa ode de "As Troianas". Apesar de os autores antigos referirem que Zeus recompensou o pai de Ganimedes com uma serie de presentes, em troca do seu filho, parece-nos que neste mito está a essência de um jovem feito escravo por um senhor: torna-se seu objeto sexual e passa a servir na casa de quem o possui.

Na ode euripidiana, tem-se salientado o contraste da cidade que arde com a vida graciosa, apesar de servil, que Ganimedes leva entre os deuses, mas a antítese pode igualmente ser salientada ao nível dos destinos de dois troianos como Ganimedes e Astíanax, também ali citado, versos antes.

Quando analisadas, as fontes não mitológicas confirmam o que a literatura grega de natureza mítico-religiosa, a epopeia e a tragédia, sugerem. De certa forma, estes textos reiteram mesmo algumas das situações mencionadas. O passo do canto XVIII da Ilíada, por exemplo, em que as crianças surgem sobre uma muralha, guardando a mesma, ao lado de mulheres e de velhos, é confirmado por textos de Tucídides, de Demostenes e de Plutarco. Nestes três autores, referem-se situações bélicas em que as crianças são colocadas atrás das muralhas das cidades, sendo intenção que se protejam mutuamente. Leiamos o exemplo de Tucídides, escrito na sequencia do discurso de Péricles aos Atenienses, em que o estadista expõe os planos de guerra:

"Depois de ouvir as palavras de Péricles, os Atenienses, já convencidos, começaram a trazer dos campos os seus filhos, as suas mulheres e tudo o que tinham. Retiraram ate as madeiras das casas. Os rebanhos e os animais de carga foram transportados para a Eubéia e para as ilhas vizinhas. Essa foi uma deslocação penosa, uma vez que os habitantes estavam, na maioria, habituados a vida do campo".

Estes passos confirmam que a representação a fresco de Pompeios era, na verdade, tópica, podendo ser aplicada a qualquer caso em que uma cidade estivesse em guerra e não apenas a Troia. De qualquer modo, o caráter poético e universalista da Ilíada justifica que a imagem pudesse reportar-se a uma situação concreta, designadamente o momento da saída de Heitor ou, quiçá, como ilustração da ecfrase do canto XVIII. Por outro lado, são também as crianças e as mulheres as primeiras a ser evacuadas de um eventual cenário de guerra:

"Os Atenienses receberam um relatório dos acontecimentos em Plateias e detiveram imediatamente todos os beócios que se encontravam na Ática. Depois, enviaram um mensageiro aos habitantes de Plateias, para que nada decidissem acerca dos prisioneiros tebanos, antes de eles próprios decidirem alguma coisa, pois desconheciam que já houvera o massacre. Na verdade, partira de Plateias um primeiro mensageiro no momento da entrada dos tebanos. Houvera depois um segundo mensageiro, quando estes acabavam de ser vencidos e capturados. Então, terminaram as informações para Atenas. Portanto, o mensageiro ateniense foi enviado no desconhecimento dos últimos acontecimentos. Ao chegar, encontrou os prisioneiros massacrados. Os atenienses enviaram então exércitos e víveres para Plateias, instalaram lá uma guarnição e retiraram os homens menos capazes, juntamente com as mulheres e as crianças". (TUCIDIDES, 2,14)

De fato, de um modo geral, mulheres e crianças são tidas como inúteis para o ato de guerra, e daÍ evacuadas dos cenários bélicos, como também refere explicitamente Licurgo, um dos oradores áticos, em um dos seus discursos. Na verdade, podem mesmo ser um empecilho grave para quem combate. Mas, por vezes, o desespero leva a que até mesmo esses se vejam obrigados a intervir, auxiliando na defesa do seu espaço e da própria vida. Nas suas narrações da historia grega, Diodoro Sículo faz referencia as crianças que, no cerco de Selinunte às mãos de Cartago, em 409 a.e.c., participaram no combate contra o inimigo a partir das muralhas, ao mesmo tempo que mulheres e moças de tenra idade colaboravam, entregando comida, agua e armas aos que combatiam. Mulheres e crianças refugiam-se nos telhados das casas, lançando pedras e telhas contra o inimigo. A descrição do historiador, que reforça a cena com velhos que defendem com a própria vida as muralhas, ao mesmo tempo que imploram a rapazes, ainda sem idade para integrar o exercito, que jamais permitam que caiam em mãos inimigas, resvala mesmo o patético, digno das descrições épicas ou trágicas.

A contribuição de crianças para o esforço de guerra parece mesmo ser comum, como sugerem vários textos. Em Tucídides, aparecem entre os que são comissionados por Temístocles a reconstruir as muralhas e edifícios de Atenas, informação que se confirma em Diodoro. Outra forma de recorrer à força infantil como mais-valia suplementar em tempo de guerra era valorizar a capacidade de trabalho das crianças nos campos. Juntamente com os velhos, estas encarregavam-se então de funções antes desempenhadas por adultos, agora envolvidos na constituição de exércitos. Isso não significa que, em tempos de paz, as crianças não fossem usadas como força de trabalho agrícola, porque decerto o eram, designadamente entre os menos favorecidos ao nível econômico. Mas o caráter urgente e necessário da medida, como se não fosse "natural" que isso acontecesse, é acentuado pelos autores antigos. Por estas razoes, a criança, em especial a do sexo masculino, futura cidadã, devera acostumar-se à guerra desde cedo, preparando-se para ela, pois, em um ambiente bélico em que o conflito armado faz parte do quotidiano das soluções político-diplomáticas das sociedades em causa, o mais certo é que, mais cedo ou mais tarde, seja convocada para combater ao lado dos seus concidadãos, em defesa dos valores da comunidade em que esta integrada. Eis como Platão formula a questão, pela boca do seu mestre, Sócrates:

"Farão campanha em comum, e levarão para o combate aqueles dos seus filhos que forem robustos, afim de que, tal como os filhos dos outros, dos artífices, contemplem a ação que terão de desempenhar depois de adultos.

E, além do espetáculo, que possam ajudar e servir em tudo o que respeita ao combate, e prestar assistência aos pais e às mães. Ou não reparas no que sucede quanto às artes, como, por exemplo, os filhos dos oleiros servem de ajudantes durante muito tempo e observam, antes de tomar conta do ofício?...

Em face disso, meu amigo, é preciso que as criancinhas tenham logo asas, a fim de que, se houver qualquer necessidade, fujam a voar.

Que queres dizer?, perguntou ele.

Que devem montar a cavalo os por mais novos que possa ser e que, depois de lhes terem ensinado a equitação, e que devem ser levados ao espetáculo em cavalos que não sejam fogosos nem belicosos, mas os mais velozes e dóceis ao freio que seja possível. Assim contemplarão muito bem as ações que lhes competem, e, se acaso for preciso, salvar-se-ão com toda a segurança, seguindo atrás dos seus chefes mais idosos". (PLATÃO, República, 467e-468b)

A instituição da efebia na Grecia Antiga remonta pelo menos ao século IV a.e.c., havendo mesmo quem considere a sua origem como mais antiga. Os jovens do sexo masculino integravam essa instituição quando completavam 18 anos, e os faziam à sua formação militar e se assumiam como cidadãos. Era esse também o momento em que os rapazes deixavam oficialmente de ser crianças e passavam a ser homens. A efebia durava dois anos e consistia num treino oficial para a guerra, que começou por ser ritual e iniciático, acabando por se institucionalizar. A partir de então, estavam preparados para o combate. Mas a verdade é que alguns testemunhos mostram que a participação dos jovens com idade inferior aos 18 anos em situação de conflito era uma realidade efetiva. Assim aconteceu com os cidadãos de Megara, em 459 a.e.c., durante a Guerra do Peloponeso, por exemplo, em que a falta de homens para a batalha levou ao alistamento dos mais jovens da cidade, alguns deles por certo ainda crianças imberbes. A efebia seria portanto uma solução para, em tempos de paz, se prepararem para a guerra. Quando o conflito eclodia, tudo era valido e as vicissitudes do polemos, como a fome, atingiam todos sem opção.

Como nas fontes epico-tragicas, a escravatura surge na restante literatura antiga como o desenlace mais comum para as crianças dos vendidos. Tal como as mulheres, os seus filhos eram feitos prisioneiros e loteados como espolio entre os soldados, eventualmente vendidos depois em hasta publica e colhidos os dividendos, como indiciam as palavras de Demostenes, no seu discurso contra Timocrates. E, tal como nas fontes poéticas, também a historiografia e a retorica mostram as crianças como reféns de guerra, comprovando o recurso a essa prática entre os Gregos. Aconteceu, por exemplo, no tempo de Pisístrato, e em Atenas e em Samos, envolvendo tanto Espartanos como Atenienses, durante a Guerra do Peloponeso.

Por outro lado, aparentemente, a polis grega, enquanto comunidade, assumia os desastres que afetavam as famílias que a compunham e adotava os Órfãos de guerra como seus filhos. Pelo menos, assim o indica a oração fúnebre de Péricles, em Tucídides, depois de elogiar as viúvas de guerra:

"Aqui termino o meu discurso, no qual, de acordo com o costume, falei o que me pareceu adequado; quanto aos fatos, os homens que viemos sepultar já receberam as nossas homenagens e os seus filhos serão, doravante, educados à expensas da cidade ate a adolescência. Oferecemos assim aos mortos e aos seus descendentes uma valiosa coroa como premio pelos seus feitos, pois quanto melhores forem os cidadãos, maiores serão as recompensas pela virtude."

Como se efetivava esse apoio, que constituiria uma forma de solidariedade social, e se de fato se fazia, em vez de se limitar a uma retorica propagandística, como, aliás, é todo o discurso, não sabemos. Além disso, a informação de que dispomos é relativa à Atenas, uma das cidades mais ricas do mundo grego, no século V a.e.c. Desconhecemos se o mesmo seria feito em outros poleis.

Mas, ainda como nas fontes mitológicas, também de outros textos se deduz que a morte era um desenlace possível, em especial quando os objetivos dos atacantes, ou simplesmente a sua avidez e crueldade, o exigiam. Em 413 a.e.c., um ataque sanguinário de mercenários trácios ao serviço de Atenas a regiões beócias resultou no seguinte:

"os trácios irromperam em Micalesso e saquearam casas e templos, massacrando os habitantes, sem poupar velhos ou jovens, matando todos os habitantes que encontravam, incluindo crianças e mulheres e até mesmo animais de carga ou outros seres vivos que encontrassem. Na verdade, os trácios, tal como os bárbaros da pior espécie, são ávidos de sangue, em especial quando acredita que nada tem a temer. E foi assim que, naquela ocasião, ocorreram todas as formas de extermínio, como o ataque a uma escola de rapazes, a maior da cidade, cujos alunos acabavam de entrar. Foram todos mortos. Aquele massacre foi a pior de todas as calamidades para a cidade, pior do que qualquer outro desastre, a mais terrível de todas as que eram recordadas pelos seus habitantes."(TUCIDIDES, 7,29)

As situações estudadas dizem respeito, fundamentalmente, à Grécia dos períodos arcaico e clássico, sem que excluamos o mundo homérico. O que se verifica é a inevitabilidade da participação involuntária das crianças na guerra, quer como elementos de defesa do espaço e agentes do combate, sintomático do desespero das situações, quer como vítimas passivas do processo. Quando integram exércitos, fazem-no por arrastamento, sendo aparentemente e a partida estranho aos autores antigos que tal aconteça. Mas a vitimização destas deuteragonistas é o mais frequente, sendo tomadas como reféns e garantias, espólios e escravas de guerra, objetos com que os vencedores podem fazer sentir a sua vitória como uma realidade. São por isso também usadas como recurso prático dos escritores, em quem o fato cede à verossimilhança, de modo a acentuar de uma. forma patética as misérias bélicas, traduzidas fundamentalmente pela crueldade dos vencedores para com os vencidos. Por outro lado, o sacrifício de crianças em situações de guerra poderá traduzir antigos ritos de ordenação mdgico-religiosa, mas que no período histórico se apresentam como situação ad hoc, apesar de não necessariamente extraordinária.

No período helenístico, as conjunturas político-culturais próprias dos contatos então encetados e da ordem estabelecida trarão novidades às formas de as comunidades se organizarem. Bastará referir que, depois da conquista da Pérsia, Alexandre da Macedônia ordenou que trinta mil rapazes de entre os subjugados, designados epigoni "os que estão a crescer" e que estavam ainda a chegar a puberdade, fossem treinados na forma macedônica de combater, ao mesmo tempo que lhes era ensinado o grego como línguas. Isto é, adotou-se um outro tipo de táctica para com os prisioneiros de guerra. Alexandre transformava-os assim em potenciais voluntários ao serviço dos vencedores, através da educação. O mesmo fará Roma, séculos mais tarde, com muitos dos seus reféns e prisioneiros, em especial os de alta estirpe. Mas essas serão já outras épocas, outras realidades, que exigem outros espaços de tratamento.

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Nuno Simões Rodrigues é professor auxiliar do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do centro de História da Universidade de Liboa.

Referências e notas:
A Guerra na Antiguidade II
Mais de Civilização Grega
Mais TEXTOS
A evolução da ciência psicológica
Compreender, em profundidade, algo que compõe o nosso mundo significa recuperar sua história. O passado e o futuro sempre estão no presente, enquanto base constitutiva e enquanto projeto. Por exemplo, todos nós temos uma história pessoal e nos tornamos pouco compreensíveis se não recorremos a ela e à nossa perspectiva de futuro para entendermos quem somos e por que somos de uma determinada forma. Esta história pode ser mais ou menos longa para os diferentes aspectos da produção humana. No caso da Psicologia, a história tem por volta de dois milênios. Esse tempo refere-se à Psicologia no Ocidente, que começa entre os gregos, no período anterior à era cristã. Para compreender a diversidade com que a Psicologia se apresenta hoje, é indispensável recuperar sua história. A história de sua construção está ligada, em cada momento histórico, às exigências de conhecimento da humanidade, às demais áreas do conhecimento humano e aos novos desafios colocados pela realidade econômica e social e pela insaciável necessidade do homem de compreender a si mesmo.
Arte e olvisaria na Macedônia de Filipe II e Alexandre Magno

Felipe elevou o reino macedônico a um alto grau de grandeza porque tinha abundância de recursos.” Todos os depósitos minerais dentro do reino e no Império Balcânico eram posse pessoal do rei e, já no início do reinado de Felipe, as técnicas de mineração foram enormemente aperfeiçoadas. O ouro e a prata de suas moedas eram de qualidade pura, o que era importan­te, já que as moedas eram avaliadas pelo peso. As moedas mais famosas de Felipe foram suas Philippeioi de ouro, com a cabeça de Apolo de um lado e um carro de dois cavalos a galope no lado oposto. As moedas seguiam o padrão de peso da Ática e tinham como objetivo principal transações de larga escala na área do Mediterrâneo. Reservas de Philippeioi foram encontradas em toda a Grécia e a oeste da Grécia (especialmente na Sicília), Ásia Menor, Síria, Chipre e Egito, e também nos Bálcãs e no sul da Rússia. As maiores moedas de prata eram tetradracmas mostrando a cabeça de Zeus coroado com louro e, no reverso, um cavalo de raça montado por um jóquei. Todas as moedas de prata pertenciam ao padrão Trácia, que favore­ciam as transações nos Bálcãs e além deles. Reservas de tetradracmas foram encontradas ali, na Grécia e na Sicília. A ampla circulação das Philippeioi e dos tetradracmas dá-nos uma idéia da órbita de comércio e transações da Macedônia. Pequenas denominações em prata e emissões muito grandes de moedas de bronze eram usadas para troca interna dentro do reino. Assim, a economia da Macedônia tornou-se inteiramente monetá­ria e Alexandre herdou a moeda mais forte da Europa.

A religião e as artes na Grécia do Séc. IV a.e.c.
Qual a repercussão desses acontecimentos políticos e militares na paisagem, na sociedade, nas cidades e na vida dos gregos anti­gos? Considerando-se que a Grécia parecia viver num perpétuo estado de guerra nos primeiros 40 anos do século IV a.e.c., não surpreende que, dentre as peças literárias desse período que chegaram até nós, uma das mais notáveis trate precisamente desse tema. É um texto franco e dire­to sobre cada aspecto dos preparativos e da condução da arte da guerra — e, mais especificamente, da guerra de assédio —, escrito por um homem chamado Eneias no meado do século IV. Com este manual, qualquer um podia tornar-se um comandante militar tático, aprender a efetuar cercos e solapar as condições psicológicas do inimigo. Qualquer cidadão das ci­dades gregas dispunha agora de anotações sobre a sobrevivência durante um cerco, com direito a informações cruciais como a melhor maneira de impedir a sabotagem de arcos e flechas ou contrabandear armas para a cidade. Minha favorita, contudo, é de longe a dica para enviar mensa­gens secretas. O sujeito podia escolher entre costurar a mensagem na sola do sapato, escondê-la num curativo ou, melhor ainda, escrevê-la numa bexiga de vaca inchada, pois ao desinchar ela poderia ser introduzida e escondida num frasco de óleo.
A Septuaginta alexandrina

Alexandria logo havia se tornado um polo de atração para homens de todas as nacionalidades e credos, e uma das comunidades que mais cresciam era a judia, estabelecida em uma área especialmente escolhida a leste do Bruquíon, onde viviam a "realeza" e os cidadãos gregos. Normalmente, os imigrantes judeus daquela época tinham tendência a viver juntos, guardando com zelo seus costumes e tradições, e conservando a língua materna na qual haviam sido criados. Mas como a língua falada em Alexandria era o grego, quando a segunda e terceira gerações substituíram os primeiros colonos vindos de Jerusalém, sua linguagem, o hebreu, ficou tão antiquada que poucos conseguiam ler seus livros religiosos sagrados.

Os Ptolomeus e a Biblioteca de Alexandria

Quando Alexandre Magno morreu repentinamente em 323 a.e.c., o vasto império que criara foi repartido entre seus generais, e o Egito coube a Ptolomeu, filho de um obscuro comandante de guarnição macedônio chamado Lagos, que tivera a sorte, ou a perspicácia, de casar-se com uma segunda prima em segundo grau e ex-amante de Filipe da Macedonia, o pai de Alexandre.

Prostitutas, de deusas à escória da sociedade

Que a prostituição é popularmente conhecida como a profissão "mais antiga do mundo", todos sabem. E, desde que o mundo é dito civilizado, sempre houve prostitutas pobres e prostitutas de elite. O lado desconhecido dessa história é que a imagem a respeito delas nem sempre foi a que temos atualmente. As meretrizes já foram admiradas pela inteligência e cultura, e também já foram associadas a deusas - manter relações sexuais com elas era necessário para conseguir poder e respeito.

Impérios: Os fenícios

Os fenícios apareceram na história em torno de 1200 a.e.c., um tempo em que a maioria do mundo civilizado estava sendo infestada por bárbaros. No vácuo político e militar dos 400 anos da antiga idade das trevas, este pequeno grupo de comerciantes puderam prosperar e gradualmente ampliar sua influência. Em vez de adquirir um império físico de terras contínuas, construíram gradualmente em lugar disto uma grande rede comercial e colonial tendo seu estreito território como lar e algumas cidades independentes ao longo da costa do que é agora o Líbano. Eles eram os restantes dos Canaanitas (povo de Canaã), e Semitas que ocuparam as cidades-estados ocupadas nesta região antes de 1200 a.e.c.

Em Olímpia, a corrupção já manchava os Jogos

Tudo o que faz a glória e a vergonha do esporte no século XXI já existia na Grécia antiga: treinamento intensivo, dietas, transferências de clubes, profissionalismo, semiprofissionalismo, amadorismo e doping. O dinheiro, claro, também estava presente. Desde que os Jogos Olímpicos passaram a ser organizados oficialmente, os atletas foram remunerados. Quando se tornaram disputas entre as cidades, nas quais o prestígio nacional ou local estava em jogo, as autoridades passaram a patrocinar seus representantes. Mantinham colégios de atletas e, quando não conseguiam formar nenhum campeão, compravam um no estrangeiro.

Guerra do Peloponeso: estratégias, custos e objetivos de Esparta e Atenas

A força e as esperanças de Atenas repousavam sobre sua magnifica frota moral. Em seus portos, havia pelo menos trezentos navios de guerra em condições de enfrentar o mar, além de outros que poderiam ser reformados e utilizados em caso de necessidade. Seus aliados livres - Lesbos, Quios e Córcira - tambem poderiam fornecer navios, talvez mais de cem no total.

O século de Péricles
Péricles deu o seu nome ao século em que viveu, para nos o século V antes da era cristã. Grande honra, desde que merecida. Vejamos primeiramente os limites desse "século". Péricles, apos uma breve luta politica contra os seus adversários atenienses, fora e dentro do seu partido, alcançou o poder em 461. A partir desta data, é o único dirigente da cidade de Atenas, não contando um brevíssimo eclipse de alguns meses, ate a data da sua morte, em 429. Este século reduz-se a um terço de século: dura trinta e dois anos. É certo que, durante este período, os acontecimentos políticos se precipitam em ritmo acelerado. As obras-primas sucedem-se umas as outras. Poucos são, nestes trinta e dois anos, os que não vejam o nascimento de uma ou várias das mais deslumbrantes obras que jamais produziu a historia dos homens. Obras de mármore ou de bronze, obras de matéria poética, obras de pensamento cientifico.
A importância das Musas em Hesíodo e Homero

Aparentemente a Teogonia parece-nos apenas um mero catalogo de nomeações divinas, mas em uma analise mais profunda de seu conteúdo podemos perceber que todo o relato hesiódico vai muito além de nomeações olímpicas, Hesíodo ao compor a Teogonia expôs genealogicamente as gerações divinas e os mitos cosmogônicos, é importante ressaltar que esta ordenação genealógica, não deve ser entendida como uma ordem cronológica pois no tempo mítico não é presente essa relação de "antes e depois" o mito em si não é cronológico ele é contínuo, o tempo e a temporalidade se subordinam ao exercício dos poderes divinos e a ação e presença das potestades divinas

Os feitos e a natureza de Demeter
Embora suas sacerdotisas iniciem as noivas e os noivos nos segredos do ato matrimonial, Demeter, a deusa dos trigais, não tem seu próprio esposo. Quando ainda era jovem e alegre, ela pariu Core e o robusto laco fora do matrimonio, filhos de seu irmão Zeus. Também deu a luz Pluto, apos deitar-se com o titã Jásio, por quem se apaixonara durante o casamento de Cadmo e Harmonia. Estimulados pelo nectar que fluía como água no banquete, os dois amantes saíram furtivamente da casa e se deitaram em um campo arado três vezes. Ao retornarem, adivinhando o que haviam feito pela expressão de seus semblantes e pelo barro que tinham nos braços e nas pernas, Zeus enfureceu-se com Jásio por ter-se atrevido a tocar Demeter, fulminando-o. Mas há quem diga que Jásio foi morto por seu irmão Dárdano, ou que foi despedaçado pelos próprios cavalos.
Os túmulos dos Átridas
Os feitos e a natureza de Posídon
Teseu, o herói que inspirou Imortais
Hera e seus filhos
As galeras de guerra da Antiguidade
A origem líbia de Atena
A criança e a guerra na Grécia Antiga
Diálogo mítico entre oriente e ocidente
Os deuses e os homens
No decurso de dez séculos de existência, e mais ainda, a vida religiosa dos Gregos tomou formas muito diversas: nunca teve forma dogmática, o que para nos simplificaria o seu conhecimento. Nada na religião grega se parece com um catecismo ou com uma aparência de pregação. A menos que os espetáculos trágicos e cômicos possam ser chamados "pregação". E podem-no, num sentido que precisaremos adiante. Acrescentemos que não existe, por assim dizer, na Grécia, qualquer clero, e se o há não tem influencia - excluindo os oráculos dos grandes santuários. São os magistrados da cidade que, entre outras funções, realizam certos sacrifícios e dizem certas orações. Estes atos rituais constituem uma tradição ancestral que os cidadãos não pensam sequer contestar. Mas as orações são extremamente livres, podem mesmo dizer-se flutuantes. A crença conta menos do que o gesto ritual que se executa. Uma espécie de aceno de mão, um beijo atirado com as pontas dos dedos à essas grandes potestades, cuja importância na existência humana às massas populares, como os intelectuais, raramente separados da massa, estão de acordo em reconhecer.
Sólon e o caminho para a democracia
Ulisses e o mar
A Ilíada e o Humanismo de Homero
Na terra grega, o povo grego
A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.
Gregos... Bárbaros são os outros.
Os Gregos no Egito
O Nascimento de Uma Nação
A presença humana na península Balcânica data do período neolítico há milhares de anos. Vestígios indicam que os pélagos foram os primeiros habitantes da região. Eram, provavelmente, de origem mediterrânea. Os cretenses, no entanto, são apontados por especialistas em história da Grécia como os pioneiros mais importantes da civilização. Sua presença predominou por toda região do Egeu. Tantos os pélagos quanto os cretenses, enfim, devem ser considerados povos anteriores aos gregos- ou, como chamam alguns, povos pré-helênicos. A história do mar Egeu e seus povos tem suas origens ligadas à ilha de Creta. Por volta de 1800a.C., as cidades de Cnossos e Faístos, na ilha da Grécia, atingiram o seu apogeu de prosperidade como civilização. Até que o palácio de Cnossos foi destruído entre cem e duzentos anos depois. Formou-se, então, uma nova dinastia, à qual se devem diversas transformações, inclusive o tipo de escrita que floresceu naquela época. Os cretenses chegaram a experimentar um segundo momento de apogeu, cerca de cinquenta anos mais tarde. Isso aconteceu quando seus domínios atingiram a Ásia Menor, fato que lhes permitiu recostruir Tróia, e a Grécia continental, onde fundaram Tirinto e Micenas. Os chamados "povos do mar" vieram em seguida aos cretenses. Eles surgiram pelos fins do século XVa.C., e eram também considerados predecessores bem próximos dos povos gregos. Eram os aqueus, de origem indo-européia.
A cólera de Poseidon
De acordo com Tucídides, ao mesmo tempo que a terra tremia naquela parte da Grécia, a costa leste do país era atingida por abalos seguidos de tsunamis que devastaram pontos do litoral do continente e da ilha de Eubeia. No parágrafo 89, o autor apresenta uma viva descrição do ocorrido: E nesse período de terremotos contínuos, o mar em Oróbias, na Eubeia, recuou de onde então era praia e em seguida veio de volta em forma de volumosa onda, desabando sobre parte da cidade. Um tanto da água infiltrou
A guerra naval no século III a.e.c.
As grandes batalhas navais do século V, quando os Gregos derrotaram os invasores persas e Atenas e Esparta competiram pela supremacia, foram travadas e ganhas por esquadras de trirremes. As provas referentes a este tipo de navio são relativamente abundantes, provindo uma grande parte da literatura e da epigrafia da Atenas clássica e das escavações dos estaleiros do Pireu. A reconstrução de uma trirreme, na década de 80 do século XX, e os seus extensos testes no mar, aumentaram enormemente os
A guerra no século III a.e.c.
O sistema militar romano tinha como único proposito a aplicação maciça e constantemente renovada de pressão sobre a frente inimiga. As segunda e terceira linhas não eram verdadeiras reservas no sentido moderno do termo, e só nas legiões mais experientes eram capazes de manobrar. A instrução e a tática da legião adequavam-se às mil maravilhas as batalhas formais e quase ritualizadas da época. O campo de marcha, com a sua disposição formal e as amplas vias entre as linhas de tendas e atrás das
O Estado romano na era das Guerras Púnicas
Em 338, após acesa contenda, foi debelada a última grande rebelião das outras cidades latinas contra Roma. Depois deste conflito, a colonização romana seguiu um padrão de absorção acelerada do resto de Itália. Alguns territórios foram confiscados e utilizados para estabelecer colônias de cidadãos romanos e latinos. Muitas famílias nobres da Campânia, que permanecera leal a Roma, receberam a cidadania e foram incorporadas na elite governante romana. A Liga Latina foi abolida e os romanos não
Os enigmáticos etruscos
Um dos traços desse povo é a beleza artística e o grande número de afrescos funerários. Ao contrário dos gregos, cujas obras das épocas arcaica e clássica desapareceram, os etruscos tiveram a feliz ideia de decorar seus hipogeus, que são tumbas subterrâneas. Essa condição protegeu a arte, hoje exposta em condições especiais na Tarquínia, por exemplo, no museu ou no próprio sítio arqueológico da antiga necrópole de Monterozzi. Em 1985, também na Tarquínia, foi descoberta uma nova sepultura
A Outra Esparta
A influência espartana agora dominava a Grécia inteira. Mas, sem o menor tato, os espartanos instalavam governadores militares impopulares ou apoiavam oligarcas que perseguiam os opositores políticos. O resultado? Mais guerra, dessa vez promovida por um novo poder: a cidade de Tebas, ao norte de Atenas. O confronto decisivo entre a desafiante e a campeã aconteceu na Batalha de Leuctra, em 371 a.C. A derrota de Esparta foi completa. A cidade virou ruínas. Tornou-se irrelevante e foi absorvida
Prostitutas da Antiguidade
O fato de todos dependerem dos préstimos da lua para a propagação da espécie, da fertilização dos animais e das plantas, enfim, da boa colheita anual, em todos os sentidos, é que provocou, desde a mais remota antiguidade, um tipo especial de hieròs gámos, de casamento sagrado, uma união sagrada, de caráter impessoal. Trata-se das chamadas hierodulas, literalmente, escravas sagradas, porque adjudicadas, em princípio, a um templo, ou ainda denominadas prostitutas sagradas, mas sem nenhum sentido
Platão, o primeiro cristão
egundo artigo do pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagern, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fábio Della Paschoa Rodrigues, intitalado Amor e Neoplatonismo em Camões, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, fllósofos cristãos da Idade Media, 'apropriam-se' dos clássicos gregos e latinos porque acreditavam que a fiosofia amiga, sobretudo a de Aristóteles e Platão, podia ser reutilizada a luz de uma nova interpretação cristã. "Como assinalou Flemâni Cidade (Cf. Cidade, 1967:168), as idéias de Platão estavam em voga no século XVI devido ao movimento de reação antiaristotélico". Dessa maneira, o "filósofo do arnor" arrebatou diversos seguidores, quase religiosos. ".Ninguém melhor que o fllósofo para falar de tão elevado tema, através de suas alegorias com encanto poético. Além dlisso, 'sua doutrina era parecida com a da tradição cristã, que os poetas podiam exprimir pelos termos de uma a essência da outra, como confundindo na mesrna corrente de lírica inspiração águas manadas de fontes diferentes, mas do mesmo veio subterrâneo' (Cidade, 1967:169). Os poetas bebem dessas fontes, mas não se contentando com o sabor, alteram-nas de modo a tomá-las agradáveis a seu paladar. Eles procuram no platonisrno uma maior dligniflcaçao intelectual, encontrando nele a expressão filosófica do amor cristão"
A farmácia de Epicuro
Na cultura ocidental, o homem sempre se perguntou sobre o fim último da vida, e diversas respostas marcararn diferentes momentos da história de nossa civilização. Algumas dessas respostas foram importantes no processo de construção de nossa cultura. Por exemplo, para Aristóteles, o fim ultimo da vida è a busca da felicidade pela prática da virtude. Para Os pensadores cristãos, por outro lado, seria a salvação da alma conquistada pela prática da moral cristã. Uma terceira resposta foi formulada por Aristipo de Cirene, nascido em Cirene, cidade egipcia fundada por colonos gregos. Ele viveu provavelmente entre 435 e 356 a.e.c. O seu pensamento hedonista foi sistematizado por Epicuro (341-323 a.e.c), nascido na Cidade de Samos, pertencente a uma região grega recornhecida como Jônia, filho de um professor e de uma espécie de conselheira, que exercia uma atividade de vidente, feiticeira, atividade bem comum na sociedade grega.
O gás do Oráculo de Delfos
A tradição atribuía a inspiração profética do poderoso oráculo a fenômenos geológicos: uma fenda na terra, um vapor que subia dela e uma fonte de água. Há mais ou menos um século, os estudiosos rejeitaram esta explicação quando os arqueólogos, escavando o local, não encontraram qualquer sinal de fenda ou gases. Mas o antigo testemunho está bastante difundido e provém de várias fontes: historiadores como Plínio e Diodoro, filósofos como Platão, o dramaturgo Esquilo e o orador Cicero, o geógrafo
Atlântida
Em dois de seus diálogos, Timeu e Crítias, conta Platão que Sólon, quando de sua viagem ao Egito, interrogara alguns sacerdotes e um dels, que vivia em Saís, no Delta do Nilo, lhe relatou tradições muito antigas relativas a uma guerra entre Atenas e os habitantes da Atlântida. Esse relato do filósofo ateniense se inicia no Timeu e é retomado e ampliado num fragmento que nos chegou do Crítias. Os Atlantes, segundo o sacerdote de Saís, habitavam uma ilha, que se estendia diante das Colunas de
Alexandre Magno na Índia
Quando, oito meses depois da invasão da Índia, nos começos de 325 a.e.c., chegaram às braçadas finais do rio, ele decidiu separar suas forças em três corpos. Não era possível enfrenta o mar aberto com os navios da frota, pois eram insuficientes para transportar os soldados. Parte deles foi mantida a bordo sob o leme de Nearco, com a missão de enfrentar o Oceano Índico e ir encontrar-se com Alexandre depois, navegando pelo Golfo Pérsico. (Nearco, de origem cipriota, autor do livro de viagens
500 anos de Trevas
Assim que Champollion começou a decifrar a escrita egípcia, na década de 1820, foi dada a largada para uma corrida maluca: todo arqueólogo queria ser o descobridor de um novo faraó. Como guia para a tarefa, escolheram a lsita do escriba Maneton, uma relação de 30 dinastias de rei egípcios escrita no século 3 a.e.c.. por encomenda do farató Ptolomeu II (de origem grega), com o objetivo de estabelcer uma correlação entre as culturas egípcia e grega. A lista tinha uma temporal aparentemente
As subversivas e sedutoras amazonas
As amazonas pertencem ao domínio da transgressão. Essas guerreiras mitológicas simplesmente desprezavam os valores femininos vigentes na Antiguidade. Por isso, os gregos as viam como um desafio a qualquer
O Oráculo de Delfos
Como a procura pelas previsões era muita, marcar uma audiência demorava um bom tempo, obrigando a que, com o passar dos anos, outras instalações fossem construídas para abrigar os visitantes, formando um verdadeiro complexo de pequenos santuários
Orfismo
Falar de Orfismo é, no fundo, descontentar a gregos e troianos. Apesar dos pesares, vamos nós também entrar na guerra… Na realidade, o Orfismo é um movimento religioso complexo, em cujo bojo, ao menos a partir dos séculos VI-V a.C, se pode detectar uma série de influências (dionisíacas principalmente, pitagóricas, apolíneas e certamente orientais), mas que, ao mesmo tempo, sob múltiplos aspectos, se coloca numa postura francamente hostil a muitos postulados dos movimentos também religiosos supracitados. Embora de maneira sintética, porque voltaremos obrigatoriamente ao assunto mais abaixo, vamos esquematizar as linhas básicas de oposição entre Orfeu e os princípios religiosos preconizados por Dioniso, Apolo e Pitágoras.
Vida após a morte na Grécia Antiga
Na Grécia, ao que tudo indica, somente a partir do Orfismo, lá pelo século VII-VI a.e.c., é que o Hades, o Além, foi dividido em três compartimentos: Tártaro, Érebo e Campos Elísios. O fato facilmente se explica, é que o Orfismo rompeu com a secular tradição da chamada maldição familiar, segundo o qual não havia culpa individual, mas cada membro do guénos era co-responsável e herdeiro das faltas de cada um de seus membros, e tudo se quitava por aqui mesmo. Para os Órficos a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; e quem não se purgar nesta vida, pagará na outra ou nas outras. Havendo uma retribuição, forçosamente terá que existir, no além, um prêmio para os bons e um castigo para os maus e, em conseqüência, local de prêmio e de punição.
Hoplita, exército de cidadãos livres
Há uma dezena de anos, o mundo dos especialistas em Antiguidade grega foi abalado pelo trabalho de Victor Davis Hanson, professor da Universidade da Califórnia. Desde então, as polêmicas não cessaram de circular ao redor das hipóteses e idéias apresentadas no livro O Modelo Ocidental da Guerra, com um subtítulo mais explícito: A Batalha da Infantaria na Grécia Clássica. Examinando de perto o sistema político-econômico das cidades gregas e as narrativas das batalhas de época, o historiador propõe
Foi Péricles quem fez!
Temístocles reconstruiu a muralha de Atenas. Címon decorou e equipou a praça pública, o bairro da Cerâmica e a Acrópole. Mas o verdadeiro “fazedor de obras” ateniense foi Péricles. O patriota Péricles desejava que a beleza de Atenas estivesse à altura de seu prestígio. Ao iniciar essas grandes transformações, ele garantia também trabalho aos atenienses. Dois trunfos permitiram que ele colocasse seus planos em execução: o decreto de 450 a.C. que lhe dava o direito de dispor do dinheiro necessário
Os Cultos de Dioníso
Dionísias Rurais - Celebravam-se no mês Posídon, o que corresponde, mais ou menos, à segunda metade de dezembro. São as mais antigas das festas áticas de Dionisio, mas pouco se sabe, até o momento, a respeito das mesmas. Realizavam-se apenas nos
Religião na Grécia Antiga
Enquanto no Oriente a atividade literária, como bem acentuou Nilsson, a conservação da tradição, a especulação e tudo quanto houvesse de ciência estavam nas mãos dos sacerdotes, tudo isto, na Grécia, desde a época mais antiga, era assunto de leigos, de poetas e de pensadores. Quando se tratava de assuntos mais graves atinentes à religião, os mesmos eram resolvidos pela (ekklesía), solicitando-lhes o consetimento através do Oráculo de Delfos, se se tratasse sobretudo de modificar cultos antigos o
Homero e a busca da virtude
Aquela exortação do pai orgulhoso a um filho que parte para a guerra continha a essência dos objetivos de um nobre, de um fidalgo: devotar-se na busca da excelência, sobrelevar-se, tornar-se alguém memorável. Todo o Código do Cavaleiro que por séculos iria orientar a aristocracia helênica baseava-se pois apenas nisso: a obrigação de tentar ser alguém extraordinário, inesquecível, cuja fama correria o mundo. Nada mais podia vir a interessar um autêntico guerreiro, que para tanto devia ser provido
Contribuição Minóica à religião grega
O deus atendeu-lhe o pedido, o que valeu ao rei o poder, sem mais contestação por parte de Sarpédon e Radamanto. Minos, no entanto, dada a beleza extraordinária da rês e desejando conservar-lhe a raça, enviou-a para junto de seu rebanho, não cumprindo o prometido a Posídon. O deus, irritado, enfureceu o animal, o mesmo que Héracles matou mais tarde (ou foi Teseu?) a pedido do próprio Minos ou por ordem de Euristeu. A ira divina, todavia, não parou ai, como se vera. Minos se casou com Pasífae, filha do deus Helio, o Sol, da qual teve vários filhos, entre os quais se destacam Glauco, Androgeu, Fedra e Ariadne. Para vingar-se mais ainda do rei perjuro, Posídon fez que a esposa do Minos concebesse uma paixão fatal e irresistível pelo touro. Sem saber como entregar-se ao animal, Pasifae recorreu as artes de Dédalo, que fabricou uma novilha de bronze tão perfeita, que conseguiu enganar o animal.
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Liberdade e regulação em uma sociedade de mercado
O propósito deste trabalho é examinar criticamente as obras de Émile Durkheim e Karl Polanyi centrando-nos nas convergências que ambos manifestam ao perceber e, de certo modo, antecipar os limites do mercado para apoiar uma ordem social. Embora situados em diferentes contextos históricos e expressando tradições teóricas divergentes, os dois compartilham uma atitude crítica frente à suposta autossuficiência dos mercados autorregulados, pondo a nu os dilemas de uma sociedade de mercado. Com matizes, coincidem ao sugerir que liberdade não equivale a desregulação e que a afirmação da individualidade não deve ser confundida com ausência de regulação. Suas obras podem ser lidas como tentativas de fundamentar a necessidade de uma instância de coordenação, propondo uma conexão entre indivíduo, mercado e Estado que ainda hoje resulta fecunda para considerar esse complexo vínculo. Cada um, à sua maneira, articulou respostas alternativas frente aos riscos de um mercado desregulado, apelando para o amparo à sociedade como um recurso para rebater os efeitos de um mercado exacerbado.
Rússia
A guerra fria
No final da Segunda Guerra Mundial, as duas novas potências pareciam relativamente equiparadas, pois ambas eram potências industriais e tinham população equivalente, os Estados Unidos com 151 milhões e a União Soviética com 182 milhões. No entanto, os dados populacionais eram uma ilusão, pois a cifra soviética era resultado do ocultamento das baixas de guerra e pode ter sido de apenas 167 milhões. A indústria soviética, no entanto, era a terceira em 1940 atrás dos Estados Unidos e da Alemanha, e grande parte dela estava agora em ruínas. A devastação do país era sem precedentes, mesmo na Alemanha, e os Estados Unidos não tinham sofrido nenhum dano de guerra, exceto em Pearl Harbor e nas ilhas Aleutas. A guerra restaurou a prosperidade americana após a Depressão e foi um enorme estímulo para a tecnologia e indústria dos Estados Unidos, como demonstrou o rápido sucesso do projeto atómico. Nessa época, Stalin estava convencido de que, depois da guerra, as "contradições" entre os Estados Unidos e outras potências ocidentais aumentariam. Ele antecipava em especial uma recuperação e rearmamento rápido da Alemanha e do Japão. Poderia haver finalmente outra guerra entre as potências ocidentais. Certos membros da hierarquia soviética questionavam essa visão, indicando que a Inglaterra, apesar de todas as suas diferenças com os Estados Unidos, era fundamentalmente dependente do dinheiro e poder americano, e a
Civilização Indiana
Uma breve história da Índia, da obscuridade aos guptas
Existem varias dificuldades na elaboração de uma síntese histórica da Índia. Para termos uma ideia dessas dificuldades, basta lembrar que a primeira data rigorosa da História da Índia é o ano 326 a.e.c. que assinala a invasão macedônica. Conhecemos, evidentemente, a existência de uma série infinda de acontecimentos que marcaram a vida política da grande península asiática através de milênios: faltam-nos, porém, os meios para uma exposição histórica segura e rigorosa que consiga estabelecer, com exatidão cronológica, a sequência no tempo e no espaço de boa porção dos citados acontecimentos. A Índia conheceu culturas paleolíticas e neolíticas que deixaram numerosos vestígios. A idade dos metais deixou também suas
França
Infância, uma evolução do despudor medieval à moral moderna
Uma das leis não escritas de nossa moral contemporânea, a mais imperiosa e a mais respeitada de todas, exige que diante das crianças os adultos se abstenham de qualquer alusão, sobretudo jocosa, a assuntos sexuais. Esse sentimento era totalmente estranho à antiga sociedade. O leitor moderno do diário em que Heroard, o médico de Henrique IV, anotava os fatos corriqueiros da vida do jovem Luís Xlll ' fica confuso diante da liberdade com que se tratavam as crianças, da grosseria das brincadeiras e da indecência dos gestos cuja publicidade não chocava ninguém e que, ao contrário, pareciam perfeitamente naturais. Nenhum outro documento poderia dar-nos uma ideia mais nítida da total ausência do sentimento moderno da infância nos últimos anos do século XVI e início do XVII.
Filosofia Clássica
Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos
Platão, o mais 'nobre' dos discípulos de Sócrates, foi o seu mais fiel defensor e o que mais fez referências a ele, a tal ponto que os estudiosos chegam a ter certa dificuldade em separar as ideias e conceitos de Sócrates, que nunca escreveu nada, das ideias e conceitos do próprio Platão, que se tornou assim, a voz socrática que ecoa ao longo dos milênios. Platão nasceu em berço de ouro no V século antes da era comum mais precisamente em 428, e morreu em 347. Sua educação, como a de qualquer cidadão de família aristocrática, foi voltada ao governo e a guerra, educado nas letras clássicas e nos esportes, fato comprovado pelo seu epiteto 'Platão' que significa 'costas largas'. Platão era o filósofo atleta. Não há relatos sobre sua vida amorosa, diferentemente de Aristóteles que era conhecido por seu amor ao sexo feminino. Platão fora fortemente abalado e influenciado pelo julgamento, condenação e execução de Sócrates, fato que considerava até certo ponto como sua própria culpa.
Civilização
A descoberta da infância
Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo. Uma miniatura otoniana do século XII nos dá uma idéia impressionante da deformação que o artista impunha então aos corpos das crianças, em um sentido que nos parece muito distante de nosso sentimento e de nossa visão. O tema é a cena do Evangelho em que Jesus pede que se deixe vir a ele as criancinhas[1], sendo o texto latino claro: parvuli. Ora, o miniaturista agrupou em torno de Jesus oito verdadeiros homens, sem nenhuma das características da infância: eles foram simplesmente reproduzidos em uma escala menor. Apenas seu tamanho os distingue dos adultos. Em uma miniatura francesa do fim do século XII as três crianças que São Nicolau ressuscita estão representadas numa escala mais reduzida que os adultos, sem nenhuma diferença de expressão ou de traços. O pintor não hesitava em dar à nudez das crianças, nos raríssimos casos em que era exposta, a musculatura do adulto: assim, no livro de salmos de São Luís de Leyde[2] datado do fim do século XII ou do início do XIII, Ismael, pouco depois de seu nascimento, tem os músculos abdominais e peitorais de um homem. Embora exibisse mais sentimento ao retratar a infância, o século XIII continuou fiel a esse procedimento. Na bíblia moraliza da de São Luís, as crianças são representadas com maior freqüência, mas nem sempre são caracterizadas por algo além de seu tamanho. Num episódio da vida de Jacó, Isaque está sentado entre suas duas mulheres, cercado por uns 15 homenzinhos que batem na cintura dos adultos: são seus filhos[3]. Quando Jó é recompensado por sua fé e fica novamente rico, o iluminista evoca sua fortuna colocando Jó entre um rebanho, à esquerda, e um grupo de crianças, à direita, igualmente numerosas: imagem tradicional da fecundidade inseparável da riqueza. Numa outra ilustração do livro de Jó, as crianças aparecem escalonadas por ordem de tamanho.
Civilização
O surgimento do conceito das idades da vida
Um homem do século XVI ou XVII ficaria espantado com as exigências de identidade civil a que nós nos submetemos com naturalidade. Assim que nossas crianças começam a falar, ensinamos-lhes seu nome, o nome de seus pais e sua idade. Ficamos muito orgulhosos quando Paulinho, ao ser perguntado sobre sua idade, responde corretamente que tem dois anos e meio. De fato, sentimos que é importante que Paulinho não erre: que seria dele se esquecesse sua idade? Na savana africana a idade é ainda uma noção bastante obscura, algo não tão importante a ponto de não poder ser esquecido. Mas em nossas civilizações técnicas, como poderíamos esquecer a data exata de nosso nascimento, se a cada viagem temos de escrevê-la na ficha de polícia do hotel, se a cada candidatura, a cada requerimento, a cada formulário a ser preenchido, e Deus sabe quantos há e quantos haverá no futuro, é sempre preciso recordá-la. Paulinho dará sua idade na escola e logo se tornará Paulo N, da turma x.
Cultura
Da aprendizagem tribal nasce a Escola, e com esta, acentua-se a diferença de classes
Mesmo em algumas sociedades primitivas, quando o trabalho que produz os bens e quando o poder que reproduz a ordem são divididos e começam a gerar hierarquias sociais, também o saber comum da tribo se divide, começa a se distribuir desigualmente e pode passar a servir ao uso político de reforçar a diferença, no lugar de um saber anterior, que afirmava a comunidade. Então é o começo de quando a sociedade separa e aos poucos opõe: o que faz, o que se sabe com o que se faz e o que se faz com o que se sabe. Então é quando, entre outras categorias de especialidades sociais, aparecem as de saber e de ensinar a saber. Este é o começo do momento em 'que a educação vira o ensino, que inventa a pedagogia, reduz a aldeia à escola e transforma "todos" no educador.
Civilização
O processo de ensino-aprendizagem nas sociedades tribais
De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante. Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas. Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela existe em cada povo, ou entre povos que se encontram. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade, a educação existe difusa em todos os mundos sociais, entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender; primeiro, sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos.
Psicologia Evolucionista
Quatro questões sobre o comportamento animal
De uma forma ou outra, o comportamento animal tem sido estudado por milhares de anos. O comportamento animal era importante nas eras antigas por alguns dos mesmos motivos que é importante agora. Os caçadores e pescadores mais habilidosos geralmente são aqueles que conseguem fazer previsões sobre o comportamento de sua presa. É importante saber que salmões em desova não respondem à isca do pescador, que os roedores fogem em direção ao escuro enquanto os pássaros fogem rumo à luz e que muitos animais lutarão, alguns ferozmente, quando capturados. Por razões práticas o estudo do comportamento animal ocupou a franja da consciência humana durante séculos. Mais recentemente, quando os animais foram domesticados e postos a trabalhar, se tornou necessário a aprendizagem de algumas coisas sobre eles. Cavalos poderiam ser treinados para serem montados e para puxarem carros ou ferramentas agrícolas. Cães poderiam ser treinados para rastrearem presas ou protegerem os humanos, os gatos não.
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História
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    O propósito deste trabalho é examinar criticamente as obras de Émile Durkheim e Karl Polanyi centrando-nos nas convergências que ambos manifestam ao perceber e, de certo modo, antecipar os limites do mercado para apoiar uma ordem social. Embora situados em diferentes contextos históricos e expressando tradições teóricas divergentes, os dois compartilham uma atit

História
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História
  • Estrutura social na China antiga

    Acima de todos pairava o soberano, senhor de todo o Império: o Filho do Céu, representando o Soberano Senhor do Universo. Suas numerosíssimas atribuições eram exercidas por intermédio de diferentes categorias de funcionários, acima dos quais estavam os altos dignitários. Entre estes podemos distinguir os ministros sem pasta, que constituíam o conselho privado do