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Por Fernando Vidal

Em torno de 1770, o autor de um artigo sobre psicologia numa enciclopédia suiça termina seu texto com a seguinte pergunta: “Qual é a ciência que mereça nossa atenção e que não tenha a psicologia por base, princípio e guia?” Ele acrescenta ainda que sem o conhecimento da natureza, das faculdades, qualidades, estados, relações e destinação da alma humana, nós não podemos julgar nem decidir sobre nada, nem determinar nada, nem escolher, nem preferir nada, nem fazer nada com segurança e sem erro. Assim a psicologia é a primeira, a mais útil de todas as ciências, a fonte, a fundação de todas e o guia que conduz a cada uma delas. (Mingard, 1770-1775: 511-513)

Esta passagem é interessante sob vários aspectos. Primeiro, pela relação que o autor estabelece entre a psicologia e o que ele considera serem as ciências e as questões que mais merecem nossa atenção, principalmente (tal como especificadas no artigo) a teologia e a imaterialidade e a imortalidade da alma, a ética e a identificação de ações morais, a política e o modo de governar os seres humanos, e finalmente a lógica e o modo de adquirir o conhecimento e de distinguir o falso do verdadeiro, o certo do provável. Em segundo lugar, porque o autor relaciona o conhecimento empírico da alma, adquirido através da observação e da experiência, com princípios religiosos ou metafísicos sobre a natureza e a destinação da alma. Em terceiro lugar, porque atribui à psicologia um estatuto didático e prático preeminente em relação às ciências. Além disso, fica implícito que a psicologia era também epistemologicamente singular: tal como explica o artigo, “uma vez que a psicologia não pode extrair seus princípios nem os fatos que sustentam seus argumentos de uma ciência que se poderia supor anterior a ela, ela não busca nem deve buscá-los em nenhum outro lugar fora do próprio objeto de suas investigações (Mingard, 1770-1775: 513). Assim sendo, a psicologia revela-se como a única ciência cuja metodologia deriva do estudo de seu próprio objeto. Tais juízos sobre a ciência empírica da alma indicam seu lugar no pa­norama intelectual do Iluminismo e legitimam a descrição do século XVIII como o século da psicologia (Gilson e Langan, 1964: 225). A psicologia conquistou essa posição através dos mecanismos intelectuais e sociais que fizeram dela uma disciplina genuína. No século XVIII, a psicologia não pôde se tornar uma profissão acadêmica; na época, tais profissões eram apenas o direito, a medicina e a teologia. Os outros ramos do conhecimento ensinados nas universidades - as “artes” da gramática e da retórica e as “ciências” da lógica, da ética, da física’ (o estudo da natureza) e da metafísica —eram subordi­nados àquelas três faculdades “superiores” e serviam como preparação para elas. Enquanto tratava de fenômenos empíricos relacionados à alma em sua ligação com o corpo, a psicologia era ensinada no curso de física; enquan­to tratava da natureza e da essência da alma, como separada do corpo, ela pertencia à metafísica.

A psicologia no século XVIII não era, portanto, uma profissão institucionalizada. No entanto, ela era uma disciplina - se considerarmos o termo disciplina como uma estrutura social e intelectual caracterizada pela existência de indivíduos que reconhecem a si próprios como seus praticantes; por um conjunto de saberes, problemas, regras, métodos, divergências e debates considerados relevantes; por uma terminologia comum; por publicações, incluindo jornais, além de pessoas identificadas como pertencentes ao domínio em questão ou dotadas de uma autori­dade intelectual especial; por sua presença nos currículos acadêmicos e nos materiais de ensino (em manuais ou capítulos de livros didáticos, por exemplo). 

Tudo isso pode existir na ausência de instituições específicas tais como departamentos de universidades, cátedras ou sociedades. É neste sentido de disciplina, que combina o sentido tradicional da palavra com os significados que ela tem na sociologia da ciência, que a psicologia no século XVIII alcançou a consistência e a magnitude que, como veremos abaixo, levaram Immanuel Kant a declarar que ela deveria ganhar o esta­tuto de disciplina universitária autônoma.

 

O limbo historiográfico contra a autoconsciência metodológica

Em geral, os livros de história da psicologia não consideram a psico­logia do século XVIII uma disciplina e situam-na no limbo de uma “pré-história” ou de uma história “pré-científica”, resumindo as ideias psicológicas dos filósofos iluministas mais importantes. A psicologia, escreveu o eminente experimentalista Herman Ebbinghaus (1850-1909),“tem um passado longo, mas uma história breve” (Ebbinghaus, 1910: 9). Essa frase, tão frequentemente citada, é normalmente interpretada da seguinte maneira: a psicologia empírica e naturalista só teve início nos laboratórios da Alemanha no final do século XIX. Desse modo, acredita-se que a psicologia do século XVIII pertença ao seu passado científico, mas não à sua história. Mas, mesmo que ela não fosse experimental, seria inexato negar a existência de uma psicologia empírica no século XVIII. A psicologia podia não ter laboratórios, mas era concebida como uma disciplina de pesquisa empírica comprometida com a perspectiva naturalista que excluía a alma como um princípio explicativo; por exemplo, ela analisava o pensamento em sua relação com a sensação em lugar de remetê-lo à natureza da substância imaterial e imortal. 

A razão pela qual a psicologia do século XVIII foi julgada “pré-científica”, “filosófica”, ou “especulativa” parece derivar da suposição de que a psicologia natural-científica deveria ser necessariamente quantita­tiva, experimental e independente de propósitos metafísicos ou religiosos. Contudo, a partir de seus próprios termos, a psicologia do século XVIII pode ser considerada uma ciência natural (Hatfield, 1994). Os psicólogos incluíam sua disciplina no estudo da natureza, davam relevo ao estudo dos fenómenos, recusavam-se a discutir a alma como conceito metafísico e apelavam à observação, à experiência, ao método de “análise”, e mesmo à experimentação. Além disso, seguindo o modelo das ciências físicas, eles formulavam hipóteses e esperavam chegar a algum cálculo psicológico.Tudo isso, devemos reconhecer, era fundamentalmente programático e muitas supostas observações não eram mais que ficções conceituais e experimentos intelectuais. Porém, mesmo isso não escapava aos autores do século XVIII.

Já a partir da década de 1750, havia na Alemanha animadas discus­sões metodológicas. Em 1770, o filósofo deYena Christian Gottfried Shütz (1747-1832), um dos primeiros kantianos, discutiu a questão relativa às dificuldades que resultavam do fato de que a alma é ao mesmo tempo o observador e o observado, o sujeito e o objeto da investigação. Ele assinalou, por exemplo, que mesmo a mais atenta introspecção não consegue atingir muitos fenômenos, tais como os afetos, as percepções obscuras ou rapida­mente concatenadas, os processos graduais de mudança psicológica, ou as primeiras fases do desenvolvimento. Ele examinou rigorosamente os métodos empírico e sintético e era particularmente crítico do método analítico. Este método, cujo teórico mais importante era o filósofo francês Etienne Bonnot de Condillac (1715-1780), visava à “composição” e à “decomposição” de ideias de modo a reduzi-las às mais simples, que podiam ser remetidas às sensações. Schütz caracterizava-o como “o método de conexão arbitrária” (in Bonnet, 1770: 205). O exemplo principal era a estátua imaginada por Condillac no Tratado das sensações (1754) e pelo naturalista e filósofo suíço Charles Bonnet (1720-1793) no Ensaio analítico sobre as faculdades da alma (1760), estátua que, a partir da exposição de estímulos sensoriais separados,

gradualmente tornava-se um ser pensante. No entanto, Shütz acabou favorecendo uma integração dos três métodos: o método empírico, para esta­belecer os fenômenos; o analítico, para desenvolver hipóteses com base nas observações feitas; e o sintético, para derivar dedutivamente os fenômenos das hipóteses formuladas.

Uma década depois Jean Trembley (1749-1811), um discípulo de Bon­net, autor de alguns dos mais conhecidos trabalhos de psicologia publicados no século XVIII, advogava em favor da tese de que a psicologia deveria seguir a física. Bonnet defendia o papel construtivo da hipótese. Trembley, que estava de acordo com ele quanto a isso, explicava que a física “progrediu apenas depois que se tornou experimental, e que passou a calcular efeitos sem se preocupar com as causas” (Trembley, 1781: 274).

A psicologia deveria imitá-la não somente em seus princípios ontoló­gicos, epistemológicos e metodológicos, mas também em sua estrutura como disciplina. O problema com a psicologia é que, como cada autor tenta construir “todo um sistema”, não se consegue examinar nada com profundidade. A física, por sua vez, avançou na medida em que os físicos enfocaram ramos específicos dessa ciência. A psicologia deveria seguir seu exemplo:

Por que razão alguns autores não se fixam na investigação psicológica dos sentidos, na maneira pela qual conhecemos e julgamos os objetos; e outros na história das crianças e mesmo dos animais que, uma vez que são seres dotados de sensibilidade, são em muitos aspectos semelhantes a nós; outros na história das paixões ou nos diferentes tipos de ações dos homens na sociedade; outros na filosofia da história, etc. A psicologia tornar-se-ia assim uma ciência igualmente vasta e luminosa; cada dia lhe traria novas riquezas e talvez um dia nós pudéssemos reunir todas essas riquezas e ousar empreender uma teoria do homem. Sem dúvida essa é a maneira mais importante de fazer progredir esta ciência (...). (Trembley, 1781; 292-293)

O progresso da psicologia dependia do uso de métodos empíricos em combinação com a especialização. A tendência a elaborar sistemas psicológicos tais como os que Trembley criticava continuou por todo o século XVIII. Apesar disso, a crítica de Trembley era um reflexo da atitude naturalista daquela época, reforçada pelas tentativas de aplicar o raciocínio matemático ou os modelos físicos aos fenômenos e mecanismos mentais, de combinar observações médicas e psicológicas, de discutir a base anatômica da alma ou de conceituar a fisiologia das interações mente-corpo.

Tal como ilustrado pela obra de Wilhelm Wundt (1832-1920), con­siderado o próprio “pai” da psicologia científica, mesmo a ciência que se institucionalizou nas décadas finais do século XIX estava longe de ser ex­clusivamente experimental. A ênfase na ciência de laboratório correspondia aos interesses de uma consolidação institucional. Nos Estados Unidos ela era aclamada como “a nova psicologia”. O livro publicado em 1897 por Edward Wheeler Scripture (1864-1945), um especialista em psicologia da fala e da fonética experimental, recebeu este nome. Esta denominação foi também adotada depois por outros autores. Na França,Théodule Ribot (1839-1916) deu ao seu livro de 1879 A psicologia alemã contemporânea,o subtítulo “escola experimental”; desse modo ele chamava atenção para o que deveria ser uma psicologia positiva e científica. Ao final do século XIX, a psicologia acadêmica do Iluminismo já havia sido relegada para o “passado” da disciplina, de tal modo que poderíamos bem pensar que “o século da psicologia” não tinha mais nenhuma relação com ela. No entanto, agora é preciso reconfigurá-la como objeto legítimo da história da disciplina.

 

Psicologia: A palavra e o conceito

A palavra psychologia popularizou-se inicialmente nos textos sobre a Alma usados nas universidades protestantes da Alemanha. Ela apareceu na década de 1570 e foi impressa como título pela primeira vez (em caracteres gregos) em 1590 em uma coletânea de discussões sobre a origem e a transmissão da alma racional (Goclenius, 1590). Psychologia era um neologismo conveniente para introduzir os estudantes no sistema geral das ciências, na medida em que ajudava a localizar a scientia de anima e indicar suas rela­ções com as outras disciplinas. Enraizava-se intelectualmente no retorno do aristotelismo e na adoção, dentro das novas universidades protestantes, do método “escolástico” de raciocínio, caracterizado pela sistematização dedutiva, o formalismo lógico e o rigor conceitual no tratamento da controvérsia filosófica, doutrinal e religiosa (Vidal, 2006).

De acordo com Aristóteles, a alma era definida como a “forma” do corpo natural que potencialmente tem vida (De anima, 412-420). Um cor­po “animado” — empsuchos é a palavra grega original —é, portanto, um tipo de matéria dotada de alma (psuchè, anima), e, portanto, capaz de realizar as funções que definem os organismos vivos. A alma era dotada de diferentes poderes ou faculdades (às vezes também apresentados como diferentes tipos de alma): vegetativa (incluindo nutrição, crescimento e reprodução); sensível (incluindo os sentidos externo e interno, movimento físico, as paixões e ou­tros apetites sensíveis); e racional ou intelectual (incluindo o entendimento, o juízo e a vontade) (Michel, 2000). Os seres dotados de alma eram hierarquizados de acordo com as faculdades que eles possuíam: as plantas tinham apenas uma faculdade vegetativa; os animais não humanos tinham a vegetativa e a sensível; e os humanos tinham as três faculdades (vegetativa, sensível e ra­cional). 

Psychologia era, portanto, o nome da ciência geral dos seres vivos e servia como introdução à investigação naturalista das plantas, dos animais e dos humanos. E por esta razão que o estudo do homem ou antropologia (tal como foi chamado nos séculos XVI e XVII) era um ramo da psicologia e não o contrário; é por isso também que ela era frequentemente entendida como uma descrição anatómica do corpo humano.

Ainda que a psicologia fizesse parte do conjunto das ciências naturais, a compreensão de que os humanos eram dotados de um intelecto imaterial e a alma supostamente persistia depois da morte fazia com que os discursos sobre a alma fossem por vezes situados no campo da metafísica. A acepção metafísica do conceito ficou ainda mais evidente quando, depois de des­feito o quadro do pensamento aristotélico, a alma deixou de ser entendida como princípio da vida, responsável pelas funções não intelectuais, passando a ser idêntica à mente, à razão, à consciência. O livro de John Broughton intitulado Psychologia: or An Account of the Nature of the Rational Soul, uma descrição da natureza da alma racional), publicado em 1703, é um exemplo interessante (Broughton, 1703). O autor, um clérigo protestante, tentou demonstrar com o maior rigor que os seres humanos são compostos de duas substâncias heterogêneas. Sua argumentação metafísica se desdobrava, de modo puramente apriori, numa defesa da noção de substância (na época, bastante criticada) como constituindo o substrato, a essência e a condição da existência das coisas (como um princípio explicativo). Seu tratado é um exemplo do tipo de trabalho que fazia com que o termo psicologia fosse difícil de aceitar por aqueles que pretendiam fazer uma ciência empírica da mente. Mas também revela as mudanças no cenário intelectual que abriram espaço para a disciplina da psicologia tal como ela se desenvolveu no século XVIII, a saber, a “mecanização” das funções vegetativa e sensível e a identificação da alma com a mente.

 

Psicologia e psicologização

Em suas aulas de 1770, Immanuel Kant (1724-1804) explicava que a psicologia empírica tinha permanecido no campo da metafísica não apenas porque os limites da metafísica haviam sido mal estabelecidos, mas também porque a psicologia não era suficientemente ampla e sistemática. Mas chegara o momento de a psicologia se tornar uma disciplina acadêmica:

A razão pela qual a psicologia foi situada no interior da metafísica é evidentemente a seguinte: ninguém nunca soube realmente o que é a metafísica, apesar de ter sido por tanto tempo objeto de muita explanação. Não se sabia como determinar as fronteiras de seu território e por isso muito do que nele foi posto não era cabível(...). A segunda razão era evidentemente esta: a doutrina empírica dos fenômenos da alma não tinha chegado a qualquer sistema que pudesse constituir uma disciplina acadêmica separada. Se ela fosse tão extensa quanto a física empírica, então ela teria sido separada da metafísica. Mas sendo muito pouco extensa e como não se quis descartá-la inteiramente, empurraram-na para a metafísica (...). Mas ela já se tornou muito ampla e logo atingirá uma magnitude quase tão grande quanto a da física empírica. (Kant, 1968: 223-224)

A previsão de Kant para a psicologia empírica como uma disciplina científico-natural começou a se confirmar na segunda metade do século XVIII, nas universidades da Alemanha. Nessa época, a psicologia empírica não tinha cátedras ou departamentos, mas entrou no ensino acadêmico, tornou-se um capítulo nos manuais de filosofia e começou a se disseminar  em periódicos e manuais. Esse processo foi acompanhado do que poderíamos descrever como a psicologização da cultura ilustrada.

Ainda no século XVIII, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) foi identificado como o pioneiro indiscutível da tendência psicologizante; seu Essay on Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano), de 1690, foi devidamente descrito como o “evangelho psicológico” do Iluminismo (Becker, 1955: 64). O historiador da filosofia Gary Hatfield observa justamente que “o empirismo de Locke é bem distinto da tese psi­cológica de que as habilidades perceptivas humanas são adquiridas através da experiência”. Ele nos alerta para o equívoco de interpretar de modo psicologizante os primeiros autores modernos e do Iluminismo, porque para muitos desses autores “estudar o intelecto humano não era um esforço em fazer com a que a psicologia explicasse a lógica ou a epistemologia, e muito menos praticar a psicologia tal como nós a entendemos hoje, mas investigar a própria faculdade lógica e epistêmica” (Hatfield, 1990: 11-12). De fato, o Ensaio de Locke era considerado como uma lógica e não como uma protopsicologia. Contudo, a interpretação psicologizante de Locke se impôs já no século XVIII e foi crucial para o estabelecimento das tarefas e dos contornos da psicologia empírica.

O empirismo, uma corrente filosófica dominante nesse século, de­fine os elementos básicos da psicologização do século XVIII: rejeição das ideias inatas; crítica dos “sistemas” e da metafísica abstrata e substancialista; apelo à observação e à experiência; e, finalmente a convicção de que todo o conhecimento começa com as impressões sensíveis, de que as ideias correspondem a essas impressões e que as ideias complexas podem ser “de­compostas” em elementos mais simples. O sensacionalismo, uma forma de empirismo estreitamente ligado, nesse contexto, a Condillac e seu Essai sur Vorigine des connaissances humaines (Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos) (1754), vai mais adiante e tende a compreender o conhecimento como coextensivo à sensação.

Em razão da projeção que o empirismo e o sensacionalismo alcança­ram no cenário intelectual do Iluminismo, os historiadores observaram que, no século XVIII, a psicologia (no sentido do discurso psicológico) tornou-se a disciplina básica e estratégica dentro do conjunto das ciências humanas e filosóficas. Segundo Isaiah Berlin, transformar a filosofia “em uma espécie de psicologia empírica” (Berlin, 1984:19) era um projeto da maior importância nessa época. A reforma deveria começar com a primeira ciência, a metafísica. Condillac proclamava a primazia epistêmica e cognitiva da análise e essa abordagem promoveu a psicologização da maneira de pensar. Os princípios empiristas foram sistematicamente aplicados em inúmeras áreas da atividade humana, da lógica à educação, da teoria do conhecimento à ética, da religião à estética. No final do século XVIII, o pedagogo rousseauniano suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) já não tinha nenhuma originalidade ao declarar que seu objetivo era psicologizar a educação humana. A lógica e a filosofia moral são exemplos importantes desse processo.

Voltaire (1694-1778), em suas Lettres philosophiques (Cartas filosóficas) de 1734, declarava que nunca existira “um lógico mais exato” do que Locke e o elogiava por ter escrito uma “história” da alma em oposição aos “ro­mances” que haviam sido produzidos até então. Do mesmo modo, o Discours préliminaire à Encyclopédie explicava que Locke tinha reduzido a metafísica ao que ela deveria ser, “uma física experimental da alma”. O escocês David Hume (1711-1776), no Tratado da natureza humana, afirmava que “a única finalidade da lógica é explicar os princípios e as operações de nossa faculdade de raciocinar, e a natureza das ideias” (Hume, 1739-40: xv). Ao unir a lógica ao estudo empírico da mente, os philosophes adotaram não apenas a terminologia contemporânea, mas também a noção de que a análise das faculdades cognitivas constituía a base de uma lógica nova e antiformalista. 

Tal como foi explicado por James Buickerood, no século XVIII entende-se que a finalidade da lógica é expor a “história natural” do enten­dimento. A lógica da época, portanto, supõe que seu sucesso como uma dis­ciplina normativa depende de descrições precisas e completas das operações cognitivas sobre as quais suas prescrições deveriam se apoiar (Buickerood, 1985:187). Do mesmo modo que Hatfield, Buickerood recomenda cautela ao interpretar as alusões às faculdades cognitivas, cujo contexto de referência original não era necessariamente psicológico. A lógica não era psicologia; mas a tarefa da psicologia era fornecer o conhecimento das operações mentais que a lógica deveria comandar.

Na filosofia moral, enquanto alguns autores insistiam na sensação e na associação como a única fonte das ideias morais, outros argumentavam em favor da existência de um “sentido moral”. Ambos os lados, entretanto, compartilhavam a mesma confiança e o mesmo otimismo na capacidade de aperfeiçoamento da espécie humana, e acreditavam na existência de mecanismos inatos que tornavam possível o avanço moral. Locke enfatizava o papel do hábito, e o encycopédiste materialista francês Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), em seu De Vhomme, de sesfacultes intelectuelles et de son éducation (Do homem, suas faculdades intelectuais e sua educação) (1752), sustentava que a educação tinha total poder de moldar o indivíduo. Já em seu Inquiry into the Origin of Our Ideas of Beauty and Virtue (Investigação sobre a origem de nossas ideias de beleza e virtude) (1752) e em outras obras, Francis Hutcheson (1694-1746), professor de filosofia moral em Glasgow e um dos primeiros utilitaristas, expunha sua tese de que Deus havia dotado o homem com um sentido moral universal, uma capacida­de de produzir ideias de ações “agradáveis ou desagradáveis”. Segundo Hutcheson, as ações benevolentes são virtuosas porque elas nos agradam e é por isso que as procuramos. Como todas as outras faculdades psicológicas, o sentido moral pode às vezes falhar, mas isso não o torna menos universal. Alguns anos depois da publicação do Inquiry de Hutcheson, seu discípulo Adam Smith (1723-1790), e também professor de filosofia moral em Glasgow, publicou uma Theory of Moral Sentiments (Teoria dos sentimentos morais) (1759) onde são expostas as bases psicológicas de seu The Wealth of Nations (A riqueza das nações) (1776).

Evidentemente, muito mais poderia ser dito sobre a lógica e a filosofia moral, além de outros campos. Neste esboço, ilustro apenas resumidamente as áreas onde as fontes dos fundamentos do juízo e da prática não eram buscadas em regras formais ou tradições consolidadas, mas antes no conhecimento empírico da natureza e da mente humana. Embora geralmente se desconheça a maioria das publicações que portavam o nome psicologia, as pesquisas acerca dos diferentes domínios da psicologização levaram a descrições muito diferentes da psicologia do século XVIII, justificando a visão do Iluminismo como o “século da psicologia”.

 

A psicologia no contexto nacional

Do mesmo modo que a psicologização de diferentes domínios se deu sob condições de grande diversidade metodológica e doutrinária, o desenvolvimento da psicologia como disciplina e como corpus de um pensamento psicológico apresentou variações significativas através de fronteiras geográficas e linguísticas.

A “ciência do homem” - da psicologia e da “economia animal” à moral e à economia política - era par excellence a “investigação escocesa” do Iluminismo. A abordagem escocesa da mente era marcada pela “ten­tativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais”, tal como proclamado no subtítulo do Tratado da natureza humana de David Hume (Bryson, 1945). 

O que se fazia em psicologia não portava inicialmente esse nome. Por exemplo, a Encyclopcedia Britannica (1768— 1771), totalmente lockeana em sua interpretação, definia a psicologia como o “conhecimento da alma em geral e da alma do homem em particular” (3: 175). Ao associar a psicologia às discussões anteriores sobre as origens e a essência da alma ou aos debates sobre a imaterialidade e imortalidade, a Encyclopedia declara implicitamente que, apesar das “mais profundas, das mais sutis e abstratas pesquisas (...), é extremamente difícil afirmar qualquer coisa [a respeito da alma] que seja racional, e ainda mais difícil, que seja positivo e bem fundado” (3: 175). Um tal juízo implicava uma rejeição da “psicolo­gia” como uma legítima ciência empírica da mente: esta era a lógica, uma ciência que visava à explicação “da natureza da mente humana e da própria maneira de exercer seus vários poderes” (2: 984-1003).

A “filosofia da mente humana” dos escoceses —tal era o objeto dos Elements publicados em 1792-1827 pelo professor de filosofia moral de Edimburgo Dugald Stewart (1753-1828) —não era normalmente chamada “psicologia”. A própria palavra, contudo, não era desconhecida. Em suas Observações sobre o homem, o médico e filósofo David Hartley (1705-1757) situava a “psicologia, ou teoria da mente humana, junto com os princípios intelectuais dos animais brutos” dentro da filosofia natural, ao lado da mecâ­nica, da hidrostática, da pneumática, ótica, astronomia, química, medicina e outras teorias das artes e ocupações manuais (Hartley, 1749:223). No início da década de 1760, na Universidade de Aberdeen, o professor de filosofia moral James Beattie (1735-1803) lecionava “psicologia ou ciência da natu­reza dos vários poderes ou faculdades da mente humana” (Beattie, 1790:1); embora ele considerasse a psicologia parte da pneumatologia (doutrina das substâncias espirituais), ele a separava completamente das discussões sobre a imortalidade e a imaterialidade da alma. Uma abordagem empírica e na­turalista dos poderes da mente —lockeana e sensualista inicialmente e em seguida dominada pela filosofia anticética do “senso comum”—disseminou-se por todo o Iluminismo escocês, sendo tomada como a base da lógica, da estética, da filosofia moral e política, e constituindo os fundamentos do ensino acadêmico dessas disciplinas.

A primeira coisa a se notar na França é que a palavra psicologia, embora conhecida, era ausente do vocabulário filosófico corrente. E evidente que a agenda anticlerical e antirreligiosa dos philosophes —aqui não no sentido geral de “filósofo”, mas referindo-se especificamente aos franceses assim conhecidos na época (e desde o século XVIII) - contribuiu para estigmatizar uma disciplina cujo nome incluía o termo alma e que, portanto, parecia estar associada aos ensinos obscuros da “escolástica” e ao uso de conceitos que eram considerados sem sentido. O próprio Condülac recusou-se explicitamente a usar esse nome. A ciência que aplica o método de análise para descobrir a “origem e a geração” das ideias seria a primeira ciência; mas uma tal ciência, escrevia ele, é tão nova que não tem ainda um nome: “eu a chamaria psicologia, se conhecesse qualquer trabalho de boa qualidade com esse título (Condillac,1947-51:29). Os descendentes intelectuais de Condillac reproduziram a atitude de seu mestre. Destutt deTracy (1754- 1836) inventou a palavra “ideologia” (idéologie) para designar a “análise do pensamento no lugar de “psicologia”, que, segundo ele, significava "a ciência da alma ’e evocava “a vaga busca de causas primeiras” (Tracy, 1992: 71). No início do século XIX, em suas aulas nas Escolas Normais (Ecoles Normales) criadas pela Revolução Francesa, o escritor e político Dominique-Joseph Garat (1749-1833) rejeitou a palavra em favor da expressão lockeana “análise do entendimento” (Garat, 1800: 149-150).

Esses são os autores que nos vêm à mente quando pensamos na psicologia do século XVIII na França. Os philosophes, contudo, debatiam constantemente com católicos tais como o abade Joseph Adrien Lelarge de Lignac (1710-1762), cujas respostas ao sensacionalismo radical, embora quase inteiramente esquecidas, eram notáveis e mereceriam hoje ser novamente situadas no contexto do Iluminismo francês (Lignac, 1753, 1760). Geralmente, no quadro de uma defesa do cristianismo contra o que era percebido como materialismo e fatalismo, os críticos dos philosophes enfatizavam a atividade da mente e a unidade do eu (self) e da consciência em oposição ao trabalho mecânico de uma máquina orgânica que passivamente responderia à estimulação externa.

A narrativa histórica usual acerca da evolução do pensamento psicológico no Iluminismo francês começa com os esforços de superar o dualismo cartesiano e com a tese de que os homens são seres inteiramente naturais cujas funções psicológicas podem ser empiricamente estudadas. A crítica à noção de uma alma substancial indivisível que formaria o eu e se manteria subjacente ao comportamento humano levou a diferentes estrategias. Uma delas era a descrição dos efeitos externos dos “movimentos” da alma, tais como a fisionomia ou a expressão das paixões. Numa segunda estratégia, os conceitos metafísicos foram reformulados como noções empíricas. A alma foi assim substituída por mente (esprit) e depois por moral. A terceira estratégia era a anexação materialista desses conceitos. Do “Sistema da natureza (Systeme dela nature,1770) do philosophe determinista Paul-Thiry d Holbach (1723-1789) ao “Relatório sobre o físico e o moral do homem” (Rapports du physique et du moral de l’homme, 1802) do médecin-philosophe Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808), a alma tende a desaparecer do discurso da ciência do homem.

Do mesmo modo que em outros países da Europa, o empirismo en­trou nos tratados de educação e inspirou a reforma pedagógica e também as filosofias que enfatizavam a sensibilidade e o “coração”. Na virada do século XVIII, a psicologia francesa viveu um breve período de existência institucional. Depois da revolução, os idéologues contribuíram para a criação de diversas instituições públicas de ensino e pesquisa e assim tiveram ocasião de realizar e disseminar suas ideias psicológicas, pedagógicas e políticas. A psicologia, portando seu próprio nome, entretanto, só entrou no ensino aca­dêmico depois de Napoleão proscrever os idéologues e principalmente depois da Restauração monárquica que sucedeu a queda do regime napoleônico.

Mas ela era então espiritualista mais do que sensacionalista e forte­mente influenciada pela filosofia escocesa do senso comum.

A Alemanha, que não era ainda um país unificado no século XVIII, era a principal produtora de psicologias, e onde a psicologia foi mais longe na institucionalização e conquista de um status de disciplina (Dessoir, 1902). A palavra psicologia, que (como vimos) apareceu no final do século XVI nas universidades protestantes, era usada com frequên­cia no Aujklãrung ou Iluminismo alemão. Seu destino no século XVIII estava vinculado inicialmente ao sistema filosófico de Christian Wolff (1679-1754), que dominava o ensino da disciplina até o surgimento da filosofia crítica de Kant. A obra monumental de Wolff tratava pratica­mente de todas as áreas do conhecimento; seu objetivo era unificar a razão e a experiência e garantir à filosofia a certeza que era reservada à matemática, mas que era característica da scientia como a disposição ou capacidade de demonstrar suas afirmações a partir de princípios estabe­lecidos (habitus asserta demonstrandi) (Wolff, 1728: § 30). Wolff definiu os objetos da filosofia como Deus, a alma humana e os corpos materiais e dividiu seu reino em lógica, metafísica, filosofia prática, física, filosofia das artes (tecnologia e a filosofia das artes liberais e da medicina) e a filosofia da jurisprudência. Ele organizou as disciplinas de acordo com sua dependência de princípios fornecidos por outras disciplinas. A me­tafísica ou “ciência do ser, do mundo em geral e dos espíritos” (Wolff, 1728: § 79) incluía, em ordem de dependência, a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia empírica, a psicologia racional e a teologia natural. Os manuais acadêmicos de Wolff seguiam essa estrutura, e foi através deles que a psicologia entrou no currículo de filosofia com seu próprio nome.

Uma vez que a filosofia era a “ciência dos possíveis à medida que eles podem ser”, a psicologia era a ciência das coisas que são possíveis através da alma humana (scientia eorum quae per animas humanas possibilia sunt) (Wolff, 1728: § 58). Como todas as outras ciências no sistema de Wolff, a psicologia podia ser abordada de duas maneiras: empiricamente e racionalmente, a primeira dava origem a um conhecimento a posteriori dos seres e das coisas materiais e imateriais, e a segunda a um conhecimento apriori de sua essên­cia, de sua razão ou possibilidade. Do mesmo modo, cada psicologia tinha seu método próprio. A psicologia racional (daqui em diante, PR) procedia por dedução a partir de “definições, experiências indubitáveis, axiomas e proposições já demonstradas” (PR, § 3). A psicologia empírica (daqui em diante, PE) usava a observação e podia usar a experimentação (PE, §§ 458, 459). A observação é a experiência que nós temos dos fatos da natureza sem nossa intervenção (PE, § 456) e a experiência é a “cognição do que é evidente apenas mediante nossas percepções” (Wolff, 1728: § 664). Na psicologia empírica, o conhecimento era possível “através das ocorrências em nossas almas das quais nós temos consciência” (PE, § 2), o que Leibniz chamava de “a percepção”.

A Psychologia empírica de Wolff enfocava a vida interior da alma, ex­cluindo as relações fisiológicas e corporais. A primeira parte do tratado lida com a alma em geral (sua existência provada por um argumento semelhante ao cogito cartesiano) e suas faculdades cognitivas: percepção, sentidos, imaginação, facultas fingendi (imaginação criativa), memória, atenção e refexão, e intelecto. A segunda parte analisa a passagem do conhecimento para o “apetite” e a aversão. Ela examina o prazer e o desprazer como intuições da perfeição e da imperfeição (e propõe a “psicometria” como uma ferramenta para o estudo de seus vários graus); o bem e o mal em termos de inclinações da alma; as paixões e outros estados mentais, o apetite e a aversão racional, todos em relação ao prazer/desprazer e ao problema da liberdade. Uma seção final descreve a interação da alma e do corpo. A psicologia empírica fornecia os princípios para a lei natural, a teologia natural e a lógica (PE, §§ 6-10).

A Psychologia rationalis, por sua vez, visava à explicação a priori dos fatos apresentados na psicologia empírica através da dedução de axiomas e proposições provadas. A primeira delas é a definição da alma como um poder ou faculdade de representação do universo (vis representativa universi), cuja primeira atividade é a sensação (PR, §§ 66, 67). Ela começa com o conceito ou a essência da alma: um ser consciente de si e das coisas externas, capaz portanto não apenas de percepção, mas também de representação e apercepção. Com base nessa definição, a psicologia racional dedutivamente explicava as faculdades e as operações da alma; ela avaliava as diferentes explicações para a correspondência entre elas e os movimentos do cor­po; tratava da natureza dos espíritos (substâncias dotadas de intelecto e livre-arbítrio) e da espiritualidade da alma, sua origem, sua união com o corpo e a imortalidade; e concluía com uma seção sobre a alma dos animais. A psicologia racional, explicava Wolff, não era capaz de produzir conhecimentos empíricos novos, mas ela “aumenta nosso discernimento na observação do que acontece em nossa alma” e “revela aspectos da alma que não são acessíveis apenas pela observação” (PR, §§ 8, 9).

Enquanto os manuais de Wolff foram usados nas universidades alemãs, até a metade do século XVIII, a psicologia era abordada fundamentalmente como uma ciência empírica. A ênfase no empírico era também demonstrada pelo fato de que duas das três popularizações da psicologia de Wolff que apareceram na década de 1750 em língua francesa continham somente sua psicologia empírica. Isto refletia ou, pelo menos, estava em acordo com um crescente interesse na antropologia. Tal como já foi mencionado, os usos iniciais da antropologia enfatizavam a anatomia e a fisiologia humanas. No século XVIII, a antropologia ganha autonomia e, concedendo mais ou menos peso à psicologia, à medicina, à fisiologia ou à filosofia, ela veio a encarnar o projeto de uma “ciência do homem” (Linden, 1976). Ao oferecer um objetivo e um ideal unificado de um conhecimento total e coerente sobre a “história da humanidade”, tal projeto desempenhou um papel heurístico importante no desenvolvimento inicial das ciências humanas em sua pluralidade. E isso se aplicou inteiramente à psicologia, como veremos abaixo.

Enfim, a invenção de uma tradição psicológica foi crucial para o desenvolvimento da psicologia como disciplina (Vidal, 2000). Foi o que aconteceu na seleção de autores e trabalhos “psicológicos” e na emergência da história da psicologia como um gênero historiográfico. Com isso, foi reforçada a autonomia nascente da psicologia e o domínio da psicologização foi ampliado para a história da humanidade de um modo geral.

O capítulo mais longo do que, provavelmente, é a primeira bibliografia a considerar a psicologia empírica como um assunto distinto é dedicado à literatura da “psicologia ou lógica” (HiBmann, 1778: §§ 71-107). Trata-se de uma bibliografia com notas explicativas sobre a psicologia em geral; sobre a lógica; a sensação e os sentidos; a história da teoria das ideias, vários fenôme­nos e faculdades psicológicas; e inúmeros tópicos “lógicos” e metodológicos. A própria classificação reflete a psicologização da lógica. Como explica o autor, à medida que define as regras para o melhor uso dos poderes da alma humana, a lógica pertence à psicologia (HiBmann, 1778: § 8). E mais ainda: Uma vez que a psicologia, como teoria do entendimento humano, cons­titui metade da filosofia, e uma vez que as considerações da outra metade referem-se a ela, os conteúdos dos escritos que lidam com o entendimento humano intervêm de várias maneiras nas áreas da psicologia que têm a vontade humana como seu objeto próprio. Essa é a razão pela qual esses escritos podem ser empregados proveitosamente em assuntos práticos. Por outro lado, há escritos em psicologia que, de fato, desenvolvem um assunto [relevante para] a filosofia prática geral, através dos quais fazem-se muitas considerações importantes para a filosofia teórica. (...) (Hißmann, 1778: § 71)

A organização bibliográfica dos tópicos filosóficos concentra-se na defesa de uma reforma das disciplinas filosóficas, especialmente através da assimilação da lógica à psicologia, bem como por uma diferenciação clara das investigações empíricas e metafísicas da alma. A bibliografia, portanto, ao mesmo tempo refletia e contribuía para estabelecer as fronteiras do crescente domínio da psicologia.

A ampliação do cânone psicológico abrangia o passado. O apareci­mento do tratamento historiográfico da psicologia foi simultâneo ao desen­volvimento da psicologia empírica. Ele surgiu num momento de expansão da historiografia da física e das ciências naturais, mas estava enraizado na história da filosofia. Durante o século XVIII, na Alemanha, a história da filosofia deslocou-se da erudição para o criticismo kantiano através de uma perspectiva eclética e de uma ênfase na história como progresso. No final desse século, a história da filosofia enfatizava a relevância das obras filosóficas como manifestações de uma cultura e tornou-se uma maneira de fazer filo­sofia. De modo semelhante, a história da psicologia passou a ser vista como uma contribuição para a história psicológica e espiritual da humanidade. As primeiras formas desse gênero novo reconstruíam a “psicologia empírica” de filósofos anteriores tais como Aristóteles, ou incluíam a psicologia como um domínio autônomo dentro da história das ideias filosóficas. Em 1808 surgiu, postumamente, uma História da psicologia de 770 páginas, a primeira em seu gênero. Seu autor, o professor Friedrich August Carus (1770-1807), de Leipzig, descreveu um progresso que ia das ideias míticas sobre a alma e a ausência de um sentido do eu, até a psicologia empírica e a disciplina autônoma de sua própria época. Para Carus, portanto, a história da psicologia - tanto como processo histórico como um gênero historiográfico - tinha uma participação no progresso da consciência e reflexividade humanas (Carus, 1808;Vidal, 2006).

Enfim, ilustrando um movimento característico do Aufklärung, os au­tores psicológicos às vezes adotavam formas “populares” (ensaios, romances, jornalismo) ou (como o próprio Carus) abandonavam quase inteiramente a linguagem intelectualizada e abstrata das faculdades mentais da psicologia de Wolff em favor de narrativas mais “psicológicas” (no nosso sentido) e existenciais, que frequentemente recorriam ao termo “sentimento de si” (Selbstgeuhl) como fonte principal de dados psicológicos. Um exemplo importante desse desenvolvimento é a Revista de Psicologia Empírica (Magazin zur Erfahrungs-Seelenkunde) (Moritz, 1783-93), sendo que aqui se poderia dizer também “experiencial”, editada pelo escritor Karl Philipp Moritz (1756- 1793), que se tornou conhecido por seu “romance psicológico” de 1785-90, Anton Reiser. Convencido de que o autoconhecimento era o caminho tanto para a saúde espiritual individual quanto para o aperfeiçoamento da humanidade, Moritz publicou inúmeros estudos de casos normais e pato­lógicos, auto-observações e relatos de sonhos de diversos colaboradores da revista (Kaufmann, 2000).

Na Crítica da razão pura (1781), Immanuel Kant negou a validade de qualquer psicologia racional (Hatfield, 1992; Mischel, 1967). Ele argumen­tava que as afirmações a respeito da essência, da natureza e da relação da alma com o mundo material derivavam da proposição “Eu penso”, que é baseada numa experiência a posteriori. A psicologia, portanto, só pode ser empírica, e, consequentemente, não uma “ciência” no sentido de ser capaz de produzir evidência demonstrativa. Ela poderia proporcionar, no máxi­mo, relatos “históricos” (descritivos, aposteriori) da alma. Além disso, ela não poderia ser submetida à análise matemática e, dada a não-confiabilidade da introspecção, ela deveria se apoiar na história, na biografia, na literatura e nos relatos de viagem. A crítica kantiana definiu alguns problemas fundamentais da psicologia alemã do início do século XIX (Leary, 1978,1982). Contudo, o que Kant escreveu e lecionou sobre a psicologia ajustava-se ao contexto do desenvolvimento da psicologia empírica e da antropologia na Alemanha do final do século XVIII, correspondia às suas próprias ideias em relação à psicologia como uma disciplina universitária e estava intimamente ligado ao que ele chamou de “antropologia do ponto de vista pragmático”, isto é, o estudo (de um modo geral, psicológico) “do que o homem, como um ser que age livremente, faz ou poderia e deveria fazer de si próprio” (Kant, 1798: 119).

 

Psicologia, as ciências humanas e o destino do homem

A psicologia no século XVIII precisa ser considerada, no quadro ge­ral da “antropologia”, de duas maneiras: como uma “ciência do homem”, que incluía os temas principais das “ciências humanas”, e como uma visão geralmente cristã da constituição e do destino da humanidade. Em 1966, Michel Foucault declarava que nos séculos XVII e XVIII “o homem não existia” (Foucault, 1966: 355-356).

Contra essa declaração tão afirmativa, é inevitável que sustentemos que o entendimento do “homem” como um indivíduo e um ser social estava no centro de quase todos os domínios do pensamento. Todo trabalho clássico sobre o Iluminismo reconhece a importância da ciência do homem. A historiografia pós-foucaultiana considera mais cuidadosamente seus detalhes e seu contexto e retoma as questões sobre as continuidades e descontinuidades entre as ciências humanas e sociais institucionalizadas no final do século XIX e no século XX e as várias formas da ciência do homem do século XVIII (Fox et ah, 1994; Olson, 1993, 2003). No caso da psicologia, enfatizam-se seu enraizamento na ciência do homem e suas conexões com os múltiplos projetos que a compunham (Smith, 1997).

Um bom exemplo de como a psicologia foi entendida como per­tencendo à ciência do homem é dado na revisão protestante da Encyclopédie de Diderot e d’Alembert. Publicada na cidade suíça deYverdon em 1770-1775, ela examinou as noções de psicologia e antropologia muito mais amplamente do que a famosa enciclopédia francesa modernizando seu vocabulário, harmonizando a ciência do homem com a visão de mundo cristã e incorporando ideias que estavam sendo desenvolvidas na Alemanha e na Suíça. O artigo sobre antropologia poderia ser considerado como um sumário programático. A antropologia, explicava ele, nos ensinaria a conhecer, suas origens do homem; seus diferentes estágios pelos quais ele passa; suas qualidades ou afeições; suas faculdades ou ações das quais podem ser deduzidas; um conhecimento de sua natureza; de suas relações; de sua destinação; e das regras que ele deve seguir para conformar-se adequadamente a isso. 

A Antropologia dependeria assim de todas as ciências e delas ela tiraria ou daria seus princípios e reportaria ao homem todas as consequências para sua utilidade, isto é, para sua conservação, sua perfeição e felicidade. (Mingard, 1770-1775: 22)

O autor associa a antropologia principalmente à filosofia, à história natural, à fisiologia, à metafísica e à psicologia. São elas as disciplinas antro­pológicas fundamentais; juntas elas formam a ciência do homem e só têm valor à medida que possam contribuir para atualizar a “perfectibilidade” da humanidade.

A perfectibilidade, uma palavra-chave do Iluminismo, tornou-se frequente depois que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) a usou em seu Discours sur l’origine et lesfondements de l’inégalité (Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade) (1775). De acordo com o filósofo genebrês, ao retirar o homem de sua “condição originária”, a perfectibilidade era a fonte da miséria humana. Voltaire questionava o pessimismo de Rousseau e defendia a tese de que a humanidade se aperfeiçoa dentro dos limites impostos pela natureza. Mais tarde, em seu Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano) (1795), o Marquês de Condorcet (1743-1794) veio a afirmar que a perfectibilidade não tinha limites. De qualquer modo, a per­fectibilidade era em geral considerada um dos aspectos mais importantes da espécie humana. Ela consistia na aquisição de novos poderes e principalmente no desenvolvimento em direção à felicidade e à perfeição das capacidades que os homens já têm em conformidade com as leis da natureza (como na Enciclopédia Yverdon) e a vontade de Deus.

A ciência do homem que Hume e os philosophes franceses promoviam estava estreitamente ligada a uma crítica da religião. Mas esse não era o caso da maioria dos autores engajados na psicologia e na antropologia. Como vi­mos, a ciência do homem e as disciplinas que ela envolvia eram mutuamente dependentes. A psicologia era a disciplina antropológica crucial por duas razões. A primeira era didática e epistemológica e consistia no método e no objeto de estudo: a “análise” era proposta como paradigma do conhecimento legítimo e o esclarecimento dos mecanismos envolvidos no conhecer era a condição da aquisição e da crítica do próprio conhecimento. De acordo com Hume, por exemplo, os princípios de associação (semelhança, contiguidade no tempo ou no espaço e relação de causa e efeito) eram equivalentes ao princípio de atração universal de Newton. Mas nem todos os Newtons da mente aceitavam que a mente era redutível à matéria em movimento. Ao contrário, a maioria dos psicólogos do século XVIII concordava com a definição cristã do homem como composto de corpo e alma.

Nos séculos XVII e XVIII, três posições davam as coordenadas das discussões sobre a união da alma com o corpo. De acordo com o sistema da influência física, as duas substâncias afetavam uma a outra materialmente. No “ocasionalismo” do cartesiano Nicolas Malebranche (1638-1715), Deus é o agente causal de sua união. Por exemplo, quando a alma desejava mover o corpo, era Deus que o fazia mover-se. Finalmente, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) via a relação entre a alma e o corpo como regulada por uma harmonia preestabelecida, como dois relógios sincronizados. Os escritos psicológicos diferenciavam sistematicamente a união e a interação da alma e do corpo. Enquanto a união era aceita como um fato confirmado pela fé, pela razão e pelo sentido interno, ainda que em si mesmo misterioso, sua interação era considerada um tópico da pesquisa empírica que poderia ser estudado através do exame de fenômenos que pareciam manifestar a dependência mútua entre a alma e o corpo (Vidal, 2003).

Já nas primeiras linhas de seu Essai de psychologie (Ensaio de psicologia), Charles Bonnet formulou a premissa da psicologia empírica do Iluminismo: “Nós só conhecemos a alma através de suas faculdades; nós só conhecemos tais faculdades através de seus efeitos. Estes efeitos tornam-se aparentes so­mente através da intervenção do corpo (Bonnet, 1755: 1). E no prefácio do Essai sur lesfacultes de Vâme (Ensaio sobre as faculdades da alma):

A alma age em seu corpo e através de seu corpo. Portanto, devemos sempre nos voltar ao corpóreo como primeira origem de tudo que a alma experimenta. Não sabemos melhor o que é uma ideia na alma do que é a própria alma. Sabemos, porém, que as ideias estão ligadas à atividade de certas fibras e nós podemos, portanto, raciocinar sobre essas fibras porque nós vemos essas fibras; podemos estudar um pouco seus movimentos, os resultados desses movimentos e as conexões entre as fibras. (Bonnnet, 1760: xxi-xxii)

Admitidos tais princípios, fazia sentido investigar empiricamente as operações de uma substância imaterial tal como elas se davam no interior de si própria e tal como elas se manifestavam nos outros. O postulado da existência dessa substância não era de modo algum obstáculo à psicologia empírica. E mais ainda, esta crença dava alento às psicologias que se baseavam em especulações neurológicas e atribuía um importante papel ao cérebro, como sede da interação entre a alma e o corpo, e aos nervos, como os órgãos responsáveis por essa interação.

Daí então a segunda razão para a preeminência da psicologia: entre as disciplinas que, da economia animal à economia política, compunham a ciência do homem, a psicologia era aquela cujo objeto próprio vir­tualmente coincidia com a definição de ser humano. Isto poderia ter a consequência aparentemente paradoxal de manter o estudo psicológico inseparável do estudo do corpo e principalmente do sistema nervoso, ao mesmo tempo em que fornecia sustentação à antropologia cristã que ela pressupunha. Hartley, que concluiu suas Observations on Man (Observações sobre o homem) vinculando a psicologia à doutrina da ressurreição do corpo, entendia que as “sensações surgem na alma a partir dos efeitos excitados na substância medular do cérebro”, mas ele se recusava a explicar como isso acontecia.“É suficiente para mim”,dizia ele,“que haja uma certa conexão, de algum tipo, entre as sensações da alma e os efeitos excitados na substância medular do cérebro; que é tudo o que concedem os médicos e filósofos” (Hartley, 1749: 320-321). Bonnet também teve que se defender da suspeita de materialismo, enfatizando sua conformidade com a doutrina cristã:

Se alguns de meus leitores achassem que eu faço a alma depender excessivamente do corpo, eu pediria que considerassem que o homem é, em razão de sua própria natureza, um ser composto, necessariamente constituído por duas substâncias: uma espiritual e outra corporal. Eu mostraria que tal princípio é por isso mesmo o próprio princípio da REVELAÇÃO, que a doutrina da ressurreição do corpo é sua consequência imediata. Longe de opor-se ao philosophe deísta, um dogma tão claramen­te revelado deveria, ao contrário, mostrar-se a ele como um pressuposto favorável à verdade da RELIGIÃO, já que é tão perfeitamente consistente com o que nós conhecemos com mais certeza sobre a natureza de nosso ser. (Bonnet, 1755: 3-4)

A fazer depender tão intimamente a alma do corpo, a psicologia em­pírica ao mesmo tempo aceitava e validava o princípio de união da alma e do corpo. Na visão de Bonnet, a natureza “mista” dos seres humanos era a chave para os dogmas cristãos da encarnação e da ressurreição; por sua vez, a chave para nossa natureza mista estava nos nervos, como intermediários entre a alma e o corpo, e no cérebro, como sede da alma (Vidal, 2002). Em suma, Hartley e Bonnet, os dois psicólogos iluministas mais neurofisiológicos, integravam as promessas cristãs de ressurreição e vida eterna em seus traba­lhos especulando sobre os mecanismos psicofisiológicos e não afirmando uma crença religiosa.

 

Observações finais

O século XVIII foi, de várias maneiras,“o século da psicologia”—tanto para o historiador que se dedica ao Iluminismo de um modo geral, quanto para os historiadores da lógica, da estética, da filosofia ou da educação, e isso em razão da psicologização que ocorreu nesses e em outros domínios. Esta afirmação também é válida para o historiador das ciências humanas, porque a psicologia empírica se transformou durante o século XVIII num campo de investigação protoprofissional autônomo e, como tal, tornou-se um suporte teórico para a psicologização de outros saberes. Além disso, a psicologia se impôs como disciplina antropológica crucial e mesmo como a primeira ciência de todo o sistema do conhecimento por duas razões. Primeiramente, ela mostrava como os seres humanos naturalmente adquiriam conhecimento (das sensações aos conceitos), e assim indicava os melhores métodos de investigação empírica para todas as outras ciências. Embora os métodos de observação e a expe­riência já tivessem sido proclamados como os mais apropriados para as ciências empíricas, o método psicológico de “análise” confirmava seu valor e demonstrava que eles eram de fato os meios naturais pelos quais se dava a aprendizagem humana. Em segundo lugar, na medida em que o objeto da psicologia era a alma unida ao corpo e interagindo com ele, a psicologia era o “fundamento” e o “guia” de todas as ciências fornecendo conhecimentos sem os quais, tal como escreveu o pastor Mingard, citado no início deste capítulo, “nós não podemos julgar nada, decidir sobre nada, determinar nada, escolher nada, preferir nada, fazer nada com segurança e sem erro”.Certamente, nem todo intelectual do Iluminismo compartilhava essa opinião; mas ela desempenhou um papel essencial e inspirou a própria constituição da psicologia.

 

Enfim, a psicologização e o desenvolvimento da psicologia em­pírica como disciplina estavam ligados organicamente. A tendência a psicologização funcionava como uma condição de possibilidade da constituição da disciplina; reciprocamente, a disciplina que emergia jus­tificava e estruturava a psicologização fornecendo coordenadas comuns para suas diversas manifestações. As consequências sociais desse processo foram muitas. No século XX, a psicologia profissional tornou-se o que ela ainda é hoje - um mecanismo maior de definição das normas para o ser humano e sua conduta, e para o controle de seu funcionamento (Rose, 1996). O caminho em direção a esse posto de controle foi pavi­mentado no século XVIII. O Iluminismo deveria supostamente trazer ao homem sua liberdade. De acordo com Kant, tratava-se de abandonar “a imaturidade em que a própria pessoa se mantinha” e ganhar coragem para usar seu próprio entendimento (Kant, 1784). Kant não foi o único a propor uma definição para o Iluminismo, e nem todos os autores a compartilhavam (Schmidt, 1996). Os psicólogos, porém, concordavam que a psicologia era parte de um projeto que ajudaria a humanidade a avançar no caminho de sua perfectibilidade. A psicologia empirica, entretanto, logo veio a apoiar formas de autoridade que, à medida que resultavam supostamente de um conhecimento da natureza humana, mostravam-se mais inexoráveis do que aquelas que haviam sido forjadas por tradições seculares e religiosas, contra as quais os homens podiam finalmente se rebelar (ver um exemplo disso em Vidal, 2004). Neste sentido, também, a psicologia acabou sendo a “mais útil de todas as ciências”.

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A Psicanálise
O termo psicanálise é usado para se referir a uma teoria, a um método de investigação e a uma prática profissional. Enquanto teoria caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. Freud publicou uma extensa obra, durante toda a sua vida, relatando suas descobertas e formulando leis gerais sobre a estrutura e o funcionamento da psique humana. A Psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto por meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres, os atos falhos. A prática profissional refere-se à forma de tratamento — a Análise — que busca o autoconhecimento ou a [pg. 70] cura, que ocorre através desse autoconhecimento. Atualmente, o exercício da Psicanálise ocorre de muitas outras formas. Ou seja, é usada como base para psicoterapias, aconselhamento, orientação; é aplicada no trabalho com grupos, instituições. A Psicanálise também é um instrumento importante para a análise e compreensão de fenômenos sociais relevantes: as novas formas de sofrimento psíquico, o excesso de individualismo no mundo contemporâneo, a exacerbação da violência etc.
A Psicologia da Gestalt
A Psicologia da Gestalt é uma das tendências teóricas mais coerentes e coesas da história da Psicologia. Seus articuladores preocuparam-se em construir não só uma teoria consistente, mas também uma base metodológica forte, que garantisse a consistência teórica. Gestalt é um termo alemão de difícil tradução. O termo mais próximo em português seria forma ou configuração, que não é utilizado, por não corresponder exatamente ao seu real significado em Psicologia. No final do século passado muitos estudiosos procuravam compreender o fenômeno psicológico em seus aspectos naturais (principalmente no sentido da mensurabilidade). A Psicofísica estava em voga. Ernst Mach (1838-1916), físico, e Christian von Ehrenfels (1859-1932), filósofo e psicólogo, desenvolviam uma psicofísica com estudos sobre as sensações (o dado psicológico) de espaço-forma e tempo-forma (o dado físico) e podem ser considerados como os mais diretos antecessores da Psicologia da Gestalt. Max Wertheimer (1880-1943), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941), baseados nos estudos psicofísicos que relacionaram a forma e sua percepção, construíram a base de uma teoria eminentemente psicológica.
O Behaviorismo
O termo Behaviorismo foi inaugurado pelo americano John B. Watson, em artigo publicado em 1913, que apresentava o título “Psicologia: como os behavioristas a vêem”. O termo inglês behavior significa “comportamento”; por isso, para denominar essa tendência teórica, usamos Behaviorismo — e, também, Comportamentalismo, Teoria Comportamental, Análise Experimental do Comportamento, Análise do Comportamento. Watson, postulando o comportamento como objeto da Psicologia, dava a esta ciência a consistência que os psicólogos da época vinham buscando — um objeto observável, mensurável, cujos experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos. Essas características foram importantes para que a Psicologia alcançasse o status de ciência, rompendo definitivamente com a sua tradição filosófica. Watson também defendia uma perspectiva funcionalista para a Psicologia, isto é, o comportamento deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio. Certos estímulos levam o organismo a dar determinadas respostas e isso ocorre porque os organismos se ajustam aos seus ambientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos. Watson buscava a construção de uma Psicologia sem alma e sem mente, livre de conceitos mentalistas e de métodos subjetivos, e que tivesse a capacidade de prever e controlar.
A evolução da ciência psicológica
Compreender, em profundidade, algo que compõe o nosso mundo significa recuperar sua história. O passado e o futuro sempre estão no presente, enquanto base constitutiva e enquanto projeto. Por exemplo, todos nós temos uma história pessoal e nos tornamos pouco compreensíveis se não recorremos a ela e à nossa perspectiva de futuro para entendermos quem somos e por que somos de uma determinada forma. Esta história pode ser mais ou menos longa para os diferentes aspectos da produção humana. No caso da Psicologia, a história tem por volta de dois milênios. Esse tempo refere-se à Psicologia no Ocidente, que começa entre os gregos, no período anterior à era cristã. Para compreender a diversidade com que a Psicologia se apresenta hoje, é indispensável recuperar sua história. A história de sua construção está ligada, em cada momento histórico, às exigências de conhecimento da humanidade, às demais áreas do conhecimento humano e aos novos desafios colocados pela realidade econômica e social e pela insaciável necessidade do homem de compreender a si mesmo.
A evolução da Psicologia Contemporânea

Garry Kasparov não era só um grande jogador de xadrez: ele era o mestre dos grão-mestres. No con­senso universal, ele era o maior jogador de xadrez da história. Na primavera de 1997, aos 34 anos de idade, no auge do prolongado reconhecimento, vinha man­tendo o título mundial por 12 anos. Jamais perdera uma única vez em uma competição de várias partidas com um único oponente. Jamais exibira outra coisa que não a absoluta confiança na sua genialidade no xadrez. Sua atitude em relação a qualquer rival che­gava ao limite do desprezo, traço exibido novamente ao vencer, como havia previsto, a primeira das seis partidas da anunciada revanche, naquele mês de maio em Nova York, contra o oponente que arrasara havia um ano.

Psicologia da Gestalt, um Insight repentino

Tenerife, localizada a 200 milhas da costa da África, é a ilha mais famosa na história da psicologia; talvez seja a única ilha na história da psicologia. No entanto, o trabalho de um psicólogo alemão que vivia ali na segunda década do século XX é, sem sombra de dúvida, uma parte significativa da história dessa disciplina. Wolfgang Köhler estudou macacos no Tenerife. Esses animais tinham sido trei­nados ou condicionados a se comportar de determinada maneira. Mas até Köhler ir para Tenerife, acreditava-se que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta - aquela que levava comida como recompensa. A maioria das pesquisas sobre animais já realizadas até aqui envolve animais ensina­dos a se comportar da maneira como o experimentador ou treinador queira.

Behaviorismo - Período Pós-fundação
A Reflexologia Soviética - Séchenov, Pavlov e Bekhterev

A Rússia foi um país pioneiro no campo de estudos da reflexologia, exercendo um importante papel no desenvolvimento científico de meados do século XIX até a década de 1940. Foi um período marcado pela extrema efervescência política do então Estado czarista russo, que culminou com a implantação do Estado socialista em 1917. Dentre os numerosos pesquisadores empenhados na fisiologia dos reflexos, pode-se destacar a influência de pelo menos três na história da psicologia moderna: Ivan Michajlovic Séchenov (1829-1905), considerado o iniciador da fisiologia russa; Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), fisiologista que criou o conceito de reflexo condicionado; e o psiquiatra e fisiologista Vladimir Michailovitch Bekhterev (1857-1927), responsável pela aplicação do conceito de reflexo condicionado ao estudo de reflexos motores.

O Processo de Institucionalização do saber psicológico no Brasil do Século XIX

No século XIX, o Brasil encontrava-se diante do desafio de tornar-se uma nação moderna tendo um projeto unitário político, social e cultural. Um aspecto muito importante desse desafio consistia no fato de que a saúde, a educação, a religião, a moral e várias outras dimensões da expe­riência pessoal dos cidadãos começaram a ser gerenciadas ou controladas diretamente pelo aparelho estatal. Esse processo foi acompanhado por uma progressiva estruturação dos papéis sociais dos indivíduos, vindo estes a ser considerados como funções e produtos do processo social.

O Behaviorismo de Watson

bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal. O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Fios, seduções e olhares: os primórdios 'psi' nas terapias para corpos e mentes perturbados

Viena, último quarto do século XVIII. A mansão da Landstrasse número 261 recebe músicos famosos no teatro montado no jardim; nas reuniões são servidas as mais sofisticadas iguarias, enquanto os convidados passeiam entre as estátuas, apreciam a piscina circular de mármore e sobem o pequeno morro para avistarem o Danúbio. Trata-se da casa de Franz Anton Mesmer (1734-1815), um alemão enriquecido pelo matrimônio, homem de notável cultura, ele mesmo um músico, com títulos no campo da teologia, doutor em filosofia, em direito e, por fim, em medicina, na qual se formou aos 32 anos, apresentando a Universidade de Viena a dissertação acerca da influência dos ciclos planetários nos distúrbios humanos.

Behaviorismo: As influências anteriores

Hans, o Esperto, foi o cavalo mais famoso de toda a história da psicologia. Naturalmente, ele foi o único cavalo na história da psicologia, mas isso não diminui suas realizações extraordina­riamente brilhantes. No início da década de 1900, praticamente toda pessoa culta da Europa e dos Estados Unidos já ouvira falar a respeito de Hans, o cavalo prodígio. Ele foi o cavalo mais esperto do mundo e conhecido até como a criatura de quatro patas mais inteligente de que se ouvira falar. O esperto Hans, que vivia em Berlim, Alemanha, era uma celebridade. As propagandas usavam seu nome para vender seus produtos. Suas realizações serviram de inspi­ração para canções, artigos de revistas e livros. Seu conhe­cimento fenomenal foi testado por matemáticos famosos e considerado como tendo capacidade de raciocínio numérico equivalente ao de um menino de 14 anos de idade.

Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que su­cederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

Funcionalismo Fundação e Evolução

Ele foi um dos homens mais famosos do mundo; contudo, frequentemente andava pelas ruas de Londres usando protetores de orelha para proteger seus pensamentos de interferências externas. Sempre que sons o perturbavam, seu dia estava arruinado. Charles Darwin o chamava de "nosso filósofo", e, frequentemente, era possível vê-lo va­gando sem rumo "sem conseguir se concentrar, escrever ou mesmo ler” (Coser, 1977, p. 104-105). No verão de 1882 ele chegou aos Estados Unidos, onde foi recebido e homenageado como celebridade internacio­nal. Foi recebido em Nova York por Andrew Carnegie, o multimilionário patriarca da indústria siderúrgica, que o considerou como um messias. E, aos olhos de vários líderes da economia, ciência, política e religião, esse estranho filó­sofo inglês realmente era um salvador. Diversos jantares e festas foram promovidos em sua homenagem. Ainda assim, ele continuou sendo um "semi-inválido e psicótico durante todo o resto de sua vida. Sofria de insônia aguda, que às vezes tentava superar com uma dose bastante pesada de ópium; portanto, nunca conseguia trabalhar mais do que algumas horas por dia. Trabalhar mais horas o levava a um nervosismo inadequado e, portanto, à insônia (Coser, 1977, p . 104-105).

Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata

Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalm ente considerado, na historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, tí­tulo este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados “fundadores” da psicologia, cujas ideias mais sofreram distorções na literatura psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma clara e adequada compreensão de toda a sua obra e o que aqui nos interessa mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa.

A psicologia no recurso aos vetos kantianos

Para entender os rumos da psicologia, especialmente na Alemanha do século XIX. é necessário em primeiro lugar entender as críticas a que foi submetida desde o final do século XVIII. E o mais notável de todos os seus críticos foi Imannuel Kant, considerado o inaugurador da filosofia contemporânea. A ele caberá a colocação dos novos parâmetros para o conhecimento ocidental. Neste aspecto, processa-se uma transformação capital com relação ao século XVIII, uma vez que se passa a distinguir ciência de metafísica, esta entendida como um saber sem fundamento. É ai que ameaçavam ser alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera metafísica na impossibilidade de serem ciências legítimas, graças as críticas kantianas. As criticas foram voltadas para um dos pilares da psicologia de língua alemã do século XVIII, Christian Wolff. Mas essas não se voltaram apenas para a psicologia racional de Wolff mas também para a sua psicologia empírica. Segundo Kant, em seus Princípios metafísicos da ciência da natureza (1989 [1786]: 32-33), a psicologia empírica para se provar como ciência propriamente dita deveria:

Ideias Psicológicas na cultura Luso-brasileira, do séc. XVI ao XVIII

As instituições superiores de ensino são criadas no Brasil somente no século XIX, o que faz com que a psicologia percorra outros caminhos em sua história entre nós. Indica-se a reconstrução de conhecimentos e práticas psicológicas presentes no contexto de culturas e sociedades específicas, expressivos das diversas “visões de mundo” que as caracterizam. Entende-se por visão de mundo aquele conjunto de aspirações, de sentimentos e de ideias que reúne os membros de um mesmo grupo e os diferencia de outros grupos sociais. Evidenciaremos a seguir alguns tópicos da produção cultural brasileira do período entre o século XVI e o início do século XIX que podemos reconhecer como significativos para a história dos conhecimentos psicológicos na cultura ocidental.

A Psicologia do Séc. XVIII
Em torno de 1770, o autor de um artigo sobre psicologia numa enciclopédia suiça termina seu texto com a seguinte pergunta: “Qual é a ciência que mereça nossa atenção e que não tenha a psicologia por base, princípio e guia?” Ele acrescenta ainda que sem o conhecimento da natureza, das faculdades, qualidades, estados, relações e destinação da alma humana, nós não podemos julgar nem decidir sobre nada, nem determinar nada, nem escolher, nem preferir nada, nem fazer nada com segurança e sem erro. Assim a psicologia é a primeira, a mais útil de todas as ciências, a fonte, a fundação de todas e o guia que conduz a cada uma delas. (Mingard, 1770-1775: 511-513)
As Influências Fisiológicas na Psicologia

Os sapatos de David Kinnebrook eram engraxados todas as noites, mas esse era o único benefício que tinha no seu emprego. Seu trabalho era solitário, maçante e muito estressante. Era forçado a morar no mesmo prédio em que trabalhava e tinha que estar disponível das 7h da manhã às 10h da noite, sete dias da semana. Além disso, muitas vezes um alarme tocava no meio da noite, chamando-o de volta ao trabalho. Ele recebia um salário muito peque­no para tudo isso, e três refeições por dia, e, lógico, seus sapatos eram engraxados. Quais eram as qualificações para esse emprego mara­vilhoso? Um dos cientistas que supervisionava esse serviço escreveu: "Quero homens incansáveis, que trabalhem muito, e acima de tudo, escravos obedientes do trabalho, que ficarão satisfeitos por passarem seu dia usando suas mãos e olhos no ato mecânico de observar, e o resto do tempo, no processo maçante de calcular" (apud Croarken, 2003, p. 286).

O Múltiplo surgimento da Psicologia

No começo de qualquer trabalho histórico, impõe-se uma questão inicial: seriam as transformações do objeto estudado produto da evolução gradual e contínua de uma experiência original, ou seriam o resultado de múltiplas combinações casuais e inesperadas? É desta forma que o filósofo e historiador Michel Foucault (1982) nos coloca perante uma escolha de que nenhum historiador pode se omitir. Perguntamos então: como esta questão se configura na história da psicologia? É quase um consenso entre os historiadores da psicologia o estabelecimento do século XIX como marco institucional do surgimento dessa disciplina. Mas o historiador não se satisfaz com inaugurações oficiais, sempre se perguntando sobre que experiências, práticas e saberes estariam condicionando essa fundação.

As influências filosóficas na Psicologia

Parecia um pato, grasnava como um pato, esticava as pernas para se levantar quando seu cuidador estendia as mãos oferecendo grãos de milho, esticava o pescoço para pegar o milho com seu bico, e o engolia, como faz um pato. E depois, excretava numa travessa de prata - como um pato Só que não era um pato, pelo menos não de verdade. Era um pato mecânico, uma máquina cheia de alavancas e dentes de engrenagem e molas que faziam com que se movimentasse, imitando o comportamento de um pato. Só uma das asas continha mais de 400 partes. Foi considerado uma das grandes maravilhas da época.

O Estudo da História da Psicologia

Alguns psicólogos dedicam-se às funções cognitivas, enquanto outros lidam com as forças inconscientes; e há ainda os que trabalham somente com o comportamento observável ou os processos fisiológicos e bioquímicos. A psicologia moderna compreende várias áreas de estudo que pouco parecem ter em comum, exceto o grande interesse na natureza e no comportamento humanos, e uma abordagem que tenta, de algum modo. ser científica. A única linha de trabalho que une essas áreas e esses tratamentos distintos para formar um contexto coerente é a história, ou seja, a evolução da psicologia ao longo do tempo como uma disciplina independente. Somente a exploração das origens da psicologia e o estudo do seu desenvolvimento é que proporcionam uma visão clara da natureza da psico­logia atual. O conhecimento histórico organiza a desordem e estabelece um significado ao que parece ser um caos. colocando o passado em perspectiva para explicar o presente.

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França
Infância, uma evolução do despudor medieval à moral moderna
Uma das leis não escritas de nossa moral contemporânea, a mais imperiosa e a mais respeitada de todas, exige que diante das crianças os adultos se abstenham de qualquer alusão, sobretudo jocosa, a assuntos sexuais. Esse sentimento era totalmente estranho à antiga sociedade. O leitor moderno do diário em que Heroard, o médico de Henrique IV, anotava os fatos corriqueiros da vida do jovem Luís Xlll ' fica confuso diante da liberdade com que se tratavam as crianças, da grosseria das brincadeiras e da indecência dos gestos cuja publicidade não chocava ninguém e que, ao contrário, pareciam perfeitamente naturais. Nenhum outro documento poderia dar-nos uma ideia mais nítida da total ausência do sentimento moderno da infância nos últimos anos do século XVI e início do XVII.
Filosofia Clássica
Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos
Platão, o mais 'nobre' dos discípulos de Sócrates, foi o seu mais fiel defensor e o que mais fez referências a ele, a tal ponto que os estudiosos chegam a ter certa dificuldade em separar as ideias e conceitos de Sócrates, que nunca escreveu nada, das ideias e conceitos do próprio Platão, que se tornou assim, a voz socrática que ecoa ao longo dos milênios. Platão nasceu em berço de ouro no V século antes da era comum mais precisamente em 428, e morreu em 347. Sua educação, como a de qualquer cidadão de família aristocrática, foi voltada ao governo e a guerra, educado nas letras clássicas e nos esportes, fato comprovado pelo seu epiteto 'Platão' que significa 'costas largas'. Platão era o filósofo atleta. Não há relatos sobre sua vida amorosa, diferentemente de Aristóteles que era conhecido por seu amor ao sexo feminino. Platão fora fortemente abalado e influenciado pelo julgamento, condenação e execução de Sócrates, fato que considerava até certo ponto como sua própria culpa.
Civilização
A descoberta da infância
Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo. Uma miniatura otoniana do século XII nos dá uma idéia impressionante da deformação que o artista impunha então aos corpos das crianças, em um sentido que nos parece muito distante de nosso sentimento e de nossa visão. O tema é a cena do Evangelho em que Jesus pede que se deixe vir a ele as criancinhas[1], sendo o texto latino claro: parvuli. Ora, o miniaturista agrupou em torno de Jesus oito verdadeiros homens, sem nenhuma das características da infância: eles foram simplesmente reproduzidos em uma escala menor. Apenas seu tamanho os distingue dos adultos. Em uma miniatura francesa do fim do século XII as três crianças que São Nicolau ressuscita estão representadas numa escala mais reduzida que os adultos, sem nenhuma diferença de expressão ou de traços. O pintor não hesitava em dar à nudez das crianças, nos raríssimos casos em que era exposta, a musculatura do adulto: assim, no livro de salmos de São Luís de Leyde[2] datado do fim do século XII ou do início do XIII, Ismael, pouco depois de seu nascimento, tem os músculos abdominais e peitorais de um homem. Embora exibisse mais sentimento ao retratar a infância, o século XIII continuou fiel a esse procedimento. Na bíblia moraliza da de São Luís, as crianças são representadas com maior freqüência, mas nem sempre são caracterizadas por algo além de seu tamanho. Num episódio da vida de Jacó, Isaque está sentado entre suas duas mulheres, cercado por uns 15 homenzinhos que batem na cintura dos adultos: são seus filhos[3]. Quando Jó é recompensado por sua fé e fica novamente rico, o iluminista evoca sua fortuna colocando Jó entre um rebanho, à esquerda, e um grupo de crianças, à direita, igualmente numerosas: imagem tradicional da fecundidade inseparável da riqueza. Numa outra ilustração do livro de Jó, as crianças aparecem escalonadas por ordem de tamanho.
Civilização
O surgimento do conceito das idades da vida
Um homem do século XVI ou XVII ficaria espantado com as exigências de identidade civil a que nós nos submetemos com naturalidade. Assim que nossas crianças começam a falar, ensinamos-lhes seu nome, o nome de seus pais e sua idade. Ficamos muito orgulhosos quando Paulinho, ao ser perguntado sobre sua idade, responde corretamente que tem dois anos e meio. De fato, sentimos que é importante que Paulinho não erre: que seria dele se esquecesse sua idade? Na savana africana a idade é ainda uma noção bastante obscura, algo não tão importante a ponto de não poder ser esquecido. Mas em nossas civilizações técnicas, como poderíamos esquecer a data exata de nosso nascimento, se a cada viagem temos de escrevê-la na ficha de polícia do hotel, se a cada candidatura, a cada requerimento, a cada formulário a ser preenchido, e Deus sabe quantos há e quantos haverá no futuro, é sempre preciso recordá-la. Paulinho dará sua idade na escola e logo se tornará Paulo N, da turma x.
Cultura
Da aprendizagem tribal nasce a Escola, e com esta, acentua-se a diferença de classes
Mesmo em algumas sociedades primitivas, quando o trabalho que produz os bens e quando o poder que reproduz a ordem são divididos e começam a gerar hierarquias sociais, também o saber comum da tribo se divide, começa a se distribuir desigualmente e pode passar a servir ao uso político de reforçar a diferença, no lugar de um saber anterior, que afirmava a comunidade. Então é o começo de quando a sociedade separa e aos poucos opõe: o que faz, o que se sabe com o que se faz e o que se faz com o que se sabe. Então é quando, entre outras categorias de especialidades sociais, aparecem as de saber e de ensinar a saber. Este é o começo do momento em 'que a educação vira o ensino, que inventa a pedagogia, reduz a aldeia à escola e transforma "todos" no educador.
Civilização
O processo de ensino-aprendizagem nas sociedades tribais
De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante. Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas. Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela existe em cada povo, ou entre povos que se encontram. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade, a educação existe difusa em todos os mundos sociais, entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender; primeiro, sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos.
Psicologia Evolucionista
Quatro questões sobre o comportamento animal
De uma forma ou outra, o comportamento animal tem sido estudado por milhares de anos. O comportamento animal era importante nas eras antigas por alguns dos mesmos motivos que é importante agora. Os caçadores e pescadores mais habilidosos geralmente são aqueles que conseguem fazer previsões sobre o comportamento de sua presa. É importante saber que salmões em desova não respondem à isca do pescador, que os roedores fogem em direção ao escuro enquanto os pássaros fogem rumo à luz e que muitos animais lutarão, alguns ferozmente, quando capturados. Por razões práticas o estudo do comportamento animal ocupou a franja da consciência humana durante séculos. Mais recentemente, quando os animais foram domesticados e postos a trabalhar, se tornou necessário a aprendizagem de algumas coisas sobre eles. Cavalos poderiam ser treinados para serem montados e para puxarem carros ou ferramentas agrícolas. Cães poderiam ser treinados para rastrearem presas ou protegerem os humanos, os gatos não.
Portugal
Império marítimo português: o Estado da Índia
Como sistema econômico, o Estado da índia era efetivamente a articulação da «carreira da índia», a grande rota transoceânica que ligava Lisboa ao colonato português de Goa, na costa ocidental da India, e a uma série de escalas que conectavam vários lugares da Ásia a Goa e à carreira. Os Portugueses procuraram monopolizar o comércio do oceano Indico, eliminando rivais poderosos (Turcos, Mamelucos e Guzerates) e controlando o comércio a partir de uma série de feitorias e fortalezas que vieram a estender-se de Sofala (África Oriental) a Ormuz (golfo Pérsico), Cochim (índia Ocidental), Malaca (Malásia) e além-Macau (China). A alfândega da Casa das índias, em Lisboa, o vice-rei e outros agentes régios presentes nos portos e feitorias do oceano índico administravam o monopólio real sobre a pimenta, a canela e outras especiarias. Durante a primeira metade do século XVI, este sistema proporcionou lucros consideráveis à coroa. Contudo, após a penetração portuguesa original e as primeiras vitórias militares, o comércio local do oceano índico recuperou e encontrou maneiras de abastecer as antigas rotas das caravanas para o Médio Oriente. As contínuas tentativas portuguesas para estrangular este comércio concorrente fizerem disparar os custos da operação imperial e acabaram por se revelar infrutíferas. A política foi alterada. Em vez de eliminarem o comércio local, os Portugueses procuraram controlar e taxar o comércio privado através de um sistema de «cartazes» (licenças), que gerou receitas apreciáveis para o Estado da índia mas permitiu o desenvolvimento das rotas alternativas do comércio das especiarias e minou o monopólio da carreira, que continuava a ser a principal aposta da coroa.
Mitologia Romana
A mitologia dos etruscos
Os etruscos eram os habitantes aborígines do centro da Itália, e sua cultura foi o berço da civilização romana. Com frequência isto é menosprezado, pois os romanos enfatizavam sua herança latina, sua origem troiana e raízes helênicas. Depois que os romanos saquearam a cidade etrusca de Veios em 396 a.e.c., os etruscos foram incorporados à república de Roma e sua cultura tornou-se quase invisível. Os etruscos acreditavam em vários deuses. Sua tríade regente consistia em Tinia, o rei dos céus; Uni, sua esposa, deusa do cosmo; e Minerva, deusa da sabedoria e da guerra, que nascera da cabeça de Tinia. Em Roma, essa tríade se transformou nos deuses do Capitólio: Júpiter, Juno e Minerva.
Mitologia Chinesa
Mitologia chinesa, uma mitologia incomum
Na maior parte das civilizações, as tradições antigas
e freqüentemente também a literatura são mitológicas e referem-se às origens remotas ou à criação do mundo, assim como aos contos dos seres sobrenaturais. A China, à primeira vista, parece ser uma exceção. Nos Clássicos
os mais antigos livros chineses e os livros de textos da escola de Confúcio, encontramos estórias de homens,
reis e nobres, soldados e camponeses, mas não de deuses. O Livro de História,
embora, provavelmente,
em certa medida, fantasiado
não contém registros
de contos ligados à criação
e trata principalmente
das atividades humanas. O famoso
Livro das Mudanças é simbólico, mas não
tem a forma de conto e era tradicionalmente
interpretado como relatando acontecimentos verídicos.
O Livro dos Cânticos contém, na sua maior parte, canções populares, mas surgem traços mitológicos nos hinos
de rituais. Os Clássicos são categoricamente antimitológicos, refletindo os ideais confucianos dos editores.
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